terça-feira, junho 21, 2011

cat heaven

a chuva começava a apertar, forçando as pessoas a se abrigarem onde podiam. sentado em um banco, ele ligou o som mais o alto que seus fones poderiam aguentar. ainda faltavam alguns minutos de caminhada até a garagem onde havia deixado seu carro, e embalado pelo som, deixou-se perder em devaneios. já estava ali a muito tempo olhando as gotas caindo torrencialmente, quando de repente alguém sentou-se do seu lado. discretamente pausou a música, bem a tempo de ouvi-la dizer 'que chuva, não?' apressadamente enquanto tentava inutilmente secar o cabelo. 'desse jeito eu não chego em casa ainda hoje', e mesmo reclamando, sorria. ele não disse nada, apesar de fitar intrigado os olhos dela. eram os olhos mais bonitos e profundos que havia visto. ela ainda falava quando ele puxou de sua mochila uma blusa que não estava usando e a estendeu à garota. 'pode secar o cabelo com isso', disse. e foi no momento que ela agarrou o agasalho que seus dedos se tocaram pela primeira vez. ela sorriu, enquanto ele, encabulado, puxou a mão junto ao corpo, quase como se pedisse desculpas. ela então secou o cabelo, e devolveu-lhe a blusa agradecida. e tão rápido como chegou, desapareceu em meio a pessoas apressadas, sob um guarda-chuva aos pedaços. ele ficou parado, olhando para a blusa por mais alguns minutos, e por mais que acreditasse que seria a última vez que veria aqueles olhos, algo dentro dele havia mudado, como se aquele toque de dedos tivesse deixado uma marca em sua pele, e estranhando essa sensação que para ele era uma grande e desconhecida novidade, resolveu andar até seu carro de uma vez por todas, sem se importar com a chuva que continuava a castigar aqueles que se arriscavam a cruzar as ruas a pé. atravessou grupos de pessoas amontoadas debaixo de toldos e árvores, esbarrou em algumas pessoas dando carona às outras em mais e mais guarda-chuvas que agora povoavam a cidade como se fossem os verdadeiros habitantes, até chegar à garagem, ensopado dos pés à cabeça. sentou-se em um banquinho próximo à vaga onde havia estacionado, e percebeu que seu coração estava acelerado, e que a imagem daqueles olhos não lhe saia da cabeça. afastou esses pensamentos e levantou-se em direção ao carro.

deu a partida e ligou o som, e ao começar a andar, percebeu um outro carro vindo em sua direção, e mesmo pisando no freio, não conseguiu evitar uma colisão, mesmo que leve. refeito do susto, abriu a porta do carro, fazendo com que sua música ecoasse por todo o estacionamento. 'uma blusa na chuva e uma batida de carro, belo jeito da gente entrar na vida um do outro, não?', disse a garota rindo, enquanto a música narrava o momento. algumas horas depois, ele se encontrava fitando aqueles mesmos olhos em uma mesa de café a alguns quilômetros dali, com dois copos quentes e um prato de madeleines. foi então que ele, distraído pelo fato da mesma música que tocava no carro na hora da batida ter começado a tocar no rádio do café, estendeu a mão para pegar um doce ao mesmo tempo que ela, fazendo com que os dedos se encontrassem novamente, mas dessa vez, ela havia segurado sua mão, o que o fez corar e prender a respiração. 'eu também adoro essa música', disse, e quando os lábios se tocaram, o último pensamento dele foram os versos daquela música, que rapidamente desvaneceram para que aquela mesma sensação de antes, agora muito mais intensa, preenchesse seus sentidos com um formigamento que nunca havia experimentado antes.

everything we saw
was beautiful and strong,
and i knew we belonged

segunda-feira, junho 20, 2011

que nunca se apaga (22/02/08)

quero sair, quero fugir, quero sumir.
ver a noite cair, ver o sol surgir.
esquecer de mundo, esquecer de tudo.
quero seu abraço, quero seu cansaço.
dançar a noite toda, eu quero que se foda.

eu quero a vida, eu quero a batida.


eu quero a luz.

sábado, junho 18, 2011

the dangers of standing still

então, com um súbito clarão, seu porto explodiu. de dentro de seu navio, podia ver os destroços. livre de inimigos, tudo que restou era uma baía deserta. então, desorientado e com medo do mar, ele aportou e sentou-se na areia.

e ali ficou, conformado com seu futuro. não soube bem quanto tempo havia passado, ou quantas pessoas passaram por ele, e comentaram sobre 'o lindo porto que antes lançava suas luzes ao mar'.

seu conforto, saber que estava a salvo em terra firme. sem um farol, não fazia sentido. sentindo? não. era o medo da possibilidade. medo da chance do naufrágio, e pior, medo de ancorar novamente em um porto, só para tê-lo arrancado de seus pés novamente. medo... da mudança. insegurança.

de onde estava, sentia-se satisfeito com a mesma paisagem nula. era melhor assim, inerte. contemplava as pessoas que passavam. apenas passavam. 


...até que ouviu o mar chamando.

e num lampejo de coragem, içou sua âncora, e atirou seu navio contra as ondas.

e qual foi sua surpresa, ao cruzar conhecidas milhas e descobrir um porto ainda mais belo, e ainda mais seguro...

quarta-feira, junho 01, 2011

valentine

uma cabana. uma cadeira de balanço, e nessa cadeira um caderno com versos incompletos, como se alguém tivesse saído dali às pressas. na sala de estar, um violão descansava em uma parede, com as cordas ainda quentes de tantos acordes arrancados. na cozinha, um copo de café soltava fumaça enquanto seu aroma lentamente preenchia a casa. o forno a lenha ainda estava aceso, mas já dava sinais de que o vento gelado não tardaria por apagá-lo. no quarto, a lareira crepitava, pequenas fagulhas se espalhavam pelo chão do quarto. o calor de dois corpos grudados fazia o contraste perfeito com o frio que cercava a casa. suor e sorrisos. beijos e olhares. e do lado de fora, aos fundos da casa, uma rede aguardava preguiçosamente para abraçar o casal, enquanto seu cachorro dormia alheio à tudo junto à cerca do quintal.

haikais, #5

os dedos calejados
são doloridos de se obter
mas prazerosos de se manter.