sábado, dezembro 22, 2007

de momentos, pt II

pedi licensa, gritei pros céus.

então, o sol apareceu para me dar bom dia. respirei fundo, parecia flutuar no topo daquela colina, acima de tantos arranha-céus.

então, ela apareceu e me abraçou com força, encostando seu rosto em minhas costas. foi o suficiente para que eu descesse para uma realidade bem mais doce daonde eu decolei.

quarta-feira, dezembro 19, 2007

spring lullabies

já não procuro mais
achar a solução
pro que se passa agora

caminhos longos demais
e os versos da canção
me acompanham por onde
o vento me levar


já não quero acreditar
que um dia isso aconteceu
o que me importa agora
se você desapareceu?


se a tua fonte secar
em quais águas vou admirar
o reflexo das aves voando
rumo ao céu, rumo à luz?


alcançar o céu...



olhe pra frente e veja, sinta
o sol já se escondeu
atrás das montanhas


*de algum dia de 2006.

[guilherme amato e diego diegues]

terça-feira, dezembro 18, 2007

morte da vontade e resistência da liberdade

olhe pro céu. pergunte às nuvens se é vontade delas se arrastar tão alto. o que será que elas responderiam se você as perguntasse 'como vai a vida', ou até sendo mais profundo, 'o que você espera da vida'? que tipo de aspirações ou pretensões poderia ter uma nuvem? qual a sua rotina, se não deslizar pelo manto azul, dia após dia? e qual vem a ser a diferença de uma nuvem pra uma pessoa aqui, presa nas correntes do cotidiano? acordar, condução, trabalhar, almoçar, estudar, dormir.

é aí que percebo o quanto errado estou em jogar nas costas do planeta a culpa da velocidade da vida. a culpa é minha. a culpa é nossa. o tempo deu aos homens a chance de esquematizar a vida. nascer, andar, falar, crescer. estudar, trabalhar, casar, procriar. descansar e morrer. necessariamente nessa ordem. e, inconscientes, seguimos a rotina impulsionado o globo que gira cada vez mais rápido. não por vontade própria.

foi escolha nossa, trabalhar e não admirar as montanhas. foi escolha nossa, andar de ônibus ao invés de caminhar sentindo o vento nos nossos rostos. foi escolha nossa, e de todos que vieram antes, seguir ponteiros e não o sol.

foi nossa a escolha de fazer tudo ao mesmo tempo e não sentir o prazer de cada momento. foi nossa a escolha de convivermos virtualmente e não sentir a respiração de nossos amigos, não ver suas expressões em seus olhos e não ouvir a entonação de suas vozes.

foi a continuidade do progresso e a comodidade da sociedade que nos tornou engrenagens programadas. seguimos cronogramas, executamos tarefas, conversamos com os dedos e mandamos cartas binárias. aí me pergunto, e estendo a pergunta a você: onde reside o livre arbítrio? em nossas mentes, em nossos corações, ou nas nuvens?

talvez, exausto de gritar e não ser ouvido por nenhuma das engrenagens, ele já esteja em seu caixão. cansou de ser rejeitado por nós, robôs. e tudo está muito claro. o próximo a cansar e suicidar-se é o próprio planeta. que culpa tem ele se nós o pisamos quando deveríamos carinhosamente tratá-lo. és um enfermo em fim de vida. mas temos a coragem de ainda culpá-lo pelos nossos erros e pelo céu cinzento.

será que somos tão hipócritas ao não ver que a sujeira é criação nossa? que o desequilíbrio é conseqüência de nossas atitudes? ainda sim reclamamos da falta de tempo, da falta de dinheiro, sendo que fomos nós que graduamos os segundos e passamos a viver baseados em suas voltas, e fomos nós também que paramos de trocar e começamos a vender. onde foi parar a vontade, sendo que vivemos sessenta anos de nossas vidas juntando migalhas pra ser feliz por mais três anos, e pensar 'eu vivi da maneira correta' no leito de morte?

a vida teria graça se não tentássemos seguir o mesmo percurso que os livros, a mídia e os homens determinam. as vezes sinto o calor de uma faísca de esperança, no beijo de um amor, na conversa de um amigo, nos acordes de um piano ou até mesmo na beleza das apressadas nuvens. mas logo a realidade me invade. não consigo aceitar que os homens tomam café, apenas para se sentirem dispostos para mais um dia de movimentos decorados, e não pelo prazer de sentir o gosto entrando em suas veias sem pedir licença.

não consigo aceitar a capitalização das notas para encher o bolso de empresários, que enjaulam as cordas e as transformam em lucro. as horas passam, e cada vez mais as deixamos escapar por entre nossos dedos. já diziam os poetas, 'podemos assistir os momentos passarem, ou vê-los como nossos últimos, e abraçá-los por tudo que eles valem'.

por isso largo o teclado, o lápis, a pena, o que quer que seja. vou sair para ver o bucolismo melancólico das solitárias árvores que restam. vou sair para conversar com o que resta da resistência. vou sair para ver o mundo antes que ele ou eu surte definitivamente. vou sair pra fazer valer a pena o que resta de vida em meu espírito.

[ guilherme amato e pedro destro ]

segunda-feira, dezembro 17, 2007

pétalas

o cravo brigou com a rosa, daquelas brigas feias que deixaram a rosa chorando, e o cravo confuso. o jardineiro, tentou apartar a briga, mas os espinhos da rosa fizeram sua mão sangrar. com receio, ele saiu da estufa. do lado de fora, a chuva caia torrencialmente, confraternizando com as lágrimas da triste rosa.

o cravo brigou com a rosa, e fazia quase uma semana que ela chorava. pálida, olhava pelo vidro, não tinha coragem de olhar para o seu próprio reflexo. o cravo, por sua vez, ficava quieto num canto, com as folhas largadas, um tanto quanto perdido. o jardineiro, debaixo de um guarda-chuva, assistia de fora aquela cena que partia seu coração.

o cravo brigou com a rosa, e um mês depois, o cravo já não dizia nada , não sentia nada. a rosa, ressecada por deixar escapar tantas lágrimas. eles não se falavam mais, não se olhavam mais. e os dias foram passando, o cravo continuava inerte a tudo, apenas olhava para o teto sem saber muito bem o que pensar.

o cravo brigou com a rosa, que depois de dois meses sucumbiu à tristeza e à desidratação. morreu em silêncio, olhando a chuva lá fora. chuva essa que se misturava às lágrimas do jardineiro. o cravo não disse nada. apenas desviou o olhar por um segundo. não conseguia mais sentir tristeza. era apenas um caule vazio.


o cravo brigou com a rosa, mas o jardineiro preferiu não intervir.

quinta-feira, dezembro 13, 2007

alcançar o céu

aumentou o volume.

olhou de cima aquelas pessoas que cantavam junto palavra por palavra. as cordas vibravam incessantes, fazendo com que todos os presentes pegassem fogo, gritando aquelas linhas como se o mundo fosse acabar quando o amplificador parasse de rugir. aquela imagem ficou pra sempre em sua memória. eterno. estariam eternamente vivos no coração dos que os viram em ação.

segunda-feira, dezembro 10, 2007

início

a terra infeliz me fez crescer em dias que passaram em segundos, no céu sem luz uma estrela morreu com seu brilho que um dia veio a mim. e o que era desconforto tornou-se imensa satisfação e eu me sinto seguro, encontro forças pra mudar. o aparente problema transformado em solução, superará a perturbação. foi de repente, minha reta acabou ou penso que minha curva que se alinhou. não posso prever quando a noite vem com madrugadas que esperam o dia.

