quarta-feira, dezembro 02, 2009

próprias

e se hoje eu resolvesse desistir?
seriam minhas a fraqueza e a coragem
ou seriam teus a falta e o carinho?

e se hoje eu fosse embora?
seriam minhas pernas a me tirar de ti
ou seria tua a lágrima que fechou a porta?

e se hoje eu fechasse os olhos?
seria minha a vontade de correr
ou seria teu peso em minha pálpebra?

e se hoje eu te desse um adeus?
seria minha língua a contrariar o coração
ou seriam tuas mãos a fingir indiferença?


e se hoje eu resolvesse partir?
seria minha escolha de te amar ao longe
ou tua vontade de deixar viver?

segunda-feira, novembro 23, 2009

corredor

-me abraça forte? - disse com um tom de voz quase inaudível. era um daqueles raros momentos em que sua fronte impassível se abria e revelava uma garota frágil que procurava abrigo nos braços dele. não sabia mais onde acalmar suas tormentas, e por mais que se proibísse, acabou por se entregar a um beijo longo e apaixonado, que calou em um único instante todas as mil vozes que vociferavam dentro de sua cabeça por semanas. quando seus lábios descolaram, ela cambaleou até o elevador e viu a porta fechar atrás de si, não sem antes encarar pela grade os olhos dele, marejados e severos. no relógio do elevador, as horas já passavam de três da manhã. mas em sua alma, ainda eram aqueles cinco minutos em que seus pés deixaram de tocar o chão.

quinta-feira, novembro 19, 2009

thoughts of a loser, act VI - wake up call

depois de passos cada vez mais incertos, vôos alçados sem muita direção e alguns tropeços repentinos, o desanimo se tornou novamente um piso comum. nos últimos tempos me peguei por vezes sentado, olhando o céu, me perguntando o que estava acontecendo, sem uma resposta conclusiva, e sem a mínima vontade de me levantar e caminhar, como se estivessem acimentando meu corpo.

mas pior do que o cimento, é o conformismo.

a aceitação de que tudo está assim porque é assim, e não há muito o que eu possa fazer para resolver isso. falta algo, sempre faltou, eu sempre senti isso, e além desse algo transcender minha vontade de mudar, sua falta vem se tornando cada vez mais latente, criando uma calmaria e me deixando à deriva num recorte de infinitas águas por todos os lados.

eu sei, não é como se minha vida estivesse inteira de pontacabeça, nem como se nada estivesse dando certo. tem muitas coisas boas acontecendo, mas é triste ver que, mesmo sabendo o quão boas certas coisas são, e sim, poderão ser ainda mais, eu acabo ficando apático, mesmo me esforçando para expulsar essa névoa preta de dentro do meu corpo.

já se passaram anos desde que a sensação de falta começou. e por vezes eu cheguei a me sentir completamente preenchido. pelo menos foi o que pareceu. mas agora, isso me parece distante demais. pelo menos é o que parece.


pra ser bem sincero, já não sei de quase mais nada. sei pouco sobre algumas coisas que eu quero, que me importam, mas já não tento adivinhar o futuro. tudo parece um grande sono profundo, sonhado em sépia e com a música de fundo bem baixinha.


mas realmente acredito, que uma hora o telefone vai tocar, e eu vou acordar. e nessa hora, não vai me faltar mais nada.

terça-feira, novembro 17, 2009

caixa branca (prólogo)

de tantos contrastes vividos e retratos antigos
que percorremos durante nossas nove vidas
ninamos delicadas lembranças de um tempo melhor
mesmo que por vezes tempestuoso

tantos giros, tantos afagos, cabelos ao vento
e a terna vontade de te ver sorrir

e se tudo isso fosse esquecido?
viveria sim, em bons lençóis
sem rasgos, nem remendos
nem as marcas de desfortúnios

mas perderia assim suas mãos
a cumplicidade de infinitos silêncios
e o doce cheiro de baunilha

eternos em cada canto desse quarto
refletidos num lençol de seda
guardado com carinho em uma velha caixa branca
no porão de uma cabana de madeira
que construímos em dias que sonhamos viver

terça-feira, outubro 06, 2009

sobre uma linha verde

a madrugada o bombardeava com convites que seriam bem aceitos por um estômago vazio e uma vontade incontrolável de andar. já era o quinto mês desde que havia se mudado da vila mariana para a consolação, bairro tão ativo dessa cidade tão viva, e as descidas para a paulista durante a madrugada eram frequentes, principalmente nesses últimos dias em que seu colega de quarto havia viajado à trabalho e suas sessões de violão durante a madrugada estavam canceladas até segunda ordem. guardou suas coisas no bolso, chave carteira e celular, vestiu a velha camisa xadrez por cima da camiseta branca e saiu rumo à avenida sem saber bem para onde estava indo, e após alguns minutos de caminhada pelas calçadas cinzas e os prédios envidraçados sentava-se em uma mureta perto da entrada do metrô enquanto tentava se decidir que rumo seguir. já era uma e quinze da manhã quando resolveu-se por comer um lanche no subway, caminhar mais um pouco e dar por encerrada a sua volta. logo teria que tentar dormir pois acordaria cedo no dia seguinte, mais um dia cheio de trabalho como todos os últimos nos três anos desde que entrara na gravadora. caminhou até o local e pediu 'o de sempre', e enquanto pagava, surpreendeu-se com uma garota fazendo o mesmo pedido do outro lado do balcão. 'também venho sempre aqui por essas horas', disse. ele por alguma razão não conseguia parar de encarar aqueles olhos, e quando finalmente conseguiu responder, gaguejou de uma maneira tão espontânea que ela não pode deixar de rir. sentaram-se juntos na praça de alimentação vazia do shopping e conversaram por alguns minutos nos quais ele se encontrava visivelmente tímido, e ela, visivelmente animada. e quando os copos de coca-cola secaram, caminharam devagar até a saída. naquela noite, após caminhar um pouco no sentido contrário e andar quase o dobro até sua casa, ele deitou-se em sua cama com aquele 'nos vemos por aí depois' ricocheteando em sua mente.

