quinta-feira, dezembro 06, 2007

os vasos, os olhos e a chuva

os vasos quebrados, sujos de terra, o azulejo terracota manchado, e a água que saía da mangueira escorria pelo ralo. de cima, só se via um quintal vazio. ele respirava profundamente, e da laje via os prédios bem ao fundo, afugentados pelo mar de árvores que se fechava à sua volta. pensava ter descoberto um canto de paraíso só para ele, bucolicamente desenhado com tijolos e cimento. o filho do vizinho, um garotinho de 3 anos de idade, olhava assustado pela janela, murmurava algo ao ver aquele rapaz em pé alí tomando a chuva e admirando o horizonte. não conseguia compreender, pois sua consciência assimilava a chuva como algo de que se devia correr. no quintal, seu cachorro comia as flores que haviam caído do vaso, e ao ver seu dono se aproximar da borda, começou a latir, mesmo sem saber direito o porquê. apenas pressentia. ele, lá de cima, não tirava os olhos dos prédios, como se eles o chamassem. sentia frio, mas não se importava. sua roupa molhada parecia não ter peso. sentia-se nu, sentindo intensamente cada gota, cada brisa. as nuvens, ao longe, escondiam o sol, egoístas. começou a sussurrar palavras mágicas, freneticamente. abriu os braços e gritou o mais alto que pode. então sentou-se na borda. a chuva já ia parando quando seu chinelo de dedo deslizou de seu pé e acertou mais um vaso que pendia na borda da mureta, fazendo um barulho cortante que afugentou o cachorro, e o tirou de seu transe. olhou para baixo, virou-se e desceu as escadas. juntou o punhado de terra que se espalhava ao redor, e jogou dentro de outro vaso. olhou por alguns instantes as flores jogadas ao chão. então sentiu seus pensamentos, percebendo a complexidade daquele momento. para ele, era quase um universo se extinguindo à sua frente, as casas, os prédios, as flores, os vasos, os olhos e a chuva.

mas era apenas o cheiro das rosas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.