preciso parar um pouco pra por a casa em ordem. acho que cheguei no limite do que consigo suportar sobre esperar a vida acontecer.
um dia eu volto.
dançando com um copo de absinto na mão, abraçado, colado, sentindo, é apenas um sonho, mas sonhar com você é tão bom, então pra que acordar?
preciso parar um pouco pra por a casa em ordem. acho que cheguei no limite do que consigo suportar sobre esperar a vida acontecer.
um dia eu volto.
mais uma vez, as coisas começam a ficar difíceis em relação ao mundo. e mais uma vez, tenho que lidar sozinho com a minha filha doente, de longe, de máscara, enquanto eu fico saudável. como foi no ano passado, pra ela é desgastante, além de ficar entediada em casa, sem poder sair muito, vendo outras crianças pela janela, o fato de ficarmos distantes mesmo que perto. com menos abraços, mais alertas e uma estagnação esperando tudo passar.
lembro que ano passado eu só conseguia pensar 'porque não tem ninguém aqui comigo pra me ajudar a passar por isso', e dessa vez é um pouco diferente. eu acho que já acostumei com ter que passar pelas coisas da vida sozinho depois que tudo aconteceu. e eu já sobrevivi a tantos maremotos que eu praticamente já sei respirar debaixo d'água.
não é maldade, já fomos melhores que isso
agora é cada um com seus problemas, cada um por si.
chcl - entre nós
faz um certo tempo que eu cansei de tentar retomar o controle e a organização das diversas caixas que compõe minha vida. as coisas estão seguindo imprevisíveis com tanta mudança, interna e externamente, o que agrava a ansiedade que eu tento enterrar debaixo de acordes e nicotina. eu estou bem cansado de tentar dar conta de tudo, e de me sentir culpado por não conseguir isso.
me sinto pesado por ter tido absolutamente tudo definido e ter perdido esse equilíbrio que me acompanhou por anos. tudo parece indefinido e embaçado. e eu não sei se tenho mais forças pra apertar os olhos buscando enxergar um caminho.
se eu pudesse, abraçava a inércia. mas é preciso seguir pra continuar vivendo.
"não cabemos um no outro, e não nos cabe lamentar". colligere - entre nós
hoje eu revivi alguns acontecimentos dos tempos recentes, e me dei conta de que já faz seis meses do nosso último contato. e quando paro pra pensar, é quase como se você fosse apenas uma memória distante, um vazio com o qual eu nunca vou poder realmente lidar. a gente nunca mais se falou, nem se viu, nem tive notícias suas. é como se você tivesse sido apagada da minha vida e sobrou apenas uma lembrança turva de algo que eu sei que vivi, mas não consigo sentir mais como algo palpável.
eu não consigo mais lembrar direito do seu rosto, do seu sorriso, do seu cheiro e da sua voz. a única coisa que ainda segue viva em mim é seu olhar, que ainda sigo procurando em cada esquina cheia de gente dessa cidade cinza, como se te ver atravessando a rua de longe fosse me trazer algum tipo de fechamento que me foi negado com a maneira que tudo se deu entre eu e você.
entre nós, ficou apenas um espaço, que até hoje não aprendi a preencher.
sabe... eu vejo uma beleza muito melancólica em fumar um cigarro debaixo de chuva olhando pro céu. e como sempre, busco respostas nesses momentos como se estivesse em um diálogo com as luzes, as nuvens e a fumaça. quando foi que eu reencontrei essa vontade de me sentir realmente vivo? e porque ela me escapou entre os dedos por tantas vezes?
me recordei de noites em claro olhando esse mesmo céu de outra janela, me perguntando também porque a sorte tinha me sorrido em definitivo. mas não era pra ser a última vez. mas eu me lembro... lembro como se tivesse sido ontem, da sensação de ter tudo no seu devido lugar, de compartilhar o inteiro de mim sem medos e amarras, e de me jogar ao mar sem me preocupar com ondas e ressacas. eu me lembro...
