segunda-feira, janeiro 29, 2018

dezoito, pt. III

olhei pela janela e vi a chuva se aproximando. raios riscavam os céus e iluminavam a sala, agora só com a tela do computador à vista. me perguntava como havia voltado no tempo sem sair do sofá, enquanto meus braços sentiam todos os anos que haviam passado em silêncio. havia uma tensão no ar, quase visível, que me arrastava pra perto enquanto me afastava da realidade, e não houve saída, não houve alternativa. o som ecoava pelas paredes vazias, mas não havia nada a ser ouvido, apenas sentir de novo o cheiro de chuva como se não fosse outra década, outro tempo, outra vida.

sexta-feira, janeiro 19, 2018

dezoito, pt. II

com o coração apertado, encarei a prateleira cheia de livros mas não conseguia distinguir nenhum título. as lágrimas foram embora tão rápido quanto elas vieram, e o sono já começava a distorcer meus pensamentos ao ponto de eu mal ter conseguido entrar no chuveiro, desviando o olhar ao passar pelo espelho com medo de me encarar. a água anestesiava meu corpo mas não alcançava minha alma, que inquieta não me deixava concentrar em nada. não sei bem quanto tempo fiquei ali, olhando para os azulejos. lá fora amanhecia, e ao me arrastar para a cama, vi alguém parado no corredor, distante, olhando os livros, tentando distinguir os títulos.

fechei a porta do banheiro atrás de nós dois, e enquanto a manhã me carregava pra um falso descanso, deixei meu caos se encarando no espelho, cada vez mais difuso, cada vez mais disforme, mas cada vez mais definitivo.

segunda-feira, janeiro 15, 2018

dezoito, pt. I

algo me dizia que seria um ano diferente. ouvi de longe os fogos de artifício queimando no horizonte da cidade toda enquanto olhava ao redor. amigos presentes, abraços, e meus olhos cansados encarando uma outra pessoa no reflexo de uma janela, alguém que eu havia me tornado de maneira traumaticamente abrupta, porém ainda sim alguém. quinze pras três, e saí cantando pneus em uma são paulo completamente vazia, de vidros abertos e som no máximo. gritei, gritei e gritei, mas não me encontrei. não completamente. eu ainda era só cacos, poeira e azedo, apesar de um pouco menos disperso agora que já me acostumava com a ideia de que deixei algo além de mim mesmo pra trás naquela virada de ano, de hora, de minuto, de vida.

deixei pra trás o medo de viver.