[guilherme amato, pedro destro e thiago luis]

domingo, dezembro 09, 2007

de momentos, pt I

aí você pergunta pra ela:
-você quer dançar comigo?

e o mundo se resume à pista imaginária em que o corredor da sala se tornou. então você diz baixinho, 'gosto muito de você', daquele jeito mais sincero que você consegue imaginar, pra que em momento nenhum na cabeça dela exista qualquer rastro de dúvida.

quinta-feira, dezembro 06, 2007

os vasos, os olhos e a chuva

os vasos quebrados, sujos de terra, o azulejo terracota manchado, e a água que saía da mangueira escorria pelo ralo. de cima, só se via um quintal vazio. ele respirava profundamente, e da laje via os prédios bem ao fundo, afugentados pelo mar de árvores que se fechava à sua volta. pensava ter descoberto um canto de paraíso só para ele, bucolicamente desenhado com tijolos e cimento. o filho do vizinho, um garotinho de 3 anos de idade, olhava assustado pela janela, murmurava algo ao ver aquele rapaz em pé alí tomando a chuva e admirando o horizonte. não conseguia compreender, pois sua consciência assimilava a chuva como algo de que se devia correr. no quintal, seu cachorro comia as flores que haviam caído do vaso, e ao ver seu dono se aproximar da borda, começou a latir, mesmo sem saber direito o porquê. apenas pressentia. ele, lá de cima, não tirava os olhos dos prédios, como se eles o chamassem. sentia frio, mas não se importava. sua roupa molhada parecia não ter peso. sentia-se nu, sentindo intensamente cada gota, cada brisa. as nuvens, ao longe, escondiam o sol, egoístas. começou a sussurrar palavras mágicas, freneticamente. abriu os braços e gritou o mais alto que pode. então sentou-se na borda. a chuva já ia parando quando seu chinelo de dedo deslizou de seu pé e acertou mais um vaso que pendia na borda da mureta, fazendo um barulho cortante que afugentou o cachorro, e o tirou de seu transe. olhou para baixo, virou-se e desceu as escadas. juntou o punhado de terra que se espalhava ao redor, e jogou dentro de outro vaso. olhou por alguns instantes as flores jogadas ao chão. então sentiu seus pensamentos, percebendo a complexidade daquele momento. para ele, era quase um universo se extinguindo à sua frente, as casas, os prédios, as flores, os vasos, os olhos e a chuva.

mas era apenas o cheiro das rosas.

terça-feira, dezembro 04, 2007

café, ônibus, sonhos e cartas

ele acorda sempre cansado, independente de quantas horas dorme.
está sempre atrasado, independente de quão cedo acorde.
corre até o ponto e pula apressado no ônibus, e fica em pé até a primeira estação.

então ele senta, dorme, sonha. imagina um futuro feliz, repleto de flores, casas grandes, viagens e tatuagens. tudo isso pra acordar depois e saltar de um ônibus pra outro.

ele está sempre com pressa.

atravessa o coração da cidade sem saber se sonha com tantas pessoas andando ou se ainda está acordado. os prédios, tão altos, parecem se dobrar sobre sua cabeça. até que a terra o engole.

toma um copo de café pra espantar o sono e começar a rotina. mas o dia ainda não havia começado. mesmo já sendo a terceira ligação na sua mesa, o dia realmente não havia começado.


até que toca o outro telefone, menos de um segundo. surge também um sorriso em seu rosto...


... aí sim o dia começa.

quarta-feira, novembro 28, 2007

sobre estradas e constelações

a madrugada corria inerte enquanto o carro atravessava a estrada à toda velocidade. àquela hora já não existia nada além daqueles faróis cortando o escuro. do lado de dentro, os acordes do violão soavam estridentes, enquanto de mãos atadas, um casal seguia seu rumo. ela, dormindo serenamente, cansada de dirigir durante boa parte do dia. ele, com uma mão no volante, dividia sua atenção entre a estrada e o perfume inebriante que tomava conta do interior do carro. passados oito anos desde aquele primeiro encontro, surpreendia-se como conseguia ficar tão hipnotizado por seu cheiro, seu olhar, sua voz. os anos iam se passando, e a cada dia ele se apaixonava de novo. a cada beijo, o frio na barriga, como se fosse a primeira vez. pequenas casas de barro se projetavama na beira da estrada, algumas poucas com uma luz fraca pulando pela janela, como se quisesse enfrentar a escuridão imensa do lado de fora. as estrelas observavam a cena tentando capturar aquela imagem numa pintura eterna, exposta no céu. o relógio marcava agora quatro e meia, e após um aclive, um planalto com campos de trigo, cinematográficos. balançavam ao vento como se feitos para aquela ocasião. então, ele parou o carro. ao longe, avistou um mirante, na boca de um desfiladeiro. seguiu uma pequena estrada de terra até lá, e ficou espantado com o que vira. era como se o mundo acabasse ali. à sua frente, uma queda de centenas de metros, um mar de montanhas envoltas na neblina. a lua, que pairava em suas costas, já seguia o rumo de casa. olhou em volta por alguns segundos. no mirante cercado por uma pequena cerca branca, havia um banco de madeira. então, ele voltou até o carro, e olhou para ela. dormia profundamente. pegou-a no colo com todo cuidado para que não a acordasse, sentou-se no banco, deitou-a em seu colo, e ficou ali, olhando as estrelas, que dançavam incessantes. não sabia se era culpa do sono, se sonhava ou o mundo que se desenhava perfeito frente a seus olhos. olhou para baixo, e viu o rosto daquela pessoa que amava mais do que tudo. ela sorria em seu sono. beijou-a no rosto, fazendo-a acordar. então, como se fosse ensaiado, o sol começou a nascer para os dois. somente para os dois. se olharam profundamente por uma eternidade dentro de alguns poucos segundos, e sem falar nada, disseram tudo que queriam um para o outro. então se beijaram, e naquele exato instante, o sol resolveu mudar de cor e convocar todos os pássaros do mundo para cantar em homenagem ao amor que encontrava sua mais pura forma no alto daquela colina. . como se fosse um quadro, as cores ganharam mais vida. . quando voltaram à estrada, eram quase oito da manhã. alguns quilômetros depois, encontravam-se num posto, tomando café-da-manhã. ainda enfrentariam quase cem quilômetros até o hotel. . enquanto ela dirigia calmamente, ele, de olhos fechados, cantarolava a música que saia do rádio. o vento batia em seu rosto dando uma sensação de infinidade. se sentia eterno, ouvindo aquela voz. chegaram ao hotel no tempo previsto, e após poucos minutos estavam deitados sobre um lençol branco de seda. pela janela, o sol continuava devoto, brilhando espectralmente, deixando a pele clara dos dois com um tom dourado-brilhante. entrelaçados, sentiam seus corações batendo em sincronia, enquanto se perdiam em olhares. eram eles, unidos, únicos. especiais. emocionado, o céu começou a chorar de alegria, e a chuva começava a bater no vidro da janela. eram as pequenas gotas agora que também davam a sua benção. do lado de dentro, eles dormiam. . e há quem diga que eles dormiram por toda uma eternidade, sorrindo.

quinta-feira, novembro 01, 2007

apaga a luz e me dá a mão

hey, então olha pra cá, nos meus olhos.

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me dá a mão, vamos dançar. a rua é nossa pista, a lua é nosso globo.

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frente a frente, não existe mundo, não existe rumo. não existe porquê.
há apenas a melodia de um dia chuvoso, e o cheiro de plantas umidas na calçada.

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quero olhar pro céu, pra estrela mais alta, e quando voltar pra terra, ter teus braços pra me fazer pousar seguro, e me fazer enfrentar o escuro.

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pois o medo de não ter mais teus carinhos e perder esses teus risos me faz fechar os olhos.

e o receio de soltar tuas mãos a cada despedida me faz tremer.

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só quero teu abraço pra me esquentar e expulsar o frio desse quarto azul.

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só quero dançar a noite inteira sem me importar...

