segunda-feira, setembro 24, 2007

crônicas da cidade, volume I

meio dia e meio novamente. os olhos cansados fitavam o relógio no canto da tela, e os carros passavam barulhentos na transitada rua lá embaixo.
-vou almoçar - disse, e saiu em seguida. ouviu a porta sendo trancada e cambaleou rumo ao elevador. os prédios que se viam pela janela, tão convidativos... 'venha tomar um chá no meu terraço qualquer dia, rapaz', imaginava. a cidade, imensa, cheia de arranha-céus e poeira no ar, parecia mesmo chamá-lo para fugir, e adentrar uma selva de concreto sem se preocupar com muita coisa. era seu costumeiro delírio frente à rotina. eram apenas os dias passando.

entrou no elevador, apertou o térreo, e pelo espelho viu pessoas despreocupadas, descontraídas, como se a rotina lhes fizesse bem. pudera, eram pessoas normais, vivendo suas vidas. ele ficava se perguntando, 'será que sou tão estranho assim, por achar minha rotina uma prisão?', sem perceber que o elevador já estava no térreo faziam dois minutos.
-garoto, tá parado aí porque? - questionava o segurança. de cabeça baixa, rodou a catraca e saiu em direção a rua. 'pra que?', se perguntava, 'pra que raios eu tou fazendo isso?'. essa pergunta ecoava imaginariamente por entre as galerias finas. o ar condensado saia de sua boca apressadamente. os minutos escorriam pelos ponteiros. já era quase uma hora da tarde.
-vê o de sempre, por favor.
-é pra já, jovem. - e com a resposta, vinha o prato da mesma comida consumida dia após dia após dia após dia. a comida descia como pedra, dilacerando a garganta seca. uma e quinze, subia a rua vagarosamente. uma e vinte, e fitava o elevador, sem vontade nenhuma de subir. 'queria finais de semana eternos', reclamava mentalmente. passou as horas seguintes maquinalmente, e durante esse tempo se sentia sem vida. eram apenas os dias passando.

seis e quinze, subia novamente a rua, olhando pro céu. a lua havia resolvido dar as caras em meio à tanta fumaça. começava a se sentir mais leve. girou outra catraca, e embarcou no penúltimo vagão. dormiu serenamente, largado. acordou num ressalto, duas estações depois da sua parada. saltou para dentro de um ônibus qualquer. 'como queria o final de semana mais perto... ah, como queria!', pensou antes de adormecer novamente. saltou, e ao girar a chave, um súbito conforto. deitou-se na cama, puxou o telefone e discou calmamente. olhou para o relógio de cabeceira, que marcava nove e meia.

começou a rir. e do outro lado da linha, uma pergunta.
-nada. são apenas os dias passando.

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