.


três semanas depois, descia a avenida no meio de mais uma madrugada com seu colega de quarto rumo ao mercado para abastecerem a geladeira, e algo além do vento gelado o fazia sentir-se bem, como se previsse o acontecimento seguinte. após alguns minutos andando pelos corredores cheios de salgados e refrigerantes, virou uma esquina e esbarrou nela, fazendo-a derrubar os pacotes de salgadinhos e os chocolates que segurava no colo. desculpou-se, esperando vê-la brava, mas ela sorriu lindamente e mais uma vez ficou preso à seus olhos que agora mais pareciam duas jóias lapidadas ou algo que o valha e alguns minutos após apresentá-la à seu colega estavam os três na lanchonete do supermercado conversando animadamente sobre tudo, de música à filosofia, e ele se espantava com as coincidências malucas que os dois acharam em suas preferências. o jazz e o cappuccino, clapton e kerouac, soja e design, tatuagens e estrelas, e se surpreendiam com os gostos em comum que surgiam enquanto ele, sem perceber, memorizava milimetricamente seu sorriso. logo ela começou a devolver os olhares que ele lançava sem querer, o que o fazia corar. ainda um pouco envergonhado, respondia tudo ativamente, e a conversa continuava fluíndo descontraidamente. seu amigo, que bem o conhecia, percebia seu acanhamento e ria por dentro, achando engraçado toda aquela situação. algumas horas já haviam se passado e seu chá gelado já estava esquentando quando ela disse que precisava ir, pois acordaria cedo no dia seguinte. e quando se abraçaram na hora de se despedir, pode sentir o respirar da garota bem de perto, o que fez seu corpo ficar paralisado por alguns instantes, enquanto ele a observava se distanciar. ainda ficaram conversando no bar por alguns minutos, porém ele estava com sua mente cada vez mais longe, e cada vez mais intrigado pela presença repentina daquela garota em sua vida, e mais frequentemente, em seu pensamento. então subiram para o apartamento e pegaram seus violões. aquele momento sagrado na rotina dos dois era o que possibilitava tanto entrosamento em sua banda e em suas vidas. naquela noite, tocaram mais inspirados do que nunca, mais da parte dele, que sentia algo diferente crescendo dentro de si.

.

alguns dias depois, encontrava-se novamente sozinho em casa. seu colega havia ligado em seu escritório avisando que por causa de um problema de família teria que ir à casa de seus avós em minas, e ficaria lá por uma semana. seu apartamento ficava gigante quando estava sozinho, e o silêncio que reinava quando chegou do trabalho parecia se propagar infinitamente em todas as direções. havia passado por mais um dia estressante, e tudo que queria agora era sentar-se no sofá e descansar seu corpo e sua alma. ligou o computador e o som, e colocou para tocar o chemistry for changing times do blacktop cadence, seu disco preferido, que começou a delinar as suaves melodias preenchendo as paredes e os cômodos enquanto ele abria uma lata de chá verde, e olhava em volta todas as suas coisas, os violões encostados num canto da sala, os vários vasos de plantas e sua velha orquídea na mesinha de canto, o sofá branco com a manta roxa, o telefone antigo preto e dourado, e a janela que dava para a sacada, que o convidava a olhar a cidade mais de perto e respirar aquele ar gélido diretamente enquanto a quarta música do disco já havia tomado conta do ambiente completamente. olhou de cima tanta gente andando pela avenida absortos em seus compromissos, o horário de pico fazia com que aquele pedaço da cidade mais parecesse um formigueiro cheio de luzes, barulhos, copos sendo cheios e cigarros sendo acesos, e um sem número de carros que cruzavam tantas entradas buzinando sem ter um motivo concreto, buzinavam por inércia, por costume, por acharem que isso abriria magicamente o caminho congestionado à sua frente. tanto movimento o impulsionou a encarar tudo mais de perto, então subitamente largou a lata em cima da mesa, trancou a porta de madeira e desceu apressado as escadas, quase atropelando um de seus vizinhos no caminho. andou a esmo observando a vida pulsando nas pessoas, as sombras de mil corpos refletidas no chão, as cores vivas dos grafittis e de tantas pessoas se divertindo contrastando com as caras mortas dos trabalhadores cansados, tanta luz piscando que o fazia se sentir perdido, e ao mesmo tempo sabendo que aquele era e sempre seria seu lugar. percebeu então estar na frente do velho shopping, com sua fachada hoje cheia de vidros e marfim, e a vontade de um café invadiu-lhe completamente. desceu mais um lance de escadas e andou até o fim do corredor, passando por lojas e banquinhas, até chegar na cafeteria, que estava surpreendentemente vazia. encontrou-a sentada no sofá encostado à parede, com uma expressão de que palavras estavam quase saltando de seu interior, lutando para ser ditas, e ao vê-lo, elas saíram rápidas e diretas como uma flecha. 'estou indo para a alemanha na semana que vem', certeira como se tivesse esperado a vida inteira para dizer aquela frase e depois que o mundo acabasse, pois nada mais importaria, então levantou-se deixando para trás um copo de café vazio, uma marca de lágrima no estofado, o aroma de um perfume de laranja e um vazio na memória dele, que seguiu passos afora como se seus últimos dias tivessem sido um sonho confuso. parou em frente à entrada do metrô, e desceu as escadas rumo à casa de seus pais, não sem antes lançar aos grandes prédios da avenida paulista um olhar de compreensão, sobre a vida, o destino e todas aquelas inquietudes que sempre repousaram em seu peito. naquela noite, os entendia um pouco melhor.


