sábado, julho 07, 2007

midnight beat

só sei que o jazz penetrava meus ouvidos solene, indecente, excitante. imprevisível. todos os pássaros do mundo pareciam se calar ao som do piano, e o trompete, ah, o trompete... tão doce, tão carente. tão único...



as pessoas já iam se retirando do salão, após horas e horas dançando contagiantemente. uns poucos copos de whisky, acompanhados de existências solitárias restavam pelo salão, e curiosamente, uma garota permanecia em transe no meio da pista de dