quinta-feira, outubro 18, 2007

a u t o r e t r a t o

meu nome é guilherme. completei dezenove anos em maio. sou formado em webdesign pela unip, e atualmente curso design gráfico, também na unip. trabalho numa associação chamada abmi. de segunda a sexta, almoço num boteco chamado pitalmeida, aquela coisa, chama o garçom pelo nome e pede 'o de sempre'. uma porção de arroz e feijão, só. eu estaria anêmico se não fosse a vitamina de frutas que acompanha a refeição. de noite, geralmente acabo comendo yakisoba nas banquinhas da paulista. faz um mal danado, mas é bom e barato. todo dia acordo, pego ônibus, e se estiver atrasado, pego também o metrô. me agrada observar as milhares de pessoas que transitam pela cidade todos os dias, cada um com sua pequena rotina, cada um em seu pequeno mundo. gosto também de olhar bem nos olhos das pessoas que eu nunca vi na vida, e absorver delas o máximo que conseguir, e analisar a reação delas depois. o metrô me inspira, e acabo sempre tendo boas idéias ou escrevendo bons textos enquanto nele viajo. aos finais de semana, geralmente acabo ensaiando. toco em duas bandas. tocar bateria é algo que me dá prazer e me faz esquecer do mundo. guitarra era, não é mais. se não ensaio, acabo dormindo o dia todo. minha vida é um tanto quanto monótona. aliás, acho que sempre foi, tirando um ou outro interlúdio. já tive várias bandas, algumas poucas namoradas, fiz vários cursos, e já briguei com muita gente. tenho amigos. não são muitos, mas cada um deles vale por trinta amigos comuns. tive um relacionamento de quatro anos com a minha melhor amiga. aprendi muito, cresci muito, errei muito, e amei muito. com doze anos, entrei em cirurgia para corrigir uma arritmia no coração, e eu me achava gente grande por usar tantos aparelhos e ir para a faca tratar de algo que só se trata com sessenta ou mais anos. fiz um piercing na boca que hoje em dia praticamente nem uso. fiz também uma tatuagem nas costas que não costumo mostrar para ninguém, e pretendo fazer outras, e também pretendo não ficar mostrando. já fui em inúmeros shows, assisti inúmeras bandas tocando ao vivo, cada uma com um sentimento diferente. já chorei incontáveis vezes, seja por raiva, tristeza, alegria, pena, seja deitado na cama, trancado no banheiro ou na frente dos outros. quando tinha quinze anos, num acesso de raiva, esmurrei a parede do meu quarto até a mão sangrar. com quinze anos também comecei o primeiro projeto de ter uma banda, que não foi pra frente. já entrei em depressão, e também já tive picos de felicidade que nem conseguia acreditar. concordo cada vez mais com o que falei para um grande amigo uma vez, a vida dos poetas, artistas, músicos, criativos, sonhadores, não segue uma linearidade. é cheia de altos e baixos, quedas e ascenções, uma atrás da outra. as vezes bebia até perder os sentidos, mas na virada de dois mil e cinco para dois mil e seis, resolvi largar completamente tudo isso, o que só me trouxe benefícios. já andei de skate, e já me quebrei muito fazendo isso. já lutei judô, fiz aulas de natação, futebol, basquete, ginástica olímpica, mas hoje em dia não passo de um sedentário. da janela do escritório, vejo boa parte do bairro de pinheiros, vejo a teodoro sampaio imensa. da janela do meu quarto, vejo meu bairro, descendo calmo e subindo em seguida. as nuvens costumam aparecer laranjas logo que amanhece, parece até um quadro. ando sempre com três coisas nos bolsos, carteira, celular e chave, não consigo sair sem eles. e também, me sinto nu se não estiver com o relógio no pulso esquerdo e a pulseira no direito. tenho barba relativamente grande, porque a preguiça sempre me impede de apará-la. o mesmo se aplica a meu cabelo. tenho olhos pequenos, puxados, o que já me rendeu perguntas do tipo 'você tem descendência oriental?', sendo que meu sangue é completamente europeu. a minha vida, como eu já disse, é um tanto quanto monótona, por mais que eu tente fazer de tudo para mudar isso, sempre acabo achando que falta algo. está no ar, mas eu não consigo sentir. passo horas e horas na frente do computador, e isso vai acabar me matando. de tédio ou de dor de cabeça, não sei, mas vai. minhas músicas preferidas não são as preferidas de ninguém. meus sonhos são maiores do que todos. meu sonho é alcançar o céu. minha cama é alta, perigoso. meu quarto é azul, maçante. um dia ainda pinto o quarto de vermelho. meus tênis são todos allstars, não consigo usar outro. meu prédio é o britanis, um branco revestido de pastilhas que costumavam cair na minha cabeça quando eu era mais novo. nasci em mococa, em maio de oitenta e oito, no hospital dona carolina. vim para são paulo com aproximadamente um ano de idade. sempre quis morar no interior, e estudar na unicamp, mas sei que hoje em dia não aguentaria nem um mês longe do ar poluído de são paulo. nem do barulho incessante dos carros e ônibus que permeiam as ruas movimentadas. eu queria várias coisas. queria um carro, uma namorada, entrar na usp, um emprego que eu realmente gostasse, queria que as bandas crescessem, queria também achar uma banda onde o som que eu fizesse com ela me faria (e faria os outros) se sentir do jeito que eu me sinto quando escuto hot water music e noção de nada. queria poder abraçar o mundo todo de uma vez só. queria ter chances de arrumar vários erros que cometi durante a minha vida, mas sei que não posso. então, sigo tentando não errar mais. claro, é impossível, mas eu estou tentando o meu melhor. e pra ser sincero, os resultados vem sendo melhores do que eu esperava.

queria também me olhar no espelho e não ver olhos cansados. quando der, eu juro que vou descansar até as olheiras sumirem completamente. aí então, quem sabe, não paro de escrever apenas rascunhos, e escrevo um livro.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.