eu me lembro bem de praticamente tudo que vivi e cada pedaço de mim que deixei pelos cantos, com uma mistura de confiança, consideração e carinho. eu sempre tentei fazer tudo da maneira mais sincera e intensa que me era permitida, e sempre colhi bons frutos desse jeito de lidar com tudo, sem medo de me quebrar, sem medo de me entregar, vivendo mil dias por ano. sempre foi minha essência, e moldou demais tudo que posso reconhecer que sou hoje em dia, mesmo com tantas páginas em branco por ter escrito um livro rápido demais.
mas hoje eu parei pra me perguntar, 'e se eu tivesse feito diferente?', e junto com essa pergunta, mais outras mil vieram. 'e se eu tivesse dormido direito esses anos todos?', 'e se eu tivesse sido mais reservado?', 'e se eu tivesse me preocupado mais?', 'e se eu tivesse me levado mais a sério?', 'e se eu tivesse deixado meus sonhos de lado pra viver algo mais estável?', entre tantas outras, e no fundo a pergunta principal que norteia todas elas era 'e se eu tivesse feito diferente, será que eu estaria onde estou hoje?'. e por alguns segundos, me senti em uma moldura vazia, procurando por tinta onde eu sei que não há nada.
sei que é uma perda de tempo me preocupar com o que poderia ter sido e não foi, ou não deveria ter sido e foi assim mesmo, mas hoje em especial essa pergunta reverbera forte no meu peito confuso, com uma leve sensação de que haviam caminhos mais seguros pra trilhar, tardes menos frias pra assistir, e mesmo ciente de que não há pra mim um jeito diferente de ser que não seja a 300km por hora, poderia ter sido um passeio devagar, prestando mais atenção em todas as árvores que passaram como um borrão pela minha janela.
quarta-feira, abril 29, 2015
terça-feira, abril 28, 2015
um espaço
a noite já tinha caído lá fora, e eu me via sentado no sofá olhando pela janela, segurando uma lata de chá preto que pingava o suor de um dia todo de promessas e bagunças que insistia em não acabar.
era cada vez mais complicado preencher a casa inteira com música sem que ruídos estranhos se infiltrassem como se cantarolassem junto a notas conhecidas, e de tanto ouvir zumbidos ao longo da vida eu já tinha me acostumado a separar as notas dos uivos, e de tanto olhar pela janela, a chuva começou forte e certeira, me fazendo cerrar as cortinas e andar pelos corredores, que se esticavam como daquela vez em que o apito extrapolou seus limites e a casa se tornou um labirinto.
e agora eu corria até o quarto, com a esperança ingênua de fechar a porta e esquecer a chuva, mas quanto mais eu corria, mais longe eu estava, e mais cansado ficava, até o ponto em que novamente, como se fosse a reprise de um filme na madrugada, senti que o tempo congelava, e vi as gotas flutuando no ar do lado de fora de outra janela, enquanto as cortinas permaneciam esvoaçadas em uma dança estática, suspensas como se aguardassem a hora certa de se rasgar, e vi riscados no céu relâmpagos rubros que me fixavam os olhos.
e eu sentei no chão, apenas esperando algo que nunca chegava, esperando o zumbido cessar, esperando a chuva passar, esperando o dia acabar, apenas esperando.
era cada vez mais complicado preencher a casa inteira com música sem que ruídos estranhos se infiltrassem como se cantarolassem junto a notas conhecidas, e de tanto ouvir zumbidos ao longo da vida eu já tinha me acostumado a separar as notas dos uivos, e de tanto olhar pela janela, a chuva começou forte e certeira, me fazendo cerrar as cortinas e andar pelos corredores, que se esticavam como daquela vez em que o apito extrapolou seus limites e a casa se tornou um labirinto.
e agora eu corria até o quarto, com a esperança ingênua de fechar a porta e esquecer a chuva, mas quanto mais eu corria, mais longe eu estava, e mais cansado ficava, até o ponto em que novamente, como se fosse a reprise de um filme na madrugada, senti que o tempo congelava, e vi as gotas flutuando no ar do lado de fora de outra janela, enquanto as cortinas permaneciam esvoaçadas em uma dança estática, suspensas como se aguardassem a hora certa de se rasgar, e vi riscados no céu relâmpagos rubros que me fixavam os olhos.
e eu sentei no chão, apenas esperando algo que nunca chegava, esperando o zumbido cessar, esperando a chuva passar, esperando o dia acabar, apenas esperando.
segunda-feira, abril 27, 2015
tossing seeds
sentia-se uma criança presa em um jardim privativo, rodeado de árvores altas e vistosas por todos os lados. passara a vida jogando sementes pro alto, na esperança de que os galhos rompessem os limites invisíveis e alcançassem uma saída daquele paraíso imaculado. orquídeas, rosas, lírios, todas as cores abraçavam seus pés em uma calmaria sem fim, onde muitas copas riscavam a vista rumo ao céu nublado, enquanto ele andava, e andava, e andava. por vezes chovia, e ainda que algumas vezes a vontade de dançar na chuva se manifestasse como na infância, um grande carvalho era seu abrigo costumeiro, e ele já havia perdido as contas de quantas vezes adormecera sob sua proteção.