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segunda-feira, outubro 29, 2007

crônicas da cidade, volume V

da janela ele conseguia ver algumas árvores
verdes, roxas, amarelas, lindas
casas antigas com telhadinhos terracota
e tanta gente perdida lá embaixo
as vezes tinha vontade de pular de lá de cima
e beijar com força o chão da cidade sem medo

o sol batia forte na soleira
só queria poder retribuir essa luz
via reflexos ao longe, sorrisos
e ouvia carros e bem-te-vis

queria sentir a pele queimando
e gritar ao mundo os ditos de seu coração
via prédios distorcidos pelo copo d'água
e as roupas balançando no varal
queria poder voar

quinta-feira, outubro 18, 2007

a u t o r e t r a t o

meu nome é guilherme. completei dezenove anos em maio. sou formado em webdesign pela unip, e atualmente curso design gráfico, também na unip. trabalho numa associação chamada abmi. de segunda a sexta, almoço num boteco chamado pitalmeida, aquela coisa, chama o garçom pelo nome e pede 'o de sempre'. uma porção de arroz e feijão, só. eu estaria anêmico se não fosse a vitamina de frutas que acompanha a refeição. de noite, geralmente acabo comendo yakisoba nas banquinhas da paulista. faz um mal danado, mas é bom e barato. todo dia acordo, pego ônibus, e se estiver atrasado, pego também o metrô. me agrada observar as milhares de pessoas que transitam pela cidade todos os dias, cada um com sua pequena rotina, cada um em seu pequeno mundo. gosto também de olhar bem nos olhos das pessoas que eu nunca vi na vida, e absorver delas o máximo que conseguir, e analisar a reação delas depois. o metrô me inspira, e acabo sempre tendo boas idéias ou escrevendo bons textos enquanto nele viajo. aos finais de semana, geralmente acabo ensaiando. toco em duas bandas. tocar bateria é algo que me dá prazer e me faz esquecer do mundo. guitarra era, não é mais. se não ensaio, acabo dormindo o dia todo. minha vida é um tanto quanto monótona. aliás, acho que sempre foi, tirando um ou outro interlúdio. já tive várias bandas, algumas poucas namoradas, fiz vários cursos, e já briguei com muita gente. tenho amigos. não são muitos, mas cada um deles vale por trinta amigos comuns. tive um relacionamento de quatro anos com a minha melhor amiga. aprendi muito, cresci muito, errei muito, e amei muito. com doze anos, entrei em cirurgia para corrigir uma arritmia no coração, e eu me achava gente grande por usar tantos aparelhos e ir para a faca tratar de algo que só se trata com sessenta ou mais anos. fiz um piercing na boca que hoje em dia praticamente nem uso. fiz também uma tatuagem nas costas que não costumo mostrar para ninguém, e pretendo fazer outras, e também pretendo não ficar mostrando. já fui em inúmeros shows, assisti inúmeras bandas tocando ao vivo, cada uma com um sentimento diferente. já chorei incontáveis vezes, seja por raiva, tristeza, alegria, pena, seja deitado na cama, trancado no banheiro ou na frente dos outros. quando tinha quinze anos, num acesso de raiva, esmurrei a parede do meu quarto até a mão sangrar. com quinze anos também comecei o primeiro projeto de ter uma banda, que não foi pra frente. já entrei em depressão, e também já tive picos de felicidade que nem conseguia acreditar. concordo cada vez mais com o que falei para um grande amigo uma vez, a vida dos poetas, artistas, músicos, criativos, sonhadores, não segue uma linearidade. é cheia de altos e baixos, quedas e ascenções, uma atrás da outra. as vezes bebia até perder os sentidos, mas na virada de dois mil e cinco para dois mil e seis, resolvi largar completamente tudo isso, o que só me trouxe benefícios. já andei de skate, e já me quebrei muito fazendo isso. já lutei judô, fiz aulas de natação, futebol, basquete, ginástica olímpica, mas hoje em dia não passo de um sedentário. da janela do escritório, vejo boa parte do bairro de pinheiros, vejo a teodoro sampaio imensa. da janela do meu quarto, vejo meu bairro, descendo calmo e subindo em seguida. as nuvens costumam aparecer laranjas logo que amanhece, parece até um quadro. ando sempre com três coisas nos bolsos, carteira, celular e chave, não consigo sair sem eles. e também, me sinto nu se não estiver com o relógio no pulso esquerdo e a pulseira no direito. tenho barba relativamente grande, porque a preguiça sempre me impede de apará-la. o mesmo se aplica a meu cabelo. tenho olhos pequenos, puxados, o que já me rendeu perguntas do tipo 'você tem descendência oriental?', sendo que meu sangue é completamente europeu. a minha vida, como eu já disse, é um tanto quanto monótona, por mais que eu tente fazer de tudo para mudar isso, sempre acabo achando que falta algo. está no ar, mas eu não consigo sentir. passo horas e horas na frente do computador, e isso vai acabar me matando. de tédio ou de dor de cabeça, não sei, mas vai. minhas músicas preferidas não são as preferidas de ninguém. meus sonhos são maiores do que todos. meu sonho é alcançar o céu. minha cama é alta, perigoso. meu quarto é azul, maçante. um dia ainda pinto o quarto de vermelho. meus tênis são todos allstars, não consigo usar outro. meu prédio é o britanis, um branco revestido de pastilhas que costumavam cair na minha cabeça quando eu era mais novo. nasci em mococa, em maio de oitenta e oito, no hospital dona carolina. vim para são paulo com aproximadamente um ano de idade. sempre quis morar no interior, e estudar na unicamp, mas sei que hoje em dia não aguentaria nem um mês longe do ar poluído de são paulo. nem do barulho incessante dos carros e ônibus que permeiam as ruas movimentadas. eu queria várias coisas. queria um carro, uma namorada, entrar na usp, um emprego que eu realmente gostasse, queria que as bandas crescessem, queria também achar uma banda onde o som que eu fizesse com ela me faria (e faria os outros) se sentir do jeito que eu me sinto quando escuto hot water music e noção de nada. queria poder abraçar o mundo todo de uma vez só. queria ter chances de arrumar vários erros que cometi durante a minha vida, mas sei que não posso. então, sigo tentando não errar mais. claro, é impossível, mas eu estou tentando o meu melhor. e pra ser sincero, os resultados vem sendo melhores do que eu esperava.

queria também me olhar no espelho e não ver olhos cansados. quando der, eu juro que vou descansar até as olheiras sumirem completamente. aí então, quem sabe, não paro de escrever apenas rascunhos, e escrevo um livro.

segunda-feira, outubro 15, 2007

sobre lâmpadas apagadas e um punhal enferrujado

silêncio.

e de repente, ele se levantou impaciente. como podia, tanta indiferença vindo de um coração tão colorido? mas era, aparentemente, o fim.

'não dá mais', gritou, 'não aguento você me olhando com essa cara! como pode, fazer isso comigo?', ela apenas olhava. fria como um iceberg. mostrando apenas uma ponta insignificante daquele sentimento monumental, velado sob uma camada de gelo.

'não dá mais, querido. você tem que entender', dizia, calculista. aquelas palavras entrariam em seu peito como um punhal, pensava ela. o sangue imaginário, descia marrom, numa mistura de sangue, petróleo e ferrugem, manchando a calçada e afogando os lamentos. os latidos da vizinhança haviam cessado, e os ponteiros de seu relógio faziam um barulho ensurdecedor, e à medida que a conversa se extendia, a madrugada se anunciava, pintando o céu de uma cor púrpura densa e escura.

eis que cai novamente sobre eles o silêncio.

sentada no chão, ela o observava, a passos largos, indo de um lado para o outro inquieto e pensativo. respirava calmamente, como se toda aquela exaltação por parte dele não acontecesse dentro dela também. não deixava transparecer nem um fio de preocupação.

as horas iam passando, e então ele começou a chorar. de dor, de raiva, de tristeza. ela se limitava a olhar para as montanhas. seu peito ia se corroendo ao ouvir cada soluço dele, mas não deixaria que ele soubesse que as lágrimas dele a alfinetavam profundamente.

em determinada hora, seus olhos se encontraram. os dele, já vermelhos de tanto chorar, com os dela, impassíveis e frios. as luzes da cidade começavam a ser desligadas, e a manhã lentamente ia chegando. passaram vários minutos calados. 'sabe do que mais?' disse ele, num tom doce, que não parecia guardar todas aquelas lágrimas que foram derramadas. 'depois de tanto tempo, ainda consigo me perder nesses seus olhos'. aquelas palavras foram suficientes para quebrar o escudo que ela havia criado à sua volta. começou a chorar. 'você é bobo demais, sabia? você é bobo demais', repetia maquinalmente. então, tomada por um impulso devastador, lançou-se em seus braços e o beijou ferozmente, como se fosse aquela a última madrugada em que poderia sentir o sabor de ser amada. sentiu-se segura, forte. então recobrou o controle. desvencilhou-se rapidamente e correu em direção à porta. de dentro, ainda podia ouvi-lo gritar a plenos pulmões 'eu te amo! ah, eu te amo!'. subiu correndo as escadas e se atirou na banheira, sorrindo. conseguira finalmente arrancar aquelas palavras dele, que por várias e várias noites sonhou ouvir jogadas aos quatro ventos.