texto formulado entre maio e outubro de 2009.

domingo, setembro 13, 2009

mil quilômetros - prólogo I

já passava de duas da manhã quando vi a primeira placa que indicava meu destino - são paulo, 450km - já nem sabia mais onde estava ou onde pararia, só me importava continuar rumo à capital paulista o quanto antes e o motorista, um homem de meia-idade careca com um bigode saliente me encarava desconfiado, afinal não é todo dia que se vê um garoto de camisa de flanela com sotaque gaúcho carregado pedindo carona numa beira de estrada paranaense, mas mesmo assim, motivado pela bondade ou pelo dinheiro embolsado ou coisa que o valha, aceitou me dar carona até sua cidade natal, que já nem me lembrava o nome devido à ansiedade extrema que ululava em minha barriga e já nem sabia mais como me livrar dela, portanto passou a ser minha companheira de viagem, ela e a velha mochila preta que não saia de meu campo de visão nem por um minuto, contendo tudo que eu precisaria ao chegar por lá, um caderno em branco, uma caixa de chocolates brancos, um punhado de notas de 10 reais e a surrada edição de 87 de on the road de kerouac, nisso se resumia metade da minha vida - a outra metade radicada em são paulo, e em parte, na minha mente, visto que não me saia do pensamento desde a primeira palavra trocada, a fixação pela geração beat, o vício na coca-cola e os olhos azuis, pequena encantadora que agora me esperava no terminal tietê com o coração aflito como eu próprio me encontrava. a paisagem agora era de um tom verde-musgo forte, com árvores parecidas com pinheiros mais finos se extendendo até onde a vista alcançava, o asfalto gelado e o breu celeste salpicado de pontos brilhantes que faziam com que minha mente se acelerasse e tudo mais, e de repente um guri de chinelos na beira da estrada que vinha caminhando melancolicamente me encarou profundamente ao passar por nós e eu entendia o que aquele olhar queria dizer, 'é cara, é isso, estamos por aí aos montes, fodidos e preguiçosos, nos arrastando como fantasmas por esse país, seja na sola de borracha ou em pneus alheios apenas procurando um lugar que faça sentido no fim das contas e esse fim virá, para acertar cada ansia que não nos deixa descansar por nem um minuto sequer', e o motorista borrachudo se limitou a perguntar ironicamente 'mais um do seu bando perdido por ai?' e eu dando ombros me fixava novamente na paisagem, que abria alguns descampados visíveis entre as árvores e eu distinguia pequenos pontos de luz vindo de janelas aquecidas e familias tomando seus chocolates quentes antes de se enfiarem em suas cobertas - e me lembrava rapidamente da casa que deixei para trás, minha velha cama de compensado e colchão de água e minha mãe preocupada me dizendo que eu estava atrasado para as aulas e agora tudo isso havia se tornado apenas uma memória esmaecida perto de tudo que estava vindo. então repentinamente peguei no sono, e tive a impressão de ouvir a voz de brian fallon cantando suavemente 'nobody does it like you anymore' - e era isso que me impelia, saber que em algum lugar longe de tudo que eu considerei como meu mundo havia alguém único como eu, e eu estava realmente ansioso para entregar meu coração definitivamente, e o modo como toda essa loucura repentina fazia sentido era algo que somente eu e ela entendiamos, numa conversa direta entre mente e sentimento - e então acordei com o homem me cutucando, iriamos parar alguns minutos para descansar num posto que funcionava como parada para caminhoneiros frenéticos dormirem algumas horas antes de partirem mais agitados do que haviam chegado, mas ainda sim descansados, e o lugar mais parecia um cemitério de caminhões, que me lembravam grandes tartarugas de 100 anos descansando serenamente - então estacionamos perto de um poste de luz e eu fui até a loja de conveniência ver se achava algo para forrar meu estômago, não por ter fome, mas para ver se as borboletas se acalmavam ali dentro. ao voltar, percebi que o gordo tinha partido, 'gordo filho da puta' pensei, 'não há mais boas almas por aí'. sentei então no banco de madeira em frente à loja julgando que ali não seria incomodado até amanhecer, quando voltaria a procurar carona por aí - abracei minha mochila e dormi o melhor sono que havia dormido nos últimos dias, pois o sereno e a perspectiva de apenas mais um dia de caronas até chegar à são paulo fizeram minha inquietação diminuir, até cheguei a sonhar com a avenida paulista e todas as suas luzes e brilhando mais que todas elas, aquele sorriso de mãos dadas comigo sem preocupações inseguranças ou qualquer outra dessas coisas tão 'humanas' que acabam estragando a pureza de sentimentos como aquele, a sensação de estar verdadeiramente completo depois de 22 anos vividos lado a lado com um vazio inexplicável - pelo menos era isso que o sonho me dizia que eu encontraria: a paz de espírito que sempre sonhei.


