olhe pro céu. pergunte às nuvens se é vontade delas se arrastar tão alto. o que será que elas responderiam se você as perguntasse 'como vai a vida', ou até sendo mais profundo, 'o que você espera da vida'? que tipo de aspirações ou pretensões poderia ter uma nuvem? qual a sua rotina, se não deslizar pelo manto azul, dia após dia? e qual vem a ser a diferença de uma nuvem pra uma pessoa aqui, presa nas correntes do cotidiano? acordar, condução, trabalhar, almoçar, estudar, dormir.
é aí que percebo o quanto errado estou em jogar nas costas do planeta a culpa da velocidade da vida. a culpa é minha. a culpa é nossa. o tempo deu aos homens a chance de esquematizar a vida. nascer, andar, falar, crescer. estudar, trabalhar, casar, procriar. descansar e morrer. necessariamente nessa ordem. e, inconscientes, seguimos a rotina impulsionado o globo que gira cada vez mais rápido. não por vontade própria.
foi escolha nossa, trabalhar e não admirar as montanhas. foi escolha nossa, andar de ônibus ao invés de caminhar sentindo o vento nos nossos rostos. foi escolha nossa, e de todos que vieram antes, seguir ponteiros e não o sol.
foi nossa a escolha de fazer tudo ao mesmo tempo e não sentir o prazer de cada momento. foi nossa a escolha de convivermos virtualmente e não sentir a respiração de nossos amigos, não ver suas expressões em seus olhos e não ouvir a entonação de suas vozes.
foi a continuidade do progresso e a comodidade da sociedade que nos tornou engrenagens programadas. seguimos cronogramas, executamos tarefas, conversamos com os dedos e mandamos cartas binárias. aí me pergunto, e estendo a pergunta a você: onde reside o livre arbítrio? em nossas mentes, em nossos corações, ou nas nuvens?
talvez, exausto de gritar e não ser ouvido por nenhuma das engrenagens, ele já esteja em seu caixão. cansou de ser rejeitado por nós, robôs. e tudo está muito claro. o próximo a cansar e suicidar-se é o próprio planeta. que culpa tem ele se nós o pisamos quando deveríamos carinhosamente tratá-lo. és um enfermo em fim de vida. mas temos a coragem de ainda culpá-lo pelos nossos erros e pelo céu cinzento.
será que somos tão hipócritas ao não ver que a sujeira é criação nossa? que o desequilíbrio é conseqüência de nossas atitudes? ainda sim reclamamos da falta de tempo, da falta de dinheiro, sendo que fomos nós que graduamos os segundos e passamos a viver baseados em suas voltas, e fomos nós também que paramos de trocar e começamos a vender. onde foi parar a vontade, sendo que vivemos sessenta anos de nossas vidas juntando migalhas pra ser feliz por mais três anos, e pensar 'eu vivi da maneira correta' no leito de morte?
a vida teria graça se não tentássemos seguir o mesmo percurso que os livros, a mídia e os homens determinam. as vezes sinto o calor de uma faísca de esperança, no beijo de um amor, na conversa de um amigo, nos acordes de um piano ou até mesmo na beleza das apressadas nuvens. mas logo a realidade me invade. não consigo aceitar que os homens tomam café, apenas para se sentirem dispostos para mais um dia de movimentos decorados, e não pelo prazer de sentir o gosto entrando em suas veias sem pedir licença.
não consigo aceitar a capitalização das notas para encher o bolso de empresários, que enjaulam as cordas e as transformam em lucro. as horas passam, e cada vez mais as deixamos escapar por entre nossos dedos. já diziam os poetas, 'podemos assistir os momentos passarem, ou vê-los como nossos últimos, e abraçá-los por tudo que eles valem'.
por isso largo o teclado, o lápis, a pena, o que quer que seja. vou sair para ver o bucolismo melancólico das solitárias árvores que restam. vou sair para conversar com o que resta da resistência. vou sair para ver o mundo antes que ele ou eu surte definitivamente. vou sair pra fazer valer a pena o que resta de vida em meu espírito.
[ guilherme amato e pedro destro ]
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