.


sentado no meio fio, ele observava as últimas lâmpadas da cidade iam se apagando enquanto o sol aparecia lentamente, lavando aquelas manchas estampadas no chão, estancando o sangue acobreado que vazava devagar. levantou-se e olhou para trás, e começou a caminhar na direção oposta daquela casa branca. a calçada, agora limpa, era seu único guia naquela manhã que se seguia. a noite havia finalmente chegado ao fim.

segunda-feira, outubro 08, 2007

stars, pt IV

estava sentado no ponto de ônibus, inquieto. eram quase oito horas da noite, e a avenida estava curiosamente vazia. já esperava à quase meia hora, e nada. as estrelas estavam radiantes, coisa incomum para uma noite na cidade-indústria. os postes desperdiçavam energia numa noite tão clara.

eis que chega a condução, vazia. o cobrador e o motorista, quietos, pálidos. um tanto quanto assustador, e teria me assustado, se eu não estivesse tão preocupado com a música. sentei na última fileira, abaixei a cabeça e adormeci, sem perceber que o ônibus havia apagado seu letreiro, e tomava um rumo totalmente diferente de seu itinerário.

acordei lá pelas nove e meia, e olhei pela janela. era uma estrada deserta, com pastos em volta, me lembrando a velha bandeirantes, que já fazia parte da minha vida. o céu, agora sem estrelas, mas claro como um dia comum. o corredor do ônibus agora era quase infinito, milhares de fileiras de assentos, e eu não via mais o cobrador, muito menos o motorista. olhei novamente para o céu, e vi uma estrela cadente, linda, brilhante como só ela. fiz um pedido.

'desejo voltar a sonhar'

a estrela mudou sua pulsação, partindo para um roxo-amarelo-maracujá, e passou a acompanhar o ônibus por um tempo. fiquei ali, me sentindo abraçado por aquela luz quente, enquanto rumava por aquela estrada desconhecida. adormeci novamente.

de repente, senti alguém batendo em meu ombro. 'ei garoto, última parada', dizia o cobrador, um outro, com tez courada e olhos expressivos, muito diferente daquele pálido semblante que aparecera horas atrás. desci, e olhei para o alto, procurando a estrela em vão. porém eu sabia que ela estaria sempre no céu olhando por mim dali pra frente. e com o seu brilho em minha mente, sorri e caminhei em direção ao portão.

terça-feira, outubro 02, 2007

crônicas da cidade, volume IV

eu vi o céu escuro lá fora, tão perfeito, que acabei indo vê-lo mais de perto. as ruas do subúrbio, na madrugada, são frias e quietas, de um certo ponto de vista, aconchegantes. não há carros, não há pessoas, apenas o vento e os postes com lâmpadas semi-acesas. algumas queimadas, algumas quebradas. eu não conseguia pensar em outra coisa que conseguisse me acalmar aquela noite se não andar por aí sem rumo. sempre foi assim, o asfalto curando minha insônia. a pé, sobre rodas ou sob asas, era sempre a visão das faixas amarelas intercaladas que me traziam sossego. não fazia idéia se seria diferente nessa noite, ou se a velha receita se faria valer. ao que me parece, o mundo é um lugar muito melhor de se viver quando cai a noite na cidade barulhenta, que nem barulhenta é mais por essas horas. vejo um banco, nele um jornal, servindo de capa. parei por alguns minutos, de braços abertos e de pernas esticadas apreciava a brisa gelada e a luz da lua. fraca, mas era o suficiente para que eu conseguisse ver para onde ia. lembrei-me então de um velho livro que li quando criança, onde um garoto com uma imaginação inquieta como a minha saia para andar nas ruas, e acabava encontrando um casarão que marcaria sua vida para sempre. uma mansão assustadora, aparentemente abandonada. o garoto se sentia aterrorizado, mas ao mesmo tempo impelido a conhecê-la por dentro. então, levantei-me e continuei a caminhar pelas ladeiras desse bairro que mais parece uma serra, quem sabe não achava algo assim, que me deixasse com calafrios, mas ao mesmo tempo, sentir um impulso incontrolável de me entregar totalmente. hoje parecia a noite perfeita para descobrir se essas coisas existem ou se realmente, a ficção estava começando a se misturar com a minha vida a ponto de me fazer sair de casa em plena madrugada procurando um lugar que não existe fora da minha imaginação. alguns poucos automóveis passavam batidos, com seus ocupantes me encarando, aposto que tentavam imaginar o que levava um garoto a vagar pelas ruas àquela hora da noite. mas para mim, não era tarde, meu sono ainda não tinha aparecido, e eu sentia que a noite estava deveras longe de terminar. continuei cruzando ruas e dobrando esquinas, até que acabei chegando num pequeno parque que nunca havia notado. era uma clareira, com uma pequena cerca verde de metal, alguns bancos de madeira dispostos em círculo e uma fonte desligada no meio. cheguei perto cautelosamente, não queria estragar aquele momento. com cuidado para não pisar nas poucas flores que se arriscavam em viver por alí, cheguei até um dos bancos e me encostei. fitei a fonte por alguns instantes e percebi uma inscrição em sua base, uma pequena frase que me rendeu alguns minutos de reflexão. 'se não pelo amor, porque viver?'. se não pelo prazer de se sentir vivo, porque sentir qualquer coisa? no fundo da fonte, várias moedas depositadas com desejos e sonhos. perguntei para a fonte qual fora o último pedido que havia sido feito naquele dia, esperando atentamente a resposta. fechei os olhos, e me vi alí, em pé na frente da fonte, desejando ardentemente aquela presença. vasculhei meu bolso por moedas em vão. um deja-vu enganoso, de certo. com a cabeça baixa, cantava mentalmente uma canção que me lembrava tardes serenas. quando ergui a cabeça, alguns vagalumes pairavam sobre a fonte, dando um aspecto deveras sacro para toda aquela cena. eis que surge um gato, vagaroso, e para em minha frente. me olha profundamente, como se quisesse dizer algo, então parte. acompanhei atônito a imagem do gato se misturando à folhagem, e quando percebi, já não haviam vagalumes flutuando à minha volta. só o que vi foi algo refletindo a luz do poste no chão. bem onde o gato havia parado, havia uma moeda de prata, uma lira italiana. peguei então a moeda, e de olhos bem cerrados, desejei com todas as minhas forças sentir perto de mim mais uma vez aqueles olhos brilhantes. então parti. o sol já começava a despontar por detrás dos prédios, e em alguns minutos estava de volta à minha rua, caminhando cansado até em casa. ao abrir a porta, estranhei a ausência dos costumeiros latidos me saudando. as três pequenas continuavam dormindo, mesmo com o barulho da fechadura e de meus sapatos velhos batendo no piso. ao subir na minha cama, senti que uma luz começava a surgir pela janela, algo mais forte que o sol que começava timidamente a aparecer. meus olhos foram se fechando aos poucos, enquanto o quarto se banhava em um branco intenso, e me lembro bem de ter visto aqueles olhos sorrindo para mim, momentos antes de adormecer.

asas de pano

ele corria por planícies gramadas iguais àquelas que sempre via em filmes na televisão. de braços abertos, cortando o vento lado a lado com moinhos gigantes, sentia na pele a liberdade de não ter mais com o que se preocupar. apenas corria...

eis que veio a chuva beijar-lhe as têmporas, mas nem as gotas geladas o faziam parar de correr. rumo ao infinito, pensava, rumo ao infinito. serei maior que o tempo...

deixava para trás uma trilha flamejante, de uma cor púrpura intensa, viva. começou a levantar vôo, com asas abertas e cabeça erguida, ganhou os céus num piscar de olhos.

flertou com as estrelas, sentiu a galáxia o abraçando, por todos os lados. dançou com planetas, montou em cometas. sentiu na pele o respirar da lua.

cada vez mais alto, já via de longe a poeira cósmica, que diminuia, e suas asas começaram a crescer, mais e mais. seria maior que o tempo...

os sons já não se propagavam, e o ar não se deslocava. mas no silêncio do universo, aquele anjo seguia sua viagem. já era maior que o tempo...