[guilherme amato, com roteiro de daniella moraes ]

terça-feira, julho 21, 2009

thoughts of a loser, act V - sun shine on

tem dias que o sol bate tão forte em minha janela que eu quase consigo entender o porque de eu existir. dias como esse, como tantos outros que eu tive, principalmente quando trabalhava em um prédio sentado de frente para a janela e uma paisagem sem fim, com árvores banhadas pela manhã e o cheiro forte do café tomando conta da sala, dias que me fazem querer sair sem rumo e caminhar por horas sentindo que o frio do começo do inverno não consegue tirar a maestria da luz se levantando preguiçosa rumo ao ponto mais alto que nossos olhares alcançam para depois tornar a deitar-se e deixar-nos com a sensação de que somos abençoados simplesmente por existir, poder sentir e contemplar a pulsação da vida em cada folha de árvore nascendo, cada passo dado e cada palavra cantada.

terça-feira, julho 14, 2009

jardim de orquídeas, pt II

sempre me perguntei qual caminho deveria seguir. havia uma certeza, acompanhada de uma enorme insegurança. em meio à neblina, andava a passos incertos por um jardim onde pouco se via. me guiava apenas pelas vozes que vinham de longe, e que por várias vezes, me fizeram andar em circulos até que se calassem, e eu ouvisse um outro chamado.

algumas vezes cheguei a ver o sol.

por entre frestas na vegetação, uma luz esparsa se fazia presente, ora me esquentando, ora me guiando. mas tão repentinamente quanto surgia, ela também desaparecia, e eu ficava sentado no sereno ouvindo a melodia do jardim, seus laços que se tornavam cada vez mais constantes.

essas canções se tornaram tão familiares que as tomava como reflexos de meu interior, soando para e apenas para mim. e cantarolando-as, seguia meu caminho sem rumo ao suposto fim daquele bosque, entre tropeços e espinhos.



eis que, depois de tanto tempo, o sol tornou a brilhar, me fazendo ver tantos desvios e becos sem saída que ficaram pra trás.


e brilhou também dentro de mim a certeza de seguir o caminho certo.

sexta-feira, julho 10, 2009

untitled

it's been a while since we stared each other's eyes. it could have been more, i know this always-changing world can be a pretty mess and so do we. i know and now we're here without a word. this glassy wall of crossed sights, bold silence and fast beats, in time. so tell me, tell me, did you find at all any brighter eyes than mine when they saw your face breathing deeply and shining sunrise gold? because i would bet every penny in this world just to prove it. i'm here for you.

terça-feira, junho 30, 2009

a letter to the golden, lt. I

querida beatrice

quanto tempo já passou desde nosso último olhar... lembro-me de teus olhos, eles continuam impressos em minha memória, tão vivos e ao mesmo tempo tão ferrenhos. nossos dedos, entrelaçados, tua pele quente na minha, deus, quanto tempo... em dias frios como esse, essa tua falta que sinto me corrói de uma maneira tão forte que às vezes dá vontade de cruzar esse maldito oceano à nado. mas o vento me devolve a realidade de que o que fica para trás, é para ser deixado para trás, essas feridas que já quase cicatrizaram.

não lembro bem sob quais premissas eu resolvi partir. não lembro nem por que parti. talvez fosse demais a idéia de um 'para sempre'. talvez fosse medo, não sei, talvez. só sei que parti. e quão mal me fez essa viagem, só eu sei, ninguém mais. agora me encontro aqui, do outro lado do oceano, escrevendo folhas a esmo sonhando com algo diferente dessa paisagem desolada que assola meus sonhos, outrora tão agradáveis.

tem dias, lugares que cruzo, que me recordam tão vivamente tua presença, tua voz, teus passos, teu respirar tão próximo e teus lábios ardendo nos meus, que por vezes preciso gritar a mim mesmo que tudo isso são só memórias, de uma época perfeita, mas findada, por minha vontade, ou se preferir, por minha insegurança. e no fim das contas, tanto faz. olho em volta e vejo essas construções diferentes, outras pessoas e outros ares, e me dou conta de que tudo que posso fazer agora é continuar caminhando. não sei bem para onde, nem sei mais por que, mas é tudo que me resta afinal.

mas não houve ainda uma madrugada em claro que eu não sentisse teu perfume em meu travesseiro.


esteja bem, onde estiver, querida beatrice.


com amor,
luke.