os contornos dessa embarcação começam a se fazer enxergar. há correntes e mais correntes que levam a tantos destinos possíveis, que sou capaz de perder a conta. mas não há caminho finito onde eu não me sinta enraizado. agora resta descobrir o quão fundo é possível plantar meus pés pra que minha essência possa reflorescer em um novo chão.
i'm dead tired of these lonely
cold nights in the pouring rain
i clear ground and i pay it off
and nobody can say there is another way
the weeds still got such a long way to grow...
essas últimas semanas vinham sendo bem intensas, com doses cavalares de trabalho, álcool, viagens, ansiedade, pessoas e cigarros. depois dessa (des)carga emocional toda, tirei uns dias pra por a cabeça e o coração no lugar. e achei que tinha encontrado algumas respostas olhando pro céu da minha cidade natal, enquanto sentia o vento quente de uma tarde de sábado chicotear o quintal. eu, que sempre busquei a intensidade, nos últimos tempos prezei demais pela estabilidade, e os baques da vida fizeram com que as coisas fossem mais racionais, tornando a intensidade algo a ser temido. e olhando o sol se por, tão longe de casa, comecei a traçar planos, cenários, e encontrei um pouco de ordem em tudo que estava acontecendo. entendi também que haviam caminhos mais difíceis, outros inviáveis, e uma ânsia por viver que talvez não fosse a intensidade que eu gostaria de ter. resolvi me resguardar, certo de que isso me traria mais conforto. respirei fundo, encarei a velha ladeira que eu descia correndo na minha infância, e segui caminhando.
e agora, quando tudo parecia começar a tomar um contorno mais claro, quando o turbilhão em minha cabeça estava começando a cessar, as coisas tomaram outro rumo, e tudo pareceu girar pra longe do meu controle, enquanto eu tento juntar as peças de uma noite em que eu torci pra tudo dar errado, mas tudo acabou dando muito certo. e hoje, o olhar se esforça pra ter algum foco, enquanto a mente luta pra concatenar significados, olhares e sensações. mas acima de tudo, fica o gosto da surpresa.
porque às vezes, a gente encontra a intensidade procurada onde menos espera.
noite passada eu terminei de assistir novamente uma série que sempre me foi querida demais, sempre mexeu comigo e sempre me lembrou a gente. eu lembro de assistir quando era mais novo, e pensar que um dia eu encontraria a 'the one'. me via como o personagem, numa busca eterna pela felicidade com as pessoas erradas, até que um dia eu iria encerrar essa jornada e ficar em paz pra sempre. e eu acho que encontrei isso, mas o destino quis que o final fosse diferente.
e ontem, me peguei pensando em uma frase que ouvi de uma das personagens, de que ela tirou o bilhete premiado logo de cara e que parou de comprar bilhetes porque sabe que não vai dar essa sorte de novo. eu vivi esse último ano e meio preso nessa ideia de que era o fim do amor pra mim. eu ainda acho que nunca vou dar a sorte que dei, de te cruzar no trabalho, ficarmos tão próximos e depois viver 3 anos tão intensos como foram. e sobre essa parte, eu realmente já estou em paz com isso. eu consegui ressignificar o suficiente pra que minha vida possa seguir tranquilamente daquele ponto em diante, ciente de que outros momentos e outras pessoas vão eventualmente fazer parte da minha vida.
porém, não dá pra desligar o carinho e com ele, a preocupação que tenho contigo. sigo desejando sua felicidade acima de tudo, porque pra mim, esse continua sendo o significa do meu amor.
portanto quero que saiba que você tem alguém que pro resto da vida vai querer teu bem, onde quer que você esteja.
sentado na beira da piscina de um hotel em brasília, fumando um cigarro, quase meia noite, eu me peguei pensando nesses últimos dois anos. quantas vidas deu pra viver nesse tempo? quantas reviravoltas surpreendentes, pro bem ou pro mal, couberam nesse curto espaço de tempo? tanta coisa que o guilherme da virada de doismilevinte pra doismilevinteum nunca poderia prever.