sábado, setembro 29, 2007

flores e meteoros, pt III

desviou das flechas agudas e ensanguentadas num piscar de olhos, quase cortava o ar. chegou cada vez mais perto da parede do castelo, com sua espada em mãos, o cavaleiro sorria em meio à desgraça. suas batalhas, antes motivo de tanta angústia, lhe traziam um estranho prazer. era como se afrontar a morte fosse um jogo, no qual ele sempre vencia. sua armadura, rachada, lascada, exibia em sua superfície extremamente polida o reflexo de um embate certeiro, colorido por manchas de sangue impressas.

incontáveis soldados já haviam sucumbido, suas ruínas desferidas pelas mãos do nobre cavaleiro, que antes apreciava flores, hoje as pisava em funerais inimigos. seu grito ecoava pela planície enquanto mais e mais carne era dilacerada sem dó. as orquídeas já estavam sem cor.

no altar, o rei já sabia, e aguardava seu destino ser cumprido.

escancarou a enorme porta de entrada, e ao pisar no mármore frio, quinze dos melhores soldados daquele reino estavam à sua espera. em vão, pois era a morte que batia na porta e entrava sem pedir licença. ao final de alguns minutos, quinze corpos descansavam em meio ao sangue. o preto-e-branco se perdia entre os tons avermelhados.

subiu as escadas, lançando ao inferno qualquer um que se atrevesse a cruzar seu caminho. 'ninguém vai me deter, ninguém. nem mesmo deus.'

adentrou os aposentos do rei, rei esse que aguardava calmamente sentado em uma cadeira, com uma adaga na mão. o cavaleiro levantou sua espada, e a deitou rente ao pescoço do monarca. 'você sabe que chegou seu fim, não?' perguntou, com um sorriso sarcástico no rosto. 'só me diga, meu filho, porque toda essa carnificina. porque você acaba com reino após reino, rei após rei, sem piedade? porque tanto ódio?'.

por um momento, lágrimas (ou quase isso) brotaram por detrás daqueles olhos negros. lembrou-se da destruição, lembrou-se do rosto delicado, cortado por um filete de sangue. lembrou de ter levado suas mãos ao céu. eis que se estancaram as lágrimas...

...e mais um corpo foi levado ao chão.

light skins, dirty souls

lá de fora, o sol grita nossos nomes;

a luz, bate, bate, e estamos em quartos escuros com luzes artificias esparsas, que quase não iluminam sua própria áura;

vamos desligar as televisões;

vamos abrir as janelas;

vamos beijar o ar, e deixar o sol marcar nossas peles;

desliguemos os computadores, desliguemos os abajures.
larguemos nossas roupas, larguemos nossos preconceitos.

lavemos nossas almas, pois só assim seremos livres;


vamos correr e gritar sem medo, o mundo é nosso lar.

.

é hora de olhar para fora mais uma vez x

quinta-feira, setembro 27, 2007

crônicas da cidade, apêndice I

'próxima estação: paraíso. acesso à linha um, azul' e o vagão ficou extremamente vazio, uns poucos gatos pingados e eu alí, olhando firme pela janela. as paredes pareciam mais rápidas do que de costume, cortavam rente ao trem, assobiando agudos que faziam minha cabeça latejar. 'estação ana rosa', e o vazio só aumentava. eu quis dançar ali mesmo enquanto era atirado rapidamente rumo ao suburbio. minha alma já valsava no meio do corredor, luzes e mais luzes cruzando meu semblante.

escadas rolantes movendo pessoas preguiçosas e eu mal esboçava uma reação. permanecia com as pernas sobre o assento. eis que a tela apaga. 'próxima estação, imigrantes', meu fim da linha, queria viajar mais, sabe? mas eu me levanto como que por comodidade.

dois ônibus passam, espero por um terceiro que me leve de volta por entre as vielas escuras. um estalo me chama a atenção, os prédios parecem curvar-se. seus topos parecem estar mais pertos do chão essa noite enquanto eu sento aqui e transcrevo furiosamente devaneios que pareciam brotar do chão (ou fui eu que escavei o concreto em busca de palavras?), movido pelos carros e pelos hoje tão baixos prédios. semáforo intermitente, bombardeia minha íris cansada de tanta luz artificial, lua, oh lua, onde estará? entro na barca que guia para dentro do coração da cidade. frenético assim vou percorrendo rios de asfalto, aí olho pro tapete azul, será que você está olhando para ele agora também? de novo me pergunto aonde andam nossas mentes senão juntas pelos céus.

crônicas da cidade, volume III

prólogo:


'três da manhã. estou perdido em um boteco qualquer da avenida paulista. plena madrugada de sexta-feira e eu aqui, com meio copo de rum, e a visão torta. diabos, eu só queria estar em casa. eu só queria ainda ter uma casa...'


parte I:


por entre mendigos e vira-latas, o homem se arrastava pelas ruas sujas, descuidado. o tempo frio era cúmplice das nuvens, que se fechavam logo acima de sua cabeça. aquele sujeito com seu terno gasto, sapatos sem lustre e barba mal aparada, não tinha mais nome. não tinha mais emprego. não tinha mais nada. apenas vagava pela cidade sem ver muito sentido nas coisas. atravessou a peixoto e continuou rastejando rumo à luz.


parte II:


a garota, procurava desesperadamente pela vergueiro, em vão. já era a oitava noite que saia para procurá-lo. pensamentos tenebrosos começavam a invadir sua mente, afinal, por mais melancólica que a cidade pudesse ser, ainda era violenta. e o medo começava a invadir aquele templo sólido, desgastando sua fundação. era o sinal do tempo, ou era o tempo em si que havia causado tudo isso?


parte III:


sentou-se num banco na brigadeiro. suas forças estavam quase no fim. ficava se perguntando por quanto tempo mais aguentaria caminhar, até a hora que desabaria no chão sem alma, sem vida. 'porque tudo isso teve que ser assim?', lamuriava. o cansaço chegava a níveis exponenciais, inimagináveis. o vento gélido da metrópole completava aquela pintura. com os cabelos esvoaçados, reuniu aquelas últimas gotas de coragem e levantou-se.


parte IV:


algumas cadeiras permaneciam viradas, por cima das mesas, mas nem todas. aconchegou-se e pediu ao garçom por um cálice de vinho. quem sabe isso esquentaria seu peito e conseguiria manter-se por mais algumas horas na rua. quem sabe, não encontrava por lá o que estava procurando. o vinho desceu fervendo, queimando suas entranhas, mas não foi o suficiente para levar pro fundo as lágrimas, que não tardaram a brotar.


interlúdio:


'eu só queria que tudo ficasse bem. ah, eu só queria poder vê-lo de novo, e falar tudo que está engasgado, preso na minha garganta. só pra poder ver em seus olhos a culpa, e livrar dela os meus. maldito...'


parte v:


estava mirando o cálice vazio, quando ela se sentou em sua frente, de cabeça baixa. ficaram em silêncio por muito tempo, até que ele se atreveu a quebrá-lo.
-dias cinzas como esse me fazem lembrar de você... - disse o bêbado, quase que esboçando um sorriso. não obteve resposta. -você não precisava ter vindo atrás de mim, mel...
-você não tem o direito de me chamar assim, seu canalha. - esbravejou a garota, terrivelmente transtornada. -como tem coragem, de sumir por duas semanas assim, seu irresponsável? você queria o que, me matar de desgosto? seu cretino... - e começou a chorar. num impulso, o bêbado inclinou-se para limpar suas lágrimas, sendo repelido violentamente. após alguns minutos onde só se ouvia o soluçar da garota, ele se pronunciou.
-mel, eu sei que você não vai me perdoar nunca, só quero que você me ouça por cinco minutos.
-seus cinco minutos se acabaram fazem anos, querido. - e levantou, deixando o bêbado sozinho, olhando pro vazio. foi a última vez que aqueles olhos se cruzaram.


epílogo:


parou a alguns metros do bar, e olhou para trás. ele continuava imóvel, com a cabeça baixa e com as mãos segurando o cálice. sentiu pena, mas não pensou duas vezes antes de levantar o rosto e contemplar o sol que acabara de nascer, denunciando a soltura espiritual que viria a seguir. finalmente, sorriu.