segunda-feira, junho 22, 2009

o vento e a estrada

foi então que eu resolvi dar um passo pra frente. e logo em seguida, mais um. e a cada passo que eu dava, meu corpo ficava mais leve, e meus tênis gastos apertavam menos meus dedos calejados. o sol refletia seus raios no asfalto, e ao longe tudo eram montes gigantes de areia, e uma estrada sem fim até onde minha vista alcançava. mais um passo, e um leve formigamento começava a tomar conta de mim. uma sensação de liberdade começava a circular por minhas veias, e meus braços começaram a se levantar. no próximo passo, já nem sentia mais o chão sob meus pés, e pouco a pouco deixava de ser eu mesmo pra ser um só com o vento e a estrada, desaparecendo tão lentamente quanto o cair daquela tarde.

quarta-feira, junho 17, 2009

don't think about it

y'know darling, for me it's not a competition.
i'm not one of those who like to conquer.
neither i'll force a change of subject.
or attack others around.
i'll just be. simple like that.

y'know darling, if it's going to turn out to something,
i don't want to put countless efforts on it again.
it have to be spontaneous.
it have to be simple.
it have to be true.

y'know darling, it's alright.
we're not losing anything.
it won't have any suffering.
because that's what commom love's all about, suffering.
and i think that this needs a different kind of it.

y'know darling, it's ok.
as long as we're cool,
everything is a-ok.
so don't think about it.

sexta-feira, junho 12, 2009

restless night

i see empty hands shaking
and blood marks in the wall
the smooth sound of jazz in the air

i feel the wind blowing from the window
and the ceiling that is so familiar
always laughing at me, always

a weak light comes from the shelf
i would jump off the height just to run away
from the words that came before
this restless night

daqui do alto

me encontrava em queda livre, onze andares durando uma eternidade.



uma eternidade que me separava do chão.



antes da queda, uma pergunta.



segundos depois, um clarão.



olhos fechados, uma voz ecoava por perto.



era o céu ou apenas nossos sonhos emaranhados?



a dúvida, persistia.







será que, ao abrirmos os olhos, a queda chega ao fim?

segunda-feira, junho 08, 2009

na parede do meu quarto

vejo um mundo
este que existe em historias em quadrinhos
onde a bela se apaixona pela fera
onde a bela também é fera repentinamente
as cortinas mudam de cor
como um arco – íris
os pensamentos mudam de direção
o tempo para, vai e volta
os sonhos da bela adormecida se tornam realidade
e num passe de mágica
o sapo vira príncipe
as questões em múltiplas dimensões
não ha certo nem errado
não ha julgamento
não ha nada complicado
daí... pronto! acordei
virou conto...
as fadas voaram
os sapos fugiram

não haviam mais xícaras
os bules perderam seus sorrisos
era tudo cada vez mais preto e branco
num mundo onde deveria reinar a cor
os meus olhos agora estavam fechados
lutando contra lágrimas ingratas
que gritavam por liberdade
à custa de um coração que sofre
o globo sobre meu nariz me mostrava algo
que mal podia ser chamado de luz
era o reflexo de uma felicidade sonhada
era o resto do que restava de mim


[laressa caroline e guilherme amato]

terça-feira, junho 02, 2009

second step

i said so many times, was it a painful effort to listen? because it felt like breaking a concrete wall with bare hands. i always tried tried too hard to pretend being here but i never thought if i really wanted to (besides wanting you) but now i don't know where i am right now, and i don't believe you do neither. and sincerely it doesn't matter that much. i just hope that things can take their way without taking the few good things left. it's just sad that you needed to come this far to realize that you're the one who changed.

segunda-feira, junho 01, 2009

diário dos sonhos, pt II

podia ver ao longe o contorno dela aparecendo de encontro às luzes fortes que vinham da caminhonete, correndo em minha direção. já estavamos presos no carro a algumas horas e ao ver aquele desfiladeiro, aquela vista desconcentrante, resolvemos parar. e por horas, fitamos aquela imensidão que se esticava até encontrar o horizonte, onde o sol começava a mostrar sua face. seu rosto parecida mais iluminado do que nunca, e em silêncio assistimos o dia nascer, enquanto minha mão encostada na dela tremia levemente.

.

havia bombas caindo ao meu redor e mesmo assim eu dançava ao som do cap'n jazz sem me importar com nada.

segunda-feira, maio 25, 2009

cadência

sentia o asfalto sob meus pés descalços. não me lembrava que caminho havia feito, mas de repente estava novamente naquele cruzamento encarando de baixo tantos prédios, que faziam a cidade mais parecer uma floresta de janelas e cimento. não se ouvia nenhum ruído, e as batidas do meu coração acelerado pareciam ecoar por aquelas ruas vazias. não sabia se minha vontade havia me levado até ali ou se foi apenas coincidência, novamente estava sentado no meio-fio, naquela mesma esquina. as luzes todas apagadas e os bares todos fechados denunciavam mais uma madrugada, friorenta noite paulistana que me encantava tanto. olhava atentamente tudo que me cercava, as vitrines solitárias, portões enferrujados, árvores balançando, postes, sacadas, um ponto de ônibus retorcido à minha frente, folhas caídas no chão. o cheiro de chuva me fazia sentir perto de casa, aquelas grades cortando a luz azul em meu corpo, tudo parecia tão certo. era tão fácil se lançar por cima das casas e alcançar aquelas cortinas balançando no vento, e hoje me encontrava descalço sentado aqui tão longe, mas ao mesmo tempo soavam tão familiares aquelas notas que me sussurravam teu nome, passos vagarosos, curiosos. me sentia tão imerso em meus pensamentos que pouco a pouco a escuridão ia dando lugar a um espectro pálido de cores tão belas quanto aqueles olhos e os muros iam perdendo seu contorno. aquela brisa me trazia melodias que a muito tempo não ouvia, invadindo completamente meu espírito e todos os outros à minha volta e meu coração diminuia seu rítmo lentamente, acompanhando a cadência da canção que agora me carregava em seus braços e eu flutuava por cima da calçada levado por uma dança soturna, de repente todos à minha volta dançavam juntos àquela distorção da realidade, já não me importava mais se acharia o caminho de casa, nem o frio, nem os minutos que agora se extendiam a dimensões infinitas e cada vez mais alta a música soava por todo lugar e os tons cálidos davam lugar a cores vivas e pulsantes e as formas de tudo e todos já não existiam, eram apenas uma valsa que corria conforme ditava a batida, se misturando com os corações aquecidos naquela madrugada sem fim.