o coração finalmente encontrou algo que pode ser chamado de paz, apesar de seguir com espaço, e mesmo que aquele mar de sentimentos ainda persista, hoje é pura calmaria. tantas crises se passaram que hoje eu chamo minha ansiedade pelo nome, e aprendi a controlá-la, mesmo isso quase tendo me custado a sanidade. a saudade passou, a feira passou, e aquele fim onde tudo acaba bem ganhou novos contornos. ele ainda não chegou, mas creio que mesmo que tarde, ele não vai falhar.
e eu finalmente aprendi a apreciar os caminhos que levam até ele. hoje, durmo sereno.
essa varanda já não aguenta mais
minhas noites em claro
revivendo nós dois
entre cada cigarro
o olhar perdido
nos prédios ao redor
me traz o amargo
do que já não faz sentido
sempre achei
estranho demais
as pessoas que se
cansam de tentar
mas você me provou
que até eu posso mudar
sei que foi assim
como deveria ser
com toda a intensidade
que cabia
mas você preferiu ouvir
o ruído da incerteza
e nessa bagunça
não tem mais lugar pra mim
sempre achei
distantes demais
as histórias que
parecem se apagar
mas você me provou
que estar longe é só
um ponto de vista
vou ligar o carro
e dirigir por aí
sem te procurar no meio
da multidão
mais um cigarro
mais uma música
essa canção já
não me lembra tanto você
como um dia já lembrou
águas passadas que voltam a correr.
retratos antigos se transformando em movimento.
as notas abafadas soavam como um convite, enquanto o mundo se silenciava ao meu redor.
momentos sobrepondo o rubro entardecer, onde já não há tanta neblina pra ofuscar a visão.
um doce perfume pairava no ar, e tão logo surgiu, se desfez em silêncio.
sobraram apenas os cabelos ao vento e um conforto familiar.
ontem foi mais um daqueles dias. um domingo muito feliz, um festival, tanta gente conhecida, e faltava seu rosto ali. fiquei apreensivo pensando que você poderia aparecer, e eu não saberia como agir, e no fim, fiquei me sentindo vazio por mais uma vez, sentir que há uma força maior nos afastando.
e durante todo o dia, me peguei pensando que era mais um daqueles momentos que foram ótimos, mas não foram perfeitos porque não vivi eles com você. essa sensação recorrente de que falta algo, que tem me acompanhado por meses a fio, que quase não me incomoda mais, apesar de sempre percebê-la. sei que sou um inteiro, mas sinto que era pra gente ser dois, e esses inteiros perderam sua outra metade.
semana passada eu toquei pela primeira vez (e possivelmente a última) a versão acústica da música que fiz pra você. um pouco antes tinha começado a chover, e bem nessa hora, parou de vez, e enquanto eu tocava eu fiquei imaginando você aparecendo do nada, como um final feliz de uma comédia romântica, cantando os últimos versos enquanto a gente cruzava o olhar depois de tanto tempo. mas não aconteceu, parece que não vai acontecer, e eu tenho lutado cada vez mais forte pra aceitar isso. fico me perguntando se essa sensação vai se manter quando a gente começar a tocar essa música com banda, depois de lançar o disco.
eu nunca mais consegui ouvir a música sozinho em casa. não consigo imaginar como vou me sentir ao ouvir um coro de cinquenta, cem pessoas, cantando com toda força sobre oceanos de paz. vai ser difícil.
enquanto isso, sigo navegando pela tempestade.
se esse for o final, um finito do que pode ser
gastando o meu tempo encerrando o caos
por alguém que partiu, simplesmente escolheu seguir
encerrando o seu tempo retornando pro caos
um minuto e muda, depois não importa
o que passou já foi, não tem mais volta
e o que sobrou pra mim... essa saudade
metade de mim - a saudade
hoje eu revivi alguns momentos do passado, onde uma pessoa próxima estava afundando em fugas por não conseguir lidar com a vida. nessa época eu me orgulhava de encarar a vida sóbrio, não importa o quão difícil fosse. até que vieram os antidepressivos, que me tiraram do buraco mas fecharam a escada dos andares superiores, tornando a vida um grande salão de espera.