quarta-feira, setembro 26, 2007

abraço

parapapa-paa... diz a canção;
batebatebate, faz meu coração;
a chuva escorre pela janela do quarto
gotinhas transparentes, vapores e suspiros
prédios por todos os lados;
cidade mais complicada...

outra janela aparece, com seu rosto num cantinho.
livros na prateleira, querendo saltar aqui pra baixo;



borracha com cheirinho de chiclete, e pano roxo molhado...
sílabas pintando e pintando uma atrás da outra;
parede azul-azul, azul-claro, azul-feliz!


lá fora o frio, aqui dentro a lã;
e a vontade de um abraço sem fim...

segunda-feira, setembro 24, 2007

crônicas da cidade, volume II

pegou o carro sem olhar pra trás. rasgante, cortou curvas como se fossem retas. largou a porta da garagem aberta sem pestanejar. como se apostasse uma corrida contra ele mesmo, ou melhor, contra o tempo. as pessoas passavam como flashes pelo seu retrovisor. embaçadas e insignificantes, uma a uma ficando para trás. árvores, postes, prédios, de repente tudo não passava de um borrão no espelho. a vontade era de sumir também, e o pé pressionava o já esmagado acelerador. cada vez mais.

parou em frente a um mirante. o violoncelo se espalhava pelo ambiente, e a vontade era de se tornar um com o céu. lá de longe, o horizonte pulsava verde-azul-roxo-vermelho.

sentou-se na ponta do penhasco com as pernas ao vento. balançavam, livres. as ondas se arrebentavam rente à parede de pedras. achou ter visto uma mulher lá embaixo, mas quando olhou de novo, não havia nada. apenas o sibilar da noite ouriçada que vinha com seus ventos gelados, quase que carentes. ouviu uma voz chamando, vindo de trás. eis que, aquela que antes pensou ter visto no fundo do desfiladeiro, aparece sorridente. envolta num vestido branco, como um anjo.

uma lufada de felicidade projetou-se do abismo, atingindo-o no rosto.

e os segundos pararam de correr, deixando um som agudo e um cheiro agradável no ar.

crônicas da cidade, volume I

meio dia e meio novamente. os olhos cansados fitavam o relógio no canto da tela, e os carros passavam barulhentos na transitada rua lá embaixo.
-vou almoçar - disse, e saiu em seguida. ouviu a porta sendo trancada e cambaleou rumo ao elevador. os prédios que se viam pela janela, tão convidativos... 'venha tomar um chá no meu terraço qualquer dia, rapaz', imaginava. a cidade, imensa, cheia de arranha-céus e poeira no ar, parecia mesmo chamá-lo para fugir, e adentrar uma selva de concreto sem se preocupar com muita coisa. era seu costumeiro delírio frente à rotina. eram apenas os dias passando.

entrou no elevador, apertou o térreo, e pelo espelho viu pessoas despreocupadas, descontraídas, como se a rotina lhes fizesse bem. pudera, eram pessoas normais, vivendo suas vidas. ele ficava se perguntando, 'será que sou tão estranho assim, por achar minha rotina uma prisão?', sem perceber que o elevador já estava no térreo faziam dois minutos.
-garoto, tá parado aí porque? - questionava o segurança. de cabeça baixa, rodou a catraca e saiu em direção a rua. 'pra que?', se perguntava, 'pra que raios eu tou fazendo isso?'. essa pergunta ecoava imaginariamente por entre as galerias finas. o ar condensado saia de sua boca apressadamente. os minutos escorriam pelos ponteiros. já era quase uma hora da tarde.
-vê o de sempre, por favor.
-é pra já, jovem. - e com a resposta, vinha o prato da mesma comida consumida dia após dia após dia após dia. a comida descia como pedra, dilacerando a garganta seca. uma e quinze, subia a rua vagarosamente. uma e vinte, e fitava o elevador, sem vontade nenhuma de subir. 'queria finais de semana eternos', reclamava mentalmente. passou as horas seguintes maquinalmente, e durante esse tempo se sentia sem vida. eram apenas os dias passando.

seis e quinze, subia novamente a rua, olhando pro céu. a lua havia resolvido dar as caras em meio à tanta fumaça. começava a se sentir mais leve. girou outra catraca, e embarcou no penúltimo vagão. dormiu serenamente, largado. acordou num ressalto, duas estações depois da sua parada. saltou para dentro de um ônibus qualquer. 'como queria o final de semana mais perto... ah, como queria!', pensou antes de adormecer novamente. saltou, e ao girar a chave, um súbito conforto. deitou-se na cama, puxou o telefone e discou calmamente. olhou para o relógio de cabeceira, que marcava nove e meia.

começou a rir. e do outro lado da linha, uma pergunta.
-nada. são apenas os dias passando.

quinta-feira, setembro 20, 2007

por entre os astros

caminhões roncavam lá embaixo, e tudo que eu queria era um pouco de silêncio. um pouco de café, talvez, mas primordialmente, o silêncio. e com ele, viria a liberdade, e as asas, é...

eis que o último se vai, e a escuridão toma conta do recinto. as ondas, vindas sabe-se lá de onde, começam a se aconchegar junto ao meu travesseiro, e são apenas duas horas da manhã. minha mente começa a responder de uma maneira um pouquinho diferente aos ruídos vindos da rua.

duas e meia, e a janela começa a perder sua forma. o colchão vai ficando cada vez mais lá embaixo até se tornar um pontinho minúsculo no meio do nada.

e quanto mais eu subo, mais sinto uma presença vinda daquele planetinha pequeno, que provavelmente só existe na minha cabeça. na minha, e na dela.

quatro horas da manhã, tomamos chá-verde sentado em cadeiras azuis, em contraste com a terra vermelha e molhada. o planeta azul vai ficando pra trás. aí eu me pergunto, 'é impressão minha ou aquele foi marte dobrando a esquina?', e o chá-verde começa a virar chocolate-quente soltando fumacinhas.

'cuidado pra não queimar a língua!', e sorria. eu também sorria.

e lá se vai saturno com seus anéis gigantes de poeira de estrelas.

quinta-feira, setembro 13, 2007

história sobre [eu] e [você]

desde aquele primeiro olhar, suas retinas ficaram marcadas.
-nunca te vi por aqui, você é nova?
-sou sim, entrei ontem. meu nome é [ela], e você?
-[você], muito prazer.
-o prazer é todo meu. - e um sorriso. o que você não havia percebido é que aquele sorriso singular havia feito toda a diferença num universo contido dentro de um milésimo de segundo de toda sua vida, aquele milésimo mais importante do que as toneladas de ar que você respirou nesses vinte e três anos mal-vividos.
-você mora aqui perto?
-moro sim, eu me mudei aqui pra perto faz uma semana mais ou menos... - aqui seu coração começa a palpitar uma batida a mais por minuto, mas você nem se deu conta.
- ... do lado do banco, conhece?
- eu moro no prédio ao lado! acho que nossas janelas são de frente uma pra outra... que coincidência, não? - e seu subconsciente gritava 'é destino, ela é o amor da tua vida!'. os dias foram passando, e quanto mais vocês conversavam, mais esses sinais aumentavam, sem que você percebesse. contudo, um dia te deu um abraço como quem não quer nada, e seu coração subiu repentinamente o andamento. eis que você se toca, pela primeira vez nessas duas semanas o quão lindo são seus olhos e seus dentes perfeitos. mas no fundo, você já sabia. então, como mágica, você vai afastando os pequenos retalhos que pareciam cobrir a verdadeira forma daquela pessoa com quem você conversava a um tempo considerável.
-ei, [ela], você tá tão linda hoje, sabia?
-ah [você], são seus olhos... - e um riso que mais parecia um convite para um beijo. esse, que não tardou a aparecer, numa tarde de inverno, enquanto vocês tomavam um café num canto qualquer da cidade. despretencioso, aconteceu quando você brincava sobre o bigode de espuma clara que saltava de cima dos lábios dela.
-você também tá com bigode...
-tou mesmo é? - dizia você, sem suspeitar, mas querendo tanto.
-tá sim, bem aqui... - eis que ela se aproxima e te tasca um beijo na boca. os medidores de lucidez explodem dentro da sua cabeça, e o coração parece querer abrir um buraco e sair pulando pelo piso da cafeteria.
-nossa... que viagem... - ofegante, perdido, você diz a segunda coisa que vem à sua cabeça, já que a primeira era um 'casa comigo agora, eu quero você'.
-nem me diga... viagem boa essa... - e sorria fazendo você se perder naquele rosto, que simplesmente era tudo que você queria ver naquele momento. então, vocês se levantam e saem rumo ao parque. se abraçam debaixo de uma cerejeira.
-[ela], sabe que eu já tava gostando de você faz um tempinho? - e cora.
-sabe que eu sei? eu também tava... - e sorria de novo pra você, deixando o ar com um cheirinho de felicidade inexplicável. só quem estava por perto naquele momento pra poder descrever. ou só vivendo um beijo desses...