x

sábado, maio 23, 2009

sobre garoa e ruas

era primeiro de junho. o garoto acordou e disse as palavras mágicas, segurou sua respiração e fez um pedido. o sol lá fora quase não esquentava, uma garoa fina despontava e a vontade de levantar-se da cama praticamente não existia. era mais uma segunda-feira como todas as outras, e o despertador não parava de apitar. ficou alguns minutos sentado na cama sem pensar em nada específico até perceber que já estava atrasado. pulou da cama, tomou o banho mais rápido de sua vida, colocou a primeira roupa que viu pela frente e saiu apressado pela porta. correu pelas escadas e ao passar pelo portão, viu seu ônibus virando a próxima esquina. havia perdido sua condução. olhou em seu celular, oito e vinte.

e apesar de tudo, ele sorria.

sexta-feira, maio 22, 2009

diário dos sonhos, pt I

caminhavamos em três pessoas por aquela estrada no meio do deserto, eu, john e andrew. horas e horas haviam se passado e não havia nenhum sinal de vida, nenhum carro passando, nada. andavamos em silêncio como se fossemos cúmplices do crime de ter ido parar naquele lugar, e a culpa de dizer algo seria esmagadora demais para aguentar. então passamos por uma encosta, e para nossa surpresa ouvimos ruídos. subimos correndo e vimos um grupo de estudantes sentados em fila, assistindo uma palestra, enquanto helicópteros faziam um sem fim de poeira se agitar. meus dois companheiros se sentaram na beira da estrada perto dos helicópteros, enquanto andei por entre as pessoas, procurando alguma face familiar. no meio de tantas pessoas absortas, vi a imagem da minha querida luanne, de mãos atreladas com um sujeito qualquer. ela, que me dissera dias antes de minha partida que me esperaria, se encontrava ali, nos braços de um estudante, como ela. ao me ver, seus olhos marejaram, e tudo que eu consegui fazer foi correr dessa visão, voltando para meus companheiros. dei um beijo na testa de john e falei 'irmão, chegou a hora de partirmos'. e com aquela imagem na cabeça peguei minha velha mochila batida e me pus a andar com meus companheiros itinerantes, deixando pra trás aquela velha história onde não conseguiria me encontrar mais como parte da pintura.

quarta-feira, maio 20, 2009

abaixo de zero

hyde park, 3 horas da manhã.

a paisagem gelada da cidade londrina pela madrugada servia de palco para aquela valsa sem fim do casal que se apertava um contra o outro na tentativa de vencer o frio que fazia seus lábios tremerem. seus corpos brilhavam enquanto a neve ao seu redor refletia a luz dos distantes postes do outro lado do lago congelado.

mesmo assim, no meio de ventos e rodopios, seus beijos eram firmes, precisos, intensos, como todo bom beijo apaixonado deve ser.

domingo, maio 17, 2009

aos mestres, com carinho

and it never ends...
the images that are printed on this wall
will look afters us, forever
even at the most dark of the times

their eyes are our keepers
their life is our message

we're in their sights


we're not alone
and when you hear this song, you'll know it
this is not a battle for us to lose

all of us, unify
give us your strenght
and never let them make your fist come down

don't be scared to live
don't be scared to love
don't be scared to try


live your heart and never follow

de sonhos e horizontes, pt III

me segurava em minha cadeira em mais uma noite longa. o sono já cansava, olhos impressos na capa de um livro me encaravam. o refrigerante na garrafa já estava quente e sem gás, mas pouco me importava, apenas precisava de algo para molhar a garganta. levantei rumo à sala e abri a janela para pegar um pouco de ar, pois o que circulava em meu quarto já estava novamente abafado, grosso, diferente daquele que vinha da rua em lufadas geladas e de certo modo revigorantes. percorri toda a paisagem com os olhos: os pequenos prédios, tantas casas, luzes apagadas e algum esboço de movimento nas ruas, tímidos ruídos ecoando pelo asfalto. eis que uma imagem no céu me prende a atenção, um conjunto peculiar de estrelas que quase chegavam a formar um rosto que sorria, e bem ao centro deles uma luz diferente pulsava como se ardesse em gigantescas chamas. não sei se foi por impulso ou se ela mesma me pediu, mas fiz um desejo, botando um bocado de fé naquele gesto infantil que nunca cultivei. e quando pisquei meus olhos, ela pareceu oscilar seu brilho por vários minutos como se respondesse algo que não conseguia compreender. um carro cruzou a avenida lá embaixo à toda velocidade me fazendo desviar o olhar. quando tornei a procurar aquela luz, não havia mais nada no céu. nem estrelas nem nuvens, apenas um tapete liso de uma cor roxo-escura. virei as costas e voltei ao meu quarto, crente de que aquilo havia sido uma alucinação causada pelo sono que já me acomapanhava por algumas horas, porém fiquei intrigado pois havia parecido tão real e mesmo já deitado em minha cama, não conseguia esquecer o tal brilho. então, novamente tomado por algo que não sabia bem o que era, resolvi lançar aos céus outro pensamento. desejava outro sinal que me fizesse acreditar que aqueles minutos não haviam sido delírio, e que meu pedido havia sido escutado por alguém lá no alto.


então começou a chover.

sexta-feira, maio 15, 2009

these friday lights

era apenas mais uma sexta-feira como qualquer outra com lojas se preparando para fecharem por dois dias de descanso merecido após uma semana inteira de trabalho penoso e pessoas aceleradas e por vezes frenéticas com o furor do interminável sextaprasábado que expurga demônios na pista de dança pulsante e nas canecas de chopp em milhares de mesas de bar espalhadas por todos os bairros inquietos numa imensidão de cimento chamada são paulo. era apenas mais uma sexta-feira onde rostos anônimos brilhavam mais forte e palavras agitadas eram mais espontâneas à medida que os ponteiros giravam e os passos desciam as ruas mais lotadas depois das sete onde reais se multiplicavam ou apenas desapareciam em meio a carícias e rodas e notas e drogas enraizadas nos pulsos afáveis e braços abertos e picados. era apenas mais uma sexta-feira onde prazos se esgotavam em cifras e lousas apagadas mas ninguém parecia ligar afinal eram dois dias para as gravatas se camuflarem e os colarinhos serem absorvidos pela pele suada e ávida por adrenalina, e pra que apreensão se logo ali na segunda-feira o ciclo se retomava como se nenhuma de tantas loucuras cometidas nesse período tão nobre fizessem sentido ou tivessem existido? era apenas mais uma sexta-feira qualquer em que eu me encontro preso à minha velha cadeira olhando para um copo cheio de café frio pela metade - e um velho disco de ska preenchia completamente o ambiente alegrando secretamente os outros funcionários que admiravam as melodias do trompete - e eu pensava um pouco além das artes e telas que preenchiam a outra parte de minha vista no momento, apenas queria sair correndo daqui e ver as árvores lá fora e respirar um ar menos mofado do que este de agora - então subitamente me vieram memórias, recentes ou não, de amigos, sorrisos, momentos e calafrios. era apenas mais uma sexta-feira em que eu me apegava a lembranças agradáveis para nao enlouquecer com a rotina.

quinta-feira, maio 14, 2009

santafe street

'the sounds are fading further and further
and all of a sudden there is a single place

in the world where you can rest your pace in'


his sight blurred for a moment when he crossed the street and some cars honked uselessly because he just felt like walking without any care - syncopated heartbeats pounding harder and harder for hours long while his mind just screamed louder with each step taken towards that single moment of clarity or something like that, again to his surprise something wrapped his throat suppressing his rehearsed words to justify identical thoughts or at least try to sound like he was making any sense but in his true dimension it was just like a mess inside - lights out, hands down - and a struggle to conquer the stroke and try to act like he really meant to, at least this time. maybe it was just another glimpse of past talks about happiness or an absolute fit, and he was punched by all of this coming from nothing to something really shocking and sometimes even scary, but nothing seems to matter when these things come to the fore. he just smiled, even in silence, and he rode his horse aiming home to a strangely familiar good night of sleep.


‘what can you do when you feel like crows are gusting in your stomach?’

sábado, maio 09, 2009

aquecendo

notas fantasmas ou apenas mais
batidas sem sentido sincronizadas em outra realidade
o frenesi dos sopros tomando conta
dos pés daqueles que assistem calados
a dança incessante das folhas
no quintal de cada jardim
daqui até o fim da linha


o som ecoava por todo lugar
suas palavras percorriam as ruas
invadindo tudo e a todos sem pedir permissão


. por favor, leva daqui essas rosas
não as deixe terminar de apodrecer nesse jardim cinza
pois a verdade já consumiu suas pétalas


não posso acreditar mais em meus ouvidos
muito menos rascunhar teus desejos
agora que não há mais combustível
pra alimentar essas chamas azuis
tão superficiais


onde foram parar suas mãos?
elas repousavam tão serenas sobre as minhas
desvaneceram num piscar de olhos
desses que duram meses


