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sexta-feira, abril 24, 2015

outra valsa, pt. iii

a fumaça cegava e sufocava
e eu, encolhido ao pé da escada
tossia e suava assistindo as brasas

não me lembrava do incêndio
nem do dia que as chamas começaram
revisava meus infernos, recordava insucessos
mas de nada adiantava, sentado aqui tão longe

ao passo que tudo se aproximava,
me agarrava em cortinas perdidas
e me atirava um pouco mais ao alto

e nesse meio tempo, largado ao pé da escada
mal conseguia entender o porquê da vontade
que me fez correr tanto, tanta ansiedade
pra acabar com a garganta cheia de cinzas

não me reconhecia ao cruzar janelas
que mostravam um brilho estranho nos olhos...

... que não era nada além do fogo refletido.

quarta-feira, abril 22, 2015

outra valsa, pt. ii

a vista do andar mais alto
que já arrisquei colocar meus pés
ofuscava muito do horizonte

sem saber quanto mais restava
pra subir, pra viver, pra sangrar
não conseguia pensar, apenas
subia e subia, cada vez mais

os passos eram penosos
cada um trazia um espinho
que parecia fincado no peito

a torre tremia, poeira dançava
solta em um baile desenfreado
refletindo minha própria bagunça

muitas vezes achei que cairia
e tantas outras cansei de tanto esforço

mas não desisto de me arrebentar tentando.

segunda-feira, abril 13, 2015

outra valsa, pt. i

há tanto tempo as notas soam
desajeitadas mas tão sinceras
que grito, acompanhando o som

urgente, de longe, apenas
mais um dentre tantas vozes
inquieto, porém, por acreditar
em sonhos antigos de alcançar o céu

sempre flutuei o mais alto que pude
dando de cara com tetos de nuvens
que com afinco consegui transpor

e por tantas vezes me vi cercado
de sorrisos e mãos estendidas
de abraços mais do que sinceros
que aos poucos cansaram de voar

ainda há quilômetros de nuvem acima
mesmo tremendo, há tanta vontade, e...

daqui de cima tudo parece tão pequeno...