quarta-feira, novembro 28, 2007

sobre estradas e constelações

a madrugada corria inerte enquanto o carro atravessava a estrada à toda velocidade. àquela hora já não existia nada além daqueles faróis cortando o escuro. do lado de dentro, os acordes do violão soavam estridentes, enquanto de mãos atadas, um casal seguia seu rumo. ela, dormindo serenamente, cansada de dirigir durante boa parte do dia. ele, com uma mão no volante, dividia sua atenção entre a estrada e o perfume inebriante que tomava conta do interior do carro. passados oito anos desde aquele primeiro encontro, surpreendia-se como conseguia ficar tão hipnotizado por seu cheiro, seu olhar, sua voz. os anos iam se passando, e a cada dia ele se apaixonava de novo. a cada beijo, o frio na barriga, como se fosse a primeira vez. pequenas casas de barro se projetavama na beira da estrada, algumas poucas com uma luz fraca pulando pela janela, como se quisesse enfrentar a escuridão imensa do lado de fora. as estrelas observavam a cena tentando capturar aquela imagem numa pintura eterna, exposta no céu. o relógio marcava agora quatro e meia, e após um aclive, um planalto com campos de trigo, cinematográficos. balançavam ao vento como se feitos para aquela ocasião. então, ele parou o carro. ao longe, avistou um mirante, na boca de um desfiladeiro. seguiu uma pequena estrada de terra até lá, e ficou espantado com o que vira. era como se o mundo acabasse ali. à sua frente, uma queda de centenas de metros, um mar de montanhas envoltas na neblina. a lua, que pairava em suas costas, já seguia o rumo de casa. olhou em volta por alguns segundos. no mirante cercado por uma pequena cerca branca, havia um banco de madeira. então, ele voltou até o carro, e olhou para ela. dormia profundamente. pegou-a no colo com todo cuidado para que não a acordasse, sentou-se no banco, deitou-a em seu colo, e ficou ali, olhando as estrelas, que dançavam incessantes. não sabia se era culpa do sono, se sonhava ou o mundo que se desenhava perfeito frente a seus olhos. olhou para baixo, e viu o rosto daquela pessoa que amava mais do que tudo. ela sorria em seu sono. beijou-a no rosto, fazendo-a acordar. então, como se fosse ensaiado, o sol começou a nascer para os dois. somente para os dois. se olharam profundamente por uma eternidade dentro de alguns poucos segundos, e sem falar nada, disseram tudo que queriam um para o outro. então se beijaram, e naquele exato instante, o sol resolveu mudar de cor e convocar todos os pássaros do mundo para cantar em homenagem ao amor que encontrava sua mais pura forma no alto daquela colina. . como se fosse um quadro, as cores ganharam mais vida. . quando voltaram à estrada, eram quase oito da manhã. alguns quilômetros depois, encontravam-se num posto, tomando café-da-manhã. ainda enfrentariam quase cem quilômetros até o hotel. . enquanto ela dirigia calmamente, ele, de olhos fechados, cantarolava a música que saia do rádio. o vento batia em seu rosto dando uma sensação de infinidade. se sentia eterno, ouvindo aquela voz. chegaram ao hotel no tempo previsto, e após poucos minutos estavam deitados sobre um lençol branco de seda. pela janela, o sol continuava devoto, brilhando espectralmente, deixando a pele clara dos dois com um tom dourado-brilhante. entrelaçados, sentiam seus corações batendo em sincronia, enquanto se perdiam em olhares. eram eles, unidos, únicos. especiais. emocionado, o céu começou a chorar de alegria, e a chuva começava a bater no vidro da janela. eram as pequenas gotas agora que também davam a sua benção. do lado de dentro, eles dormiam. . e há quem diga que eles dormiram por toda uma eternidade, sorrindo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.