silêncio.
e de repente, ele se levantou impaciente. como podia, tanta indiferença vindo de um coração tão colorido? mas era, aparentemente, o fim.
'não dá mais', gritou, 'não aguento você me olhando com essa cara! como pode, fazer isso comigo?', ela apenas olhava. fria como um iceberg. mostrando apenas uma ponta insignificante daquele sentimento monumental, velado sob uma camada de gelo.
'não dá mais, querido. você tem que entender', dizia, calculista. aquelas palavras entrariam em seu peito como um punhal, pensava ela. o sangue imaginário, descia marrom, numa mistura de sangue, petróleo e ferrugem, manchando a calçada e afogando os lamentos. os latidos da vizinhança haviam cessado, e os ponteiros de seu relógio faziam um barulho ensurdecedor, e à medida que a conversa se extendia, a madrugada se anunciava, pintando o céu de uma cor púrpura densa e escura.
eis que cai novamente sobre eles o silêncio.
sentada no chão, ela o observava, a passos largos, indo de um lado para o outro inquieto e pensativo. respirava calmamente, como se toda aquela exaltação por parte dele não acontecesse dentro dela também. não deixava transparecer nem um fio de preocupação.
as horas iam passando, e então ele começou a chorar. de dor, de raiva, de tristeza. ela se limitava a olhar para as montanhas. seu peito ia se corroendo ao ouvir cada soluço dele, mas não deixaria que ele soubesse que as lágrimas dele a alfinetavam profundamente.
em determinada hora, seus olhos se encontraram. os dele, já vermelhos de tanto chorar, com os dela, impassíveis e frios. as luzes da cidade começavam a ser desligadas, e a manhã lentamente ia chegando. passaram vários minutos calados. 'sabe do que mais?' disse ele, num tom doce, que não parecia guardar todas aquelas lágrimas que foram derramadas. 'depois de tanto tempo, ainda consigo me perder nesses seus olhos'. aquelas palavras foram suficientes para quebrar o escudo que ela havia criado à sua volta. começou a chorar. 'você é bobo demais, sabia? você é bobo demais', repetia maquinalmente. então, tomada por um impulso devastador, lançou-se em seus braços e o beijou ferozmente, como se fosse aquela a última madrugada em que poderia sentir o sabor de ser amada. sentiu-se segura, forte. então recobrou o controle. desvencilhou-se rapidamente e correu em direção à porta. de dentro, ainda podia ouvi-lo gritar a plenos pulmões 'eu te amo! ah, eu te amo!'. subiu correndo as escadas e se atirou na banheira, sorrindo. conseguira finalmente arrancar aquelas palavras dele, que por várias e várias noites sonhou ouvir jogadas aos quatro ventos.
.
sentado no meio fio, ele observava as últimas lâmpadas da cidade iam se apagando enquanto o sol aparecia lentamente, lavando aquelas manchas estampadas no chão, estancando o sangue acobreado que vazava devagar. levantou-se e olhou para trás, e começou a caminhar na direção oposta daquela casa branca. a calçada, agora limpa, era seu único guia naquela manhã que se seguia. a noite havia finalmente chegado ao fim.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.