hoje, me vejo tomando calmantes (fitoterápicos, diga-se de passagem), tomando cerveja toda semana, porque a pressão é tanta que o pouco de lazer que consigo encaixar na vida corrida, seja música, jogos, amigos ou rolês com a minha filha, não tem sido o suficiente pra evitar que eu surte. a ansiedade tem sido tanta que pela primeira vez em muitos anos, eu não consegui dormir por dias seguidos pensando em problemas no trabalho. e isso tem sido cada vez mais frequente.
sigo com o coração em manutenção, sigo com o emprego me enlouquecendo, sigo com o sono atrasado, sigo desejando que a música voltasse à frequência que foi em outros tempos, e sigo com a sensação de que a vida tem passado rápido demais.
o tempo entre ninar uma recém-nascida no peito e ouvir 'pai, meu dente tá mole' parece muito menor do que esses 6 anos que voaram. os três anos de relacionamento que parecem que acabaram ontem já me deixaram faz mais de um ano, e a pandemia que era pra durar alguns meses hoje já fez seu segundo aniversário, e segue imperceptível na rotina corrida. o medo se foi com a vacina, mas a vida segue estranha, como se a gente tivesse saído há poucos dias de 2019. queria muito saber onde esse tempo foi parar...
às vezes não admitimos
mas a vida humana é fuga
a procura eterna pela paz
engolida pela engrenagem da tristeza
como alguém pode julgar outra pessoa?
da sua fuga
para a minha
só muda a bula
angvstia - in droga we trust
dois dias seguidos sonhando com pedidos de ajuda. você só me olhava, com cara de choro, e pedia ajuda. pedia pra te tirar de onde você se encontrava. era um lugar escuro, vazio, estranho. pesado. você estava com a mesma expressão de quando desabava após um dia caótico no trabalho, enquanto o chuveiro limpava as lágrimas, apoiada no meu peito até se acalmar. aqueles dias incertos, onde a vida parecia estar restrita às nossas quatro paredes, e todo o inferno estava contido em uma tela.
acordei suando, olhando pros cantos meio perdido, com o peito apertado, como se eu tivesse deixado escapar uma chance de te alcançar. a angústia tomou conta desde então, e eu sigo aqui, ainda meio perdido, ainda meio mexido, e ainda meio angustiado.
be well, wherever you are.
essa semana resolvi derrubar algumas paredes que ergui tentando me defender, tentando me blindar, tentando esquecer. e não me surpreende ver que por trás delas, tem muros erguidos do outro lado também. mas talvez ainda leve um tempo até que eles comecem a desmontar. deixo ao universo a decisão, caso queira, de abrir os caminhos.
em paralelo, contando pra uma colega sobre o porquê da minha atual melancolia, revisando toda a história, ela começou a chorar e declarou torcida pra que haja um acerto. é incrível ver como o amor tem o poder de comover até quem não o vivenciou. e logo depois disso, pessoas que nos conheceram juntos disseram que éramos perfeitos um pro outro e era uma pena essa distância.
sabe, não é fácil normalizar essa dualidade. sentir a presença do amor ao mesmo tempo que sinto a sua falta. mas já foi mais difícil. e eu sigo torcendo pelo acaso dar as caras e nos empurrar de encontro um ao outro pra que possamos nos reconectar. um dia, quem sabe. ou não. o importante é que tudo vive em mim, e de um jeito ou de outro, ainda que doa, me mantém vivo. e essa semana lembrei da nossa série, daquele episódio da ligação telefônica. 'sabe de uma coisa? holly, você está errada. eu lembro de cada segundo de nós dois'. acho que não sou mais capaz de assistir isso sem desabar em lágrimas. aliás, ultimamente, tem muita coisa me fazendo ficar emotivo. dias angustiantes. dias que passam rápido demais. e dias que demoram a passar.
e essa foi mais uma semana onde as músicas falaram por mim.
e a vida segue pra mim
afinal, as contas vão chegar
e o meu endereço elas sabem de cor
e você também deve saber
talvez resolva aparecer
e se eu disser que não dói tanto assim
saber que já não sou o motivo pra te fazer sorrir
nem quem segura a sua mão quando já não é preciso
dizer que eu não entendo você.
