só sei que o jazz penetrava meus ouvidos solene, indecente, excitante. imprevisível. todos os pássaros do mundo pareciam se calar ao som do piano, e o trompete, ah, o trompete... tão doce, tão carente. tão único...
as pessoas já iam se retirando do salão, após horas e horas dançando contagiantemente. uns poucos copos de whisky, acompanhados de existências solitárias restavam pelo salão, e curiosamente, uma garota permanecia em transe no meio da pista de dança, bombardeada sucessivamente com euforia a cada compasso desferido pela percussão, tão devoradora, e ao mesmo tempo, tão indiferente... apenas pulsava, flertava.
já na terceira dose de conhaque, uma das últimas almas ali presente levantou o olhar embaçado e admirou aquela que sozinha dançava à melodia incessante. deixou então o vidro na companhia do gelo e se atirou em direção ao centro do salão, de encontro com o destino.
eis que se abraçaram. daquele momento em diante, nada mais existia. nada mais nem precisava existir. o quinteto já não mais tocava, mas a música se repetia em seus corações. juntos, eles eram um só, rodando ao som do sax. o salão agora era infinito, sem paredes nem lustres, apenas um espaço púrpura onde duas essências se misturavam.
o bebop durou uma eternidade dentro daqueles cinco minutos.
e tão subitamente quanto veio, o sentimento se esvaiu. as paredes voltaram violentamente a limitar o horizonte, enquanto ele pagava sua quarta dose antes de partir.
deixava para trás uma garota em seu silêncio.
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