naquele dia fechado não foi diferente, e a tempestade constante que se abatera molhara seu corpo por inteiro enquanto lançava as últimas sementes antes de procurar refúgio. mas dessa vez, acordou com a chuva leve batendo no rosto. o carvalho se fora, dizimado por uma trovoada impiedosa que levara consigo a maioria das árvores do jardim, que ao invés de um teto de folhas agora descansava sobre uma garoa de cinzas.
e para ele, que não encontrou mais sementes nem motivos, só restou andar.
naquele dia fechado não foi diferente, e a tempestade constante que se abatera molhara seu corpo por inteiro enquanto lançava as últimas sementes antes de procurar refúgio. mas dessa vez, acordou com a chuva leve batendo no rosto. o carvalho se fora, dizimado por uma trovoada impiedosa que levara consigo a maioria das árvores do jardim, que ao invés de um teto de folhas agora descansava sobre uma garoa de cinzas.
e para ele, que não encontrou mais sementes nem motivos, só restou andar.
sexta-feira, abril 24, 2015
outra valsa, pt. iii
a fumaça cegava e sufocava
e eu, encolhido ao pé da escada
tossia e suava assistindo as brasas
não me lembrava do incêndio
nem do dia que as chamas começaram
revisava meus infernos, recordava insucessos
mas de nada adiantava, sentado aqui tão longe
ao passo que tudo se aproximava,
me agarrava em cortinas perdidas
e me atirava um pouco mais ao alto
e nesse meio tempo, largado ao pé da escada
mal conseguia entender o porquê da vontade
que me fez correr tanto, tanta ansiedade
pra acabar com a garganta cheia de cinzas
não me reconhecia ao cruzar janelas
que mostravam um brilho estranho nos olhos...
... que não era nada além do fogo refletido.
e eu, encolhido ao pé da escada
tossia e suava assistindo as brasas
não me lembrava do incêndio
nem do dia que as chamas começaram
revisava meus infernos, recordava insucessos
mas de nada adiantava, sentado aqui tão longe
ao passo que tudo se aproximava,
me agarrava em cortinas perdidas
e me atirava um pouco mais ao alto
e nesse meio tempo, largado ao pé da escada
mal conseguia entender o porquê da vontade
que me fez correr tanto, tanta ansiedade
pra acabar com a garganta cheia de cinzas
não me reconhecia ao cruzar janelas
que mostravam um brilho estranho nos olhos...
... que não era nada além do fogo refletido.
quarta-feira, abril 22, 2015
outra valsa, pt. ii
a vista do andar mais alto
que já arrisquei colocar meus pés
ofuscava muito do horizonte
sem saber quanto mais restava
pra subir, pra viver, pra sangrar
não conseguia pensar, apenas
subia e subia, cada vez mais
os passos eram penosos
cada um trazia um espinho
que parecia fincado no peito
a torre tremia, poeira dançava
solta em um baile desenfreado
refletindo minha própria bagunça
muitas vezes achei que cairia
e tantas outras cansei de tanto esforço
mas não desisto de me arrebentar tentando.
que já arrisquei colocar meus pés
ofuscava muito do horizonte
sem saber quanto mais restava
pra subir, pra viver, pra sangrar
não conseguia pensar, apenas
subia e subia, cada vez mais
os passos eram penosos
cada um trazia um espinho
que parecia fincado no peito
a torre tremia, poeira dançava
solta em um baile desenfreado
refletindo minha própria bagunça
muitas vezes achei que cairia
e tantas outras cansei de tanto esforço
mas não desisto de me arrebentar tentando.
quinta-feira, abril 16, 2015
sentindo, sentido
foi sobre acordar antes do despertador tocar. e ficar olhando os minutos passando, ouvindo os carros lá embaixo já ganhando pressa com o virar do ponteiro. este teto fica em silêncio frente a tantas indagações, diferente do último, que mais parecia o espírito zombeteiro pendurado no ombro, sempre contundente.
perguntei, perguntei, mas não houve resposta. só um zumbido quase mudo, que se não fosse interrompido pelo despertador tocando, teria me deixado surdo.
mais um dia, e mais um banho gelado pra acalmar os anseios.
segunda-feira, abril 13, 2015
outra valsa, pt. i
há tanto tempo as notas soam
desajeitadas mas tão sinceras
que grito, acompanhando o som
urgente, de longe, apenas
mais um dentre tantas vozes
inquieto, porém, por acreditar
em sonhos antigos de alcançar o céu
sempre flutuei o mais alto que pude
dando de cara com tetos de nuvens
que com afinco consegui transpor
e por tantas vezes me vi cercado
de sorrisos e mãos estendidas
de abraços mais do que sinceros
que aos poucos cansaram de voar
ainda há quilômetros de nuvem acima
mesmo tremendo, há tanta vontade, e...
daqui de cima tudo parece tão pequeno...
desajeitadas mas tão sinceras
que grito, acompanhando o som
urgente, de longe, apenas
mais um dentre tantas vozes
inquieto, porém, por acreditar
em sonhos antigos de alcançar o céu
sempre flutuei o mais alto que pude
dando de cara com tetos de nuvens
que com afinco consegui transpor
e por tantas vezes me vi cercado
de sorrisos e mãos estendidas
de abraços mais do que sinceros
que aos poucos cansaram de voar
ainda há quilômetros de nuvem acima
mesmo tremendo, há tanta vontade, e...
daqui de cima tudo parece tão pequeno...