imagine então se nada mais pudesse nos prender
eu de fato conseguisse
enfim viver como deveria ser
me peguei pensando em como essa cidade é grande, mas ao mesmo tempo tão pequena. e com tantos encontros improváveis, me pergunto frequentemente como a gente ainda não se cruzou por acaso nesse ano e meio. tantas possibilidades, amigos em comum, shows que com certeza ambos poderiam estar presentes, e até hoje, nada. parece que o tempo resolveu se dar o luxo de adiar o acaso. ontem foi mais um desses dias, onde dentre tantos rostos familiares, o seu poderia estar ali. mas mais uma vez, me restou esperar. mais uma vez, me restou sentir sozinho o peso da ausência, aprofundado pelas palavras de uma música que já foi nossa. e eu fico me perguntando quando o acaso vai fazer o melhor por nós dois. depois da enchente, sigo transbordando.
notas e mais notas.
terapias e mais terapias.
crises e mais crises.
mas sem ter muito do que reclamar.
eu cresço, certo? me reforço.
uma carapaça calejada.
um corpo anestesiado por partes.
só lembranças que ficam de dias pesados.
os dias leves, guardo e acolho.
doeu? ainda dói. mas é suportável.
e tem vezes que nem lembro o que é dor.
hoje até digo: chega a parecer vitória.
contar as cicatrizes e ver nelas a força.
contar as batalhas e sentir a conquista.
contar os dias e não contar as saudades.
chega a parecer vitória.
mas isso sou só eu.
aprendendo a lidar e a sentir.
aprendendo o que é o sentir.
aprendendo a reaprender.
leva um tempo pra entender o que realmente sentimos. mas a partir daí, tudo fica mais simples de lidar. não necessariamente mais fácil, mas definitivamente mais compreensível.
hoje, eu busco a leveza.
porque não existe mergulho profundo sem intensidade, e essa profundidade já não comporta mais outras companhias. nesses últimos tempos, aliás, a intensidade tem se manifestado por meio das lembranças, cada vez mais fortes, e apesar disso, tem sido cada vez mais fácil aceitar essa enxurrada quando ela transborda.
eu permito, sinto, e deixo passar. e aos poucos esse processo tem me fortalecido cada vez mais. sei que é algo que não vai passar, mas lidar com a grandeza de tudo pode ser cada vez mais suave.
eu juro que tentei.
tentei esquecer, tentei te enxergar com cores desagradáveis, tentei seguir, tentei me abrir, tentei permitir. tentei ter raiva, tentei mesmo.
mas a verdade é que não existe mais caminho pro amor depois de você.
eu me esforcei pra não ligar, mas é impossível não sentir que falta algo. e se sinto falta de alguém pra compartilhar a vida, é porque com você eu vi o quanto isso pode ser maravilhoso. ainda que sinta que tenha encontrado completude em mim mesmo, segui por meses me esquivando dos afetos e focando totalmente em outras coisas. na música, nos amigos, na família e no trabalho. mas é inevitável, conforme a vida segue, ser exposto a pessoas, intenções, situações, encontrar oportunidades, e enxergar algum conforto, ainda que temporariamente, em outras pessoas. e por vezes acreditei que de alguma forma, ao fazer isso, estava virando a página e seguindo em frente.
mas não importa o quão incrível sejam as outras pessoas, elas não são você.
e eventualmente, o fato delas não serem você se torna um defeito maior do que qualquer qualidade, e isso acaba pesando cada vez mais até que simplesmente não dê certo. seja bloqueando interações logo no início, seja escancarando pequenas coisas que em outras situações talvez demorassem pra se tornarem uma questão, ou pior, na ausência de qualquer desculpa pra fugir, simplesmente me impedindo de sentir qualquer envolvimento profundo.
mas pra perceber isso, tive que tentar me entender. não importa o quão assustador fosse.
