sexta-feira, maio 27, 2011

haikais, #4

os dias mais frios
congelam o corpo,
mas aquecem a mente.

terça-feira, maio 24, 2011

pattern against user

ouvia os fracos tiques de seu relógio de pulso ressoarem pelo silêncio do quarto como grandes sinos de uma igreja. já estava acordado a mais ou menos meia hora, mas ainda não tinha juntado coragem de se levantar. pouco a pouco os eventos da noite anterior lhe voltavam à mente, como peças de um quebra-cabeça sem fim. ele decidiu se vestir e ir beber algo. arrumou o cobertor por cima dos ombros dela com cuidado e caminhou até a cozinha, atrás de um gole de refrigerante, e no caminho quase pisou na cachorra que mais parecia uma almofada negra e peluda, dormindo esparramada no chão. refrescou sua garganta e ao voltar, ouviu uma voz suave vindo debaixo do cobertor, perguntando que horas eram. 'quatro e meia, dorme que ainda tá cedo pra levantar', e com um beijo na testa, colocou ela pra dormir novamente, e deitou-se ao seu lado, contemplando os contornos do teto no escuro.

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os ouvidos zuniam alto, mas tinha valido a pena. ouvir aqueles acordes e gritar junto cada refrão, era o que o mantinha vivo. no caminho, discussões, mas dessa vez ele não tinha culpa. de cara fechada, os dois subiram a avenida de ônibus sem trocar nenhuma palavra, e ao chegar no metrô, a pergunta. 'você não gosta mais de mim, não é?'. 'para com isso', respondia, 'é claro que gosto, foi só uma briga. eu peço desculpas, tá bom? eu não devia ter gritado também', disse. e os ânimos começaram a acalmar, e ao chegar em sua estação, as mãos dadas já denunciavam que seria uma noite em que o carinho que sentiam um pelo outro faria com que eles esquecessem os arranhões ganhados mais cedo. os olhos inquietos dele percorriam o rosto dela ainda em espanto, a cada vez que ele se lembrava do caminho que percorreram até aquele momento. 'às vezes eu acho que vou acordar e você vai desaparecer, sabia?', dizia. já de madrugada, uma sensação de 'já vivi esse momento antes' assolava o ambiente. olhou pro lado, e viu a garota repousando com uma expressão angelical em seu rosto. 'você foi o melhor presente que eu já ganhei', sussurrou em seu ouvido. levantou-se e foi até a geladeira buscar um pouco de refrigerante, mas preferiu beber água, pra variar.

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a dor de cabeça já estava eliminando qualquer tentativa de acertar as coisas. observava as lágrimas brotando de seu rosto e tentava entender o motivo de tanto desconforto. por fim, o cansaço se abateu e os dois cederam, se abraçaram, e resolveram ir pra casa. 'não sei quando aconteceu, mas eu endureci por dentro', pensava. não conseguia se lembrar de quando foi que as coisas mudaram tão drasticamente, só sabia que agora era assim, duro. 'se fosse em outros carnavais, eu teria gritado menos e ouvido mais'. apenas se sentia aliviado por ser mais uma discussão findada. chegaram ao apartamento e foram dormir sem demora. um beijo estranho de boa noite fechou aquele dia, e ela adormeceu com aquele dia latejando no peito. ele se levantou em silêncio, foi até a cozinha e por um momento, jurava ter visto o vulto daquela cachorra que não estava mais entre eles, mas foi apenas impressão. 'sombras', disse pra si mesmo. abriu a geladeira e tomou o resto do chá verde que restava na garrafa. voltou pra cama no mesmo silêncio em que levantara. virou-se pro lado e falou um 'boa noite' que doeu pra sair, cuja resposta ficou suspensa no ar.

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desligou o motor e recostou seu corpo no banco. ficou assim, parado, por alguns minutos. apenas o barulho do portão automático se fazia presente. juntou suas coisas e fechou a porta, correndo pra pegar o elevador que estava parado no andar. entrou em casa e deitou-se na cama, sem nem tirar o tênis. o teto, fracamente iluminado pela televisão, fazia um teatro de cores e sombras que o fizeram se desligar da vida por alguns instantes. 'o passado parece tão mais distante agora', repetia. virou-se pro lado e ocupou a cama toda, na diagonal, e fitou a parede ao seu lado. e no fundo, se sentia agradecido por ter percorrido tantos campos, e se não se arrependia de ter feito tudo como fez, ao menos permitia que uma saudade leve o preenchesse. desligou o telefone e foi até a cozinha, encheu um copo de suco e parou diante da janela. acabara de percorrer metade da cidade, sozinho, cantando alto junto àquelas músicas que o faziam sentir mais vivo. contemplou as ruas vazias como quem vê seu futuro diante de si. então, terminou o suco e voltou pra cama, com um sorriso no rosto e uma forte intuição de que algo grande viria. viveria algo que nunca experimentara, pra talvez se tornar alguém que ele nunca foi.

segunda-feira, maio 23, 2011

just a quiet evening

'uma moeda entalada na garganta, anos a fio'. era essa a sensação que tanto transtorno deixou em uma época de sua vida, onde por mais que as cores o rodeassem, a monocromia aguardava calmamente como o recheio amargo de um doce. por mais que no cerne isso o sufocasse, em sua rotina era apenas um detalhe. 'e eu aprendi a viver com isso', dizia sempre, e por mais verdade que fosse, chega uma hora em que essas coisas simplesmente voltam. e dessa vez, voltou na forma mais agradável possível.

ao ver o envelope confirmando seus anseios, simplesmente deixou de pensar. agiu. 'é apenas uma noite silenciosa', pensou, e a cada passo, sentia a moeda tintilando dentro de si, o barulho do metal contra sua voz tirava sua calma. mesmo assim, agiu. e por um instante, a moeda vacilou no vazio, e balançava a cada vez que as peles se tocavam, que os dedos se entrelaçavam.


mas a moeda não caiu. ficou sustentada pelo receio. e por horas, ela se fez sentir, arranhando a garganta de uma forma tão viva quanto fora quando ficou presa pela primeira vez.



então, os olhos se abriram. e olhar fundo naqueles olhos fez com que a calma retornasse, e com ela, os suspiros, que se intensificavam a cada instante. não sentia mais sua garganta arder.



após tanto tempo, em um instante onde as luzes se apagaram, a moeda finalmente deslizou por entre as cordas vocais, atingindo o fundo de seu corpo com um baque surdo e pesado, seguido de um grito extasiado de alívio, que ressoou pela primeira e última vez. e enfim, o silêncio.



e mesmo não sendo, foi apenas uma noite silenciosa.

sexta-feira, maio 20, 2011

flutue

luzes na estrada, som de grilos e a brisa suave.


-ei, acorda. vou dar uma parada.
-hmmm... que preguiça... que horas são?
-umas quatro e alguma coisa. você tá dormindo desde umas onze.
-nossa, nem vi o tempo passar, tava tão quentinho com o cobertor aqui...
-eu sei, mas já tá quase chegando. vou só parar um pouco pra esticar as pernas. você fica linda quando acorda, sabia?
-larga de ser besta... (beija ele nos lábios suavemente)
-vou ali fora dar uma respirada e já venho. você fica aqui?
-fico sim, vai lá. (sorrindo)

'perdi o sono...'

(sai do carro)

-ei, volta lá pra dentro, tá frio aqui fora.
-vim ficar com você um pouco. (joga a coberta por cima dos dois e o abraça)
-valeu... tá uma noite bonita, não?
-é... fazia tempo que eu não via tanta estrela no céu assim.
-é, eu também.

(passam alguns minutos, os dois em silêncio)

-vamos lá pra dentro?
-uhum, tá esfriando bastante...

(entram no carro e ligam o som)

-quanto tempo faz?
-o quê?
-desde que a gente viajou juntos pela primeira vez. quando foi?
-ah, acho que a uns 4 anos atrás.
-é... foi tão do nada, nem esperava nada de mais.
-nem eu... mas aí quando ví você lá aquele dia... 'meu coração já sabia'
-é, eu também, foi inevitável... 'o meu também já'
-rá, com esse sorriso aí, como é que eu ia resistir?
-você é muito bestinha... eu tava num momento tão estranho...
-e eu saindo de um buraco, e mesmo assim, deu tudo certo!
-pois é... (troca de música)
-ei, essa é aquela frase que o gui vive citando né, o melhor está por vir!
-é, a gente acredita pra caramba nessa frase...

haikais, #3

cada segundo que se esvai
é um segundo a menos de vida
e um segundo a mais de experiência.

quarta-feira, maio 18, 2011

haikais, #2

já será tarde quando perceber
que o tecido que deslizou por suas mãos
te manteria aquecido neste inverno.

terça-feira, maio 17, 2011

this soundtrack makes me wish you were here

onze horas da noite, e o coração batia suavemente. o frio do lado de fora teimava em querer entrar, e uma fina garoa ia cobrindo aos poucos todos os vidros. e enquanto os postes iam ficando para trás, passando rapidamente como sombras pela janela fechada, ele olhava para o banco do passageiro com um carinho que não estava ali antes. 'i know, it's too late, but wait for me to turn around...'

os outros carros na avenida iam e vinham, alheios à tudo, urgentes na volta para casa. mas a música o empurrava para um lugar onde só havia ele, a melodia e o asfalto. subiu o pontilhão admirando as lâmpadas lá em cima espalhando sua luz alaranjada no concreto. 'i'm coming home, so if you're leaving, walk slow...'

ainda sentindo o perfume flutuando à sua volta, cortou a noite gelada e alguns faróis vermelhos, enquanto outra canção começava a desfilar por seus ouvidos. o carro acelerava sem muito esforço, até que a garoa resolveu virar chuva. o barulho das gotas tamborilando no capô pareciam se misturar ao som que ecoava dentro do carro. 'i'm a thrown fight in your favor, i'll do everything but listen to you now'

a chuva começou a apertar assim que virou a esquina da rua de seu prédio. viu o temporal começar a desabar enquanto entrava na garagem. antes de desligar o carro, esperou aquela última frase terminar de ser cantada. então, subiu as escadas direto para sua cama, e adormeceu enquanto relembrava aquela noite com um carinho que já se tornava familiar.

'there's an end but we don't get to choose
we can only lose
if i cried a river just for you
would you swim in it some sunny afternoon?'

quarta-feira, maio 11, 2011

23 anos no meio fio

mesmo com essa sensação de vazio que me permeia, desde sempre.

é como estar sentado no meio fio, olhando os carros passando na rua, sentido a brisa tocando meu rosto, e como se fosse mágica, o mundo ganha cor, a mente alça vôo e tudo parece mais simples e agradável.

depois de 23 anos, a ficha emperrada no fliperama caiu. simples assim.

boa parte de tudo que eu procurava, eu já tinha achado. a felicidade que buscava incansavelmente eu já tinha, só não tinha percebido ainda.

e mesmo agora, com outro espaço vazio por preencher, não há incerteza sobre onde pisar. meus pilares já estavam erguidos, mas só agora prendi minhas correntes. e com eles, não há medo.

daqui do meio fio, posso vislumbrar o futuro. sei bem que esse salão mais antigo ainda vai demorar muito tempo até que esteja ocupado por inteiro.

mas enquanto isso, vou me atirar em todos os corredores que aparecerem no caminho, sem receio de quebrar as paredes. na verdade, isso é o que eu mais anseio.

a queda, desmedida, sem pensar no chão.