segunda-feira, setembro 10, 2007

de quando a alma pesa menos que o ar

'hold on, hold on', gritam minhas caixas de som.

me seguro firme, pois 11 andares e alguns metros acima do chão, pairo voando
pra longe, vejo nuvens

passaros e coisa e tal


a noite perfeita

e eu só tenho ouvidos pra uma voz
meus olhos já não alcançam o horizonte

é tudo um mar de explosões azul-anil


é tudo ao mesmo tempo, tudo de uma só vez



e eu não quero voltar pro chão... me deixa voar, me deixa sonhar!

sábado, setembro 08, 2007

new eyes open

durante oito meses, vivi pela metade. meus planos falharam, minhas expectativas não se completaram. os dias foram apenas reflexos, inertes. como se tudo não passasse de um sonho ruim, do qual eu simplesmente não conseguia acordar. mês após mês, eu apenas dormia e assistia os dias passando.

eu sempre reclamei da falta de viver constante e completamente. essa sensação de ver as horas passando me consumia por dentro, e tudo que eu fazia era sentar e lamentar. por longos oito meses, isso se repetiu, dia após dia, noite após noite, o sonho ruim me mantinha preso numa redoma cinza, da qual eu não conseguia sair, da qual eu não podia acordar.

pois bem, eu acordei.

oito meses depois, eu me levantei com o outro pé. troquei minhas músicas, troquei meus hábitos, comecei a embarcar por outra escada da estação, comecei a olhar pro céu e me sentir leve, e comecei também a apreciar o sol que queima meu rosto. os últimos dias se revelaram especiais, onde eu consegui ver tudo de um ponto de vista melhor, um sem impedimentos nem prédios bloqueando a visão, e eu nunca me senti tão livre, dono de minha própria vida, guiando ela pra onde eu bem entender.
daqui pra frente, eu não sei como vai ser, mas eu não tenho receios. não tenho medo, pois sou eu quem está no controle, e a ordem agora é ser feliz.

e como diz a música que dá título à esse texto, 'that's what i like about it, it's not so complicated, if you go right through'.

quarta-feira, setembro 05, 2007

licht engel

'oh, my girl has hands of an angel'. and this is my one-line song. ever since she touched my skin i turned into music and got lost in the way trying to reach her heart, looking badly for my soul. angel came down on earth. here i folded my wings and in your lips i've found life. this chords could ring forever, hand to hand, eye to eye, i fell hardly from the sky. but oh, for my surprise i've found heaven in your arms.

domingo, setembro 02, 2007

sobre memórias de kerouac

- capitão, missão cumprida!
- houston, parabéns...
- mas, capitão, as conseqüências são desconhecidas!
- não há problema, houston...
- faça uma breve análise e descreva-as para mim, capitão... há urgência em saber o que há por trás desse sorriso com tal beleza que ofusca metade do universo.
- há urgência em saber que tipo de imaginação bonita é essa que ofusca metade dum universo com um sorriso bobo.
- capitão, são apenas devaneios movidos por uma força maior desconhecida... realmente assustadora, capitão.
- realmente assustadora, houston... estou sem coordenadas.
- capitão, ela continua crescendo, desgovernadamente. peço instruções para proceder.
- houston, eu sugiro instalarmos uma anarquia. (ou foi ela que já se instalou aqui?)
- a anarquia tomou conta de todos os sistemas. nossas imaginações se fundiram com todas as correntes de pensamento do mundo. estamos a flutuar, capitão, sem direção, sem se importar. há apenas um devaneio em massa pairando sobre a terra. é tudo tão lindo, tudo tão azul... continuo sem coordenadas. o céu está ficando mais claro...
- eu nunca pensei que fosse entender de onde veio o nome 'via láctea', muito menos que um dia fosse morar de verdade nela. houston, deixe pra lá as coordenadas... as únicas rotas que valem a pena ser traçadas são aquelas feitas com canetinhas coloridas, um tiquinho cada dia, um tiquinho cada noite... daí ninguém sabe que desenho vai se formar.
- as coordenadas realmente não importam mais. estou vendo as trilhas, capitão. é tão lindo... tanta cor, tanto amor, e ao mesmo tempo, não há nada. estou confuso. como se chama isso? como se chama esse sentir que enche nossos olhos e nossas almas? o que é essa inspiração? ah , capitão, se pudesse me ver agora...
- ah, houston, não tá escrito em nenhum dos meus manuais... vou jogá-los fora. eu queria ver o que você vê, e te emprestar meus olhos...
- eu queria sentir o que você sente, e pintar isso num quadro...
- eu tento escrever, mas sai tudo tão incompleto...!
- eu tento entender, mas é tudo tão lindo, que não dá pra ser entendido, apenas vivido, eu acho. ah, capitão... o que fazer? o que fazer?
- continua tocando, houston, até o caminho de volta sumir...

[guilherme amato e mariana lins]

terça-feira, agosto 21, 2007

desfecho

suas pétalas jaziam sombrias sobre a mesa, onde pouco a pouco seu perfume se esvaía, se misturando com o ar. em vão, minhas lágrimas personificavam um último sopro de esperança. com aquela flor, morria também meu coração. morria a beleza que fora tirada de seu éden. morria o espírito de um romântico.

segunda-feira, agosto 13, 2007

hotel

o ambiente inebriante do salão ofuscava a todos os presentes, hipnotizados pelo cheiro do mogno estalante. a lareira, cintilante, aquecia os braços dados que lutavam contra o gélido ar daquele inverno que intimidava. lábios cálidos se tocavam, quase que sacramente, enquanto o morno do vapor exalado fazia os corpos se deleitarem em calafrios. a luz, quase ausente, lançava à penumbra toda uma nação de almas que sobreviviam implorando ao conhaque por um toque de ardor. de longe, o vento apenas se dava o direito de uivar, já que o rosto impenetrável das paredes de madeira guardava aqueles corpos inertes ao oceano de neve à sua volta, alimentado pelo choro branco dos céus.

sábado, julho 07, 2007

midnight beat

só sei que o jazz penetrava meus ouvidos solene, indecente, excitante. imprevisível. todos os pássaros do mundo pareciam se calar ao som do piano, e o trompete, ah, o trompete... tão doce, tão carente. tão único...



as pessoas já iam se retirando do salão, após horas e horas dançando contagiantemente. uns poucos copos de whisky, acompanhados de existências solitárias restavam pelo salão, e curiosamente, uma garota permanecia em transe no meio da pista de dança, bombardeada sucessivamente com euforia a cada compasso desferido pela percussão, tão devoradora, e ao mesmo tempo, tão indiferente... apenas pulsava, flertava.



já na terceira dose de conhaque, uma das últimas almas ali presente levantou o olhar embaçado e admirou aquela que sozinha dançava à melodia incessante. deixou então o vidro na companhia do gelo e se atirou em direção ao centro do salão, de encontro com o destino.



eis que se abraçaram. daquele momento em diante, nada mais existia. nada mais nem precisava existir. o quinteto já não mais tocava, mas a música se repetia em seus corações. juntos, eles eram um só, rodando ao som do sax. o salão agora era infinito, sem paredes nem lustres, apenas um espaço púrpura onde duas essências se misturavam.





o bebop durou uma eternidade dentro daqueles cinco minutos.





e tão subitamente quanto veio, o sentimento se esvaiu. as paredes voltaram violentamente a limitar o horizonte, enquanto ele pagava sua quarta dose antes de partir.







deixava para trás uma garota em seu silêncio.

quinta-feira, julho 05, 2007

plataforma

oito e meia da manhã de novo, o sol raiava mas não esquentava, enquanto sombras dançavam atrás de mim. passos e mais passos impacientes até que o zumbido aparecia ; de início, quase como um sussurro, e conforme ia crescendo, fazia os relógios e corações tremerem, ensurdecedor.

de repente, se abrem as portas, e as pessoas, como se fossem sugadas, desaparecem.