hoje, depois de tanta terapia, tanto desabafo, tanto mergulho em mim mesmo, entendi que meu peito está ocupado, e vai ficar assim. na minha última sessão, inclusive, falamos sobre como algumas pessoas ocupam o primeiro lugar no nosso coração, e uma vez ali, nunca mais saem, e outras pessoas podem vir a ser o segundo, terceiro, quarto lugar, e trazer sentimentos grandes e importantes pra gente. e que a pessoa que ocupa o primeiro lugar, por mais que seja a maior de todas, nem sempre é a pessoa com quem estamos ou vamos ficar. que é uma honra, tanto pra gente quanto pra quem ocupa esse espaço, ter compartilhado algo tão importante a ponto de marcar a vida mais do que qualquer outro.
mas como chamar de amor qualquer coisa que veio depois de você?
e aí me pego pensando que talvez não tenha sido uma idealização, afinal. acho que vou mesmo te amar pra sempre. ainda mais com esse sentimento estando tão vivo dentro de mim nos últimos dias, por incrível que pareça, motivado por um disco novo que conheci e me impactou demais, e que toda vez que ouço, me lembra você, me lembra a gente, e me dá uma vontade enorme de te enviar. evitei tanto ouvir as músicas que me traziam você, pra no fim, até bandas novas me lembrarem de tudo.
e talvez, só me sobrem mesmo os segundos, terceiros e quartos lugares mesmo. talvez só me resta viver afetos rasos. eu não sei o que o futuro me reserva, mas tenho claro pra mim de que há lugares dentro de mim onde ninguém mais vai residir. e acho que a cada dia que passa, sigo mais em paz com isso, mesmo pensando em você direto nesses últimos tempos.
e no fim, me resta caminhar. tudo é movimento, mesmo, e ninguém morre de amor. mas nesses últimos dias eu comprovei que realmente, tem amores que nunca morrem. e eu sigo sem forças pra fazer qualquer coisa, porque tudo que eu poderia fazer eu já fiz. só resta assistir o sol nascer e dizer novamente 'até logo'.
cash out
i saw you on the way down
floating so slow
from the mess that i’ve found
and i keep holding out
for sidewalks to wrap around
and get me back to where i started
nothing’s the same
i made it that way
i was far out
now every sunrise
is like saying goodbye
it’s this one i’m counting on
to say hello
somerset thrower - say hello
tudo é movimento. o caminhar pra longe do que não nos cabe mais é uma jornada árdua, mas que aos poucos ganha contorno de passeio. 'não deveria doer', eu disse a mim mesmo tantas vezes, 'não deveria doer'. e não dói. porque essa dor, que não é física, existe somente no nosso inconsciente, não é real a menos que a gente queira. e eu sei o quanto eu quis essa dor, numa tentativa fútil de me agarrar ao que não me pertencia mais, por medo, por receio, por apego... a dor era tudo que me restava pra chamar de meu, de nosso. não havia mais cartas, fotos, memórias vivas, músicas pra dedicar, mãos pra segurar, somente a dor da ausência, que por mais que doesse, ainda era algo seu em mim. mas a dor da ausência não é real, mesmo que a gente diga que sim, mesmo que a gente deseje. porque uma vez que você foi embora, não cabia mais em mim, nem você, nem seu cheiro, nem sua voz, nem sua tristeza, nem sua falta. nada disso existia mais, por mais que eu quisesse e me agarrasse a esse fio como se estivesse pendurado em um precipício. mas nem o precipício era real, nem a queda me mataria. não me matou, afinal. cá estou, andando sozinho por novos ladrilhos, estes ainda inteiros. e ando, ando, porque tudo é movimento.
passos gigantes pra caminhos pequenos
curtos demais pra chegar em algum lugar
percebo o vento soprando enquanto passo
por árvores sem rosto e buracos na estrada
tudo rápido demais pra eu me dar conta.
em cada canto, uma nova placa
em cada placa, um novo destino
e a cada rota, o mesmo receio,
acompanhados pelas solas gastas
e os cadarços imundos.
a vida há de curar o que o tempo não fecha
pois não há amargura que não se possa esquecer
e onde há calma, há segurança
de que há dias melhores na próxima curva.
o cansaço há de ceder;
a dor há de cessar;
e a falta há de passar.