prólogo:
'três da manhã. estou perdido em um boteco qualquer da avenida paulista. plena madrugada de sexta-feira e eu aqui, com meio copo de rum, e a visão torta. diabos, eu só queria estar em casa. eu só queria ainda ter uma casa...'
parte I:
por entre mendigos e vira-latas, o homem se arrastava pelas ruas sujas, descuidado. o tempo frio era cúmplice das nuvens, que se fechavam logo acima de sua cabeça. aquele sujeito com seu terno gasto, sapatos sem lustre e barba mal aparada, não tinha mais nome. não tinha mais emprego. não tinha mais nada. apenas vagava pela cidade sem ver muito sentido nas coisas. atravessou a peixoto e continuou rastejando rumo à luz.
parte II:
a garota, procurava desesperadamente pela vergueiro, em vão. já era a oitava noite que saia para procurá-lo. pensamentos tenebrosos começavam a invadir sua mente, afinal, por mais melancólica que a cidade pudesse ser, ainda era violenta. e o medo começava a invadir aquele templo sólido, desgastando sua fundação. era o sinal do tempo, ou era o tempo em si que havia causado tudo isso?
parte III:
sentou-se num banco na brigadeiro. suas forças estavam quase no fim. ficava se perguntando por quanto tempo mais aguentaria caminhar, até a hora que desabaria no chão sem alma, sem vida. 'porque tudo isso teve que ser assim?', lamuriava. o cansaço chegava a níveis exponenciais, inimagináveis. o vento gélido da metrópole completava aquela pintura. com os cabelos esvoaçados, reuniu aquelas últimas gotas de coragem e levantou-se.
parte IV:
algumas cadeiras permaneciam viradas, por cima das mesas, mas nem todas. aconchegou-se e pediu ao garçom por um cálice de vinho. quem sabe isso esquentaria seu peito e conseguiria manter-se por mais algumas horas na rua. quem sabe, não encontrava por lá o que estava procurando. o vinho desceu fervendo, queimando suas entranhas, mas não foi o suficiente para levar pro fundo as lágrimas, que não tardaram a brotar.
interlúdio:
'eu só queria que tudo ficasse bem. ah, eu só queria poder vê-lo de novo, e falar tudo que está engasgado, preso na minha garganta. só pra poder ver em seus olhos a culpa, e livrar dela os meus. maldito...'
parte v:
estava mirando o cálice vazio, quando ela se sentou em sua frente, de cabeça baixa. ficaram em silêncio por muito tempo, até que ele se atreveu a quebrá-lo.
-dias cinzas como esse me fazem lembrar de você... - disse o bêbado, quase que esboçando um sorriso. não obteve resposta. -você não precisava ter vindo atrás de mim, mel...
-você não tem o direito de me chamar assim, seu canalha. - esbravejou a garota, terrivelmente transtornada. -como tem coragem, de sumir por duas semanas assim, seu irresponsável? você queria o que, me matar de desgosto? seu cretino... - e começou a chorar. num impulso, o bêbado inclinou-se para limpar suas lágrimas, sendo repelido violentamente. após alguns minutos onde só se ouvia o soluçar da garota, ele se pronunciou.
-mel, eu sei que você não vai me perdoar nunca, só quero que você me ouça por cinco minutos.
-seus cinco minutos se acabaram fazem anos, querido. - e levantou, deixando o bêbado sozinho, olhando pro vazio. foi a última vez que aqueles olhos se cruzaram.
epílogo:
parou a alguns metros do bar, e olhou para trás. ele continuava imóvel, com a cabeça baixa e com as mãos segurando o cálice. sentiu pena, mas não pensou duas vezes antes de levantar o rosto e contemplar o sol que acabara de nascer, denunciando a soltura espiritual que viria a seguir. finalmente, sorriu.
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