.

as portas se fecharam, e ficamos ali só eu e o café derramado. estranho eu ter pensado que parecia uma poça cheia de lágrimas. mas era só café. era só mais um devaneio...

o próximo vagão aparece, vazio. quase como um convite...


.


o sol ainda brilhava quando as paredes encobriram completamente as janelas. e somente o café restou para contar que por ali, houve um dia um sonhador.

terça-feira, junho 19, 2007

circa il sole

naquele dia chuvoso, as janelas se fizeram telas, mostrando um lá fora não tão agradável. o que se seguia passou pela minha frente como que gravado, me empurrando aquela sensação de volta pra cama e esquece o mundo, contra qual lutei quase em vão.

as luzes apagadas se mostravam preguiçosas como eu, acendendo devagar quase acordando. parecia mais um desperdício de horas vindo em meu caminho, mais um marasmo no meio da estrada, daqueles que dá vontade de mudar de canal a vida pra ver se tá passando algo melhor. procurar em outra estação de rádio algo diferente do zumbido incessante. quem sabe, tua voz.

e qual a minha surpresa ao ver que o sol apareceu ao tocar o telefone....

terça-feira, maio 29, 2007

entre correntes

mais um problema que atingiu sem avisar
algumas brigas e em pouco tempo tudo mudou
várias perguntas que navegam por um mar
de incertezas quando tudo que queria é sumir


todas as coisas que te causam dor de
cabeça não saem daqui
e gritar parece não adiantar pra
espantar o que está pra explodir


nessas horas em que tudo
cai aos seus pés, apenas dance
como se não existisse ou não preferisse
o mundo como era antes
deixe fluir, pro mais longe ir
cante por entre o ar

quinta-feira, maio 10, 2007

blurried finale

duas horas da manhã e o vento entrava cortante pela janela do sétimo andar esfriando ainda mais o corpo do garoto que tremia incessante em sua cama, gritando porquês e verdades que só faziam sentido para ele mesmo. as luzes lá fora pareciam se voltar contra seus olhos que já ardiam demais, e as lágrimas salgadas não paravam de aparecer.

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um telefone toca como que ensaiado, assutando o gato que deitava ao lado da estante. numas poucas palavras encontravam-se tanto seu remédio quanto seu veneno. e o mundo começara a girar...

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olhos fitavam atônitos um indivíduo vazio jogado num canto, dando murros na parede, acreditando que a dor física amenizaria o corte emocional feito em seu peito. "parece não adiantar", pensava o teto, "dessa vez as coisas foram longe demais".

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gotas de sangue e licor se misturavam no chão, tingindo o carpete com um toque pessoal de angústia.

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cinco e meia da manhã e o garoto desejava que o sol não nascesse, queria permanecer na escuridão, quem sabe até o fim do mundo não seria mais agradável. "quanto egoísmo...", pensou, enquanto se aproximava das grades... o silêncio da madrugada parecia crescer e o envolver.

.

seis e meia da manhã, o barulho era interminável e parecia querer estourar sua cabeça por dentro. "fios, fios, malditos fios". de volta àquele teto estranho, ouvia contagens, puxava lembranças, enquanto a luz ia se tornando mais fraca.

.

"dessa vez as coisas foram longe demais", disse. "oito e vinte da manhã".

terça-feira, maio 08, 2007

quadra de inverno

olhares pela vidraça embaçada
onde dedos criavam corações
que faziam brotar de novo
lembranças misturadas no vapor

aquelas chaleiras molhadas
chamavam por bocas gélidas
buscando calor em outras
ou em xícaras de café

e os versos se lançavam no ar
de encontro aos ouvidos de quem
enfrentaria qualquer tempestade
em busca de um abraço a mais

domingo, abril 29, 2007

quadra de outono

o outono vinha esfriando os braços dados
que passeavam pelas avenidas sem parar
em vitrines ou prateleiras
apenas anseavam o cobertor

e regados com chocolate quente
sorrisos trêmulos podiam ser vistos
por entre o branco da neve
e o vermelho dos cachecóis

o frio deixava de ser vilão
para se tornar combustível
para aqueles corações aquecidos
que nem as luvas conseguiam ocultar

quinta-feira, abril 26, 2007

a b i s m o

as estrelas lá de cima gritavam desesperadas
mas nada nem ninguém conseguiria mudar seu rumo
seguia ao encontro do abismo
onde seu destino havia sido escrito.

fadado à ruina, jogado numa grande poça
de água suja e pedras que laceravam
o corpo fraco que cansara de sonhar

olhava para o alto esperando que seus olhos
descansassem em paz com uma visão serena
mas o sangue os havia selado para sempre

as estrelas lá de cima gritavam desesperadas
mas nada nem ninguém conseguiria mudar sua sina
que o lançou ao fundo do abismo
onde seu fim havia sido escrito.

domingo, março 04, 2007

simples como uma história de ninar

no meio de uma noite fria como tantas outras que já se foram, um vagalume não se deixava notar, cauda emanando um brilho quase apagado que mal conseguia afugentar a escuridão à sua volta. suas asas, outrora tão vivas, lutavam para mantê-lo suspenso no ar, enquanto um chão hostil o encarava lá de baixo, com um olhar de quem um dia já abrigou seu corpo cansado.

por meses a fio, vagou procurando um porto-seguro, um lugar que pudesse chamar de seu. por meses a fio, lutou contra vespas, mesmo quando já não havia um motivo para continuar lutando, um motivo para querer se manter à salvo. e entregue às ilusões ele continuava afundando, por mais que batesse suas asas com todas as suas forças. o brilho já estava a se extinguir.

após mais um dia de sofrimento, de longe o vagalume distinguiu um colorido no meio da névoa cinza que se tornara o seu espaço. juntou a última gota de esperança com seu último suspiro e se atirou violentamente na direção daquele ponto que emanava luz numa paisagem tão sombria. de olhos fechados e braços abertos, deixou-se levar pela paz que começava a invadir seu corpo lentamente, e adormeceu.

acordou nos braços de uma vistosa margarida, que mesmo cercada por tanta angústia, conseguia transmitir uma alegria infinita ao pequeno vagalume, que repousava em seus braços serenamente, longe de qualquer perigo, longe de qualquer dor.

por meses a fio, se completaram. por meses a fio, o vagalume lutou bravamente contra todos os perigos que se aproximavam da frágil margarida, que por sua vez acalentava o pequeno vagalume nas noites frias e trazia conforto quando tudo mais parecia perdido. por meses a fio, eles amaram, fizeram felizes e protegeram um ao outro.

por muito tempo, nada que acontecesse podia abalar a confiança que um depositava no outro, e mesmo depois das piores tempestades, ali estavam eles, juntos, fortes. eternos. e, simples como uma história de ninar, aqueles dois estavam destinados a serem felizes para sempre.

terça-feira, janeiro 30, 2007

veneno

viva sem se envenenar
o pensamento estruturado em escape
não vai te levar a nada

sua destruição começa na alma
que é manchada diariamente
pelo negativismo e a fuga
da realidade que desiste de
enfrentar

viveremos em paz
viveremos sem dor

segunda-feira, janeiro 08, 2007

orange notebook chronicles, pt X

o sol te contemplou mais uma vez
enquanto teus olhos percorriam o quarto
ele se convidava a entrar por frestas
enquanto você se perguntava onde estivera
pois a noite toda parecia se perder
entre névoas e o cheiro do café
passado às pressas para confortar lembranças

-

enquanto a manhã te acalentava
mas ao mesmo tempo pensava-te hostil
meus lamentos se repetiam a meus ouvidos
com um certo arrependimento, talvez
a última imagem ainda se fazia presente
teu rosto sob a luz fraca de letreiros
e eu admirava teus gestos descontraídos
pouco me importava o resto do mundo

-

então peguei minhas coisas e corri
pelo jardim ainda pensando em você
e quando os pingos começaram a descer
eu já estava ali, preso por teus olhos
fitando a mesma janela que me iluminava
enquanto de olhos fechados, meu mundo girava