. não te acho mais do lado de lá do espelho
essa imagem deixou de ser familiar
ou talvez na verdade tenha segurado o retrato por tempo demais


e porque não ansiar a queda?
se afinal, só o que vale é a suspensão tão aparentemente eterna


e nunca o fim da história de encontro ao chão

ode a jack

imensamente grato por um dia de chuva ele saiu de sua casa com nada além de uma guitarra surrada nas costas e alguns poucos reais no bolso que havia economizado durante os últimos dias que passou sem trabalhar ou coisa que o valha pois cada vez mais sentia a urgência de abandonar toda aquela pressão que pouco a pouco parecia esmagar suas têmporas entre agendas e prazos e compromissos enquanto tudo que ele queria era a simples e pura liberdade de fazer o que quisesse quando quisesse sem ter que ouvir que horas teria que acordar ou ir dormir. onde ficariam todas as notas que precisava para se sentir completo se tudo que conseguia pensar era tudo que ele não queria pensar, somada a insônia que a meses parecia o perseguir incessantemente, então andou pelo quintal enquanto as gotas iam beijando sua face e a sensação do gelado no rosto o fazia andar cada vez mais rápido na direção oposta de quase tudo que havia construído e agora abandonava de bom grado para tentar alcançar a plena vida que sempre havia sonhado, sem preocupações excessivas nem ordens diretas. se lembrou de cassady, o velho cassady dos livros que devorara nos últimos anos nos poucos momentos de paz que tinha e que se equiparavam apenas aos momentos em que deixava seu instrumento falar por ele como uma extensão de seu corpo gritando desesperadamente cada dissonância que o atormentava, cassady aquele que deixava tudo para trás cada vez que ouvia a estrada o chamar com seus lamentos guajiros e todas aquelas coisas loucas que imaginava encontrar além do horizonte daquele país que desbravara tantas vezes sobre tantas rodas, aspirando a poeira dos desertos e o lodo dos pântanos que enchiam seus pulmões com a mais verdadeira sensação de não ter amarras. caminhou pelas ruas por vários minutos e tomou um ônibus que o levaria até os limites da cidade de onde tentaria fugir para cada vez mais longe e para cada vez mais perto do sonho de alcançar o céu e poder olhar pra trás sem medo algum de se arrepender de nada que tenha deixado de fazer em tantos anos que passaram e tantos mais que passarão por sua vida em alta velocidade. adentrou um bar na beira do começo da estrada e tentou empurrar um café com queijo quente para baixo mas a ansiedade simplesmente havia expulsado toda e qualquer fome de seu corpo mas ainda sim havia conseguido algumas mordidas e goles e se sentia pronto para partir à qualquer momento, mas não sem antes passear pela pequena loja de conveniência do restaurante onde folheou praticamente todos os livros da estante de alberto caieiro a zibia gasparetto, folheou apenas pelo prazer de colher as palavras e cada uma delas podia ser absorvida em sua totalidade pois não havia mais nada que pudesse lhe tirar a atenção para o que realmente importava: a música e as palavras e as imagens e toda e qualquer manifestação de emoções e criatividades externadas com sinceridade e nenhum pingo de pretensão aparente, apenas a verdadeira intenção de se fazer sentir e entender completamente. saiu por alguns instantes e contemplou maravilhado a paisagem à sua volta com todos os seus morros de terra clara e os carros passando hipnoticamente e todas as pequenas casinhas surgindo uma após uma com suas melancólicas janelas circulares dispostas lado a lado formando um emaranhado de tijolos laranjas e buracos negros que eram eventualmente cortados por figuras esquálidas e vultos indefiníveis em toda sua passividade de não se preocupar se o tempo urge do lado de fora gritando para que nenhum de nós desista de correr atrás da vida antes que essa mesma nos deixe para trás deitados no chão nos perguntando 'onde foi que paramos de apreciar as nuvens e encaixamos a pressa e as cobranças em nossas vidas?' como se não soubessemos que a resposta é tudo que nos destrói e tudo que alguns poucos de nós tenta evitar fugindo dos padrões e tentando apenas ser feliz com o que nos basta. foi quando subitamente uma voz desconhecida resolveu oferecer um banco de passageiro livre até perto da divisa de campinas em troca de alguns trocados para o combustível assim como se fazia na velha nação americana nos anos dourados em que os poucos corajosos ou malucos o suficiente para correr atrás de seus sonhos o faziam sem pensar duas vezes nas consequências morais físicas e emocionais que poderiam ocorrer. podia sentir toda aquela velocidade adentrando suas veias e irradiando cada montanha existente nessa terra vasta e cada bairro e todas as suas luses intermitentes fazendo pulsar a vida em cada canto existente, e ao entrar no veículo rumo ao desconhecido ele pensou em neal cassady, o herói mítico de seus dias de conformado. ele pensou em neal cassady.

quinta-feira, maio 07, 2009

refração

e quantas vezes mais vai se enganar assim?
dizendo ao mundo o que finge sentir
pensando alto valores que não tem
ou que no fundo de sua alma, gostaria de não ter

você se diz forte, se diz convicto
mas em seus olhos eu vejo vontade
de manter o belo quadro intocado
após tanto tempo e tantos recalques
tantas demãos de sentimentos retalhados

enquanto por dentro
vive ansiando o que nega
vive aspirando a urgência
e o desejo de se encaixar
fala mais alto do que o desejo de viver

qual desses retratos é realmente você?
será que existe mesmo um rosto
por detrás de tantas máscaras de ar?

palavras são mais fortes que espadas;
amar é mais do que aceitar e se comportar;
e sinceridade (para consigo mesmo e para com todo o resto)
vale mais do que a imagem que você pensa estar mantendo
em meio a uma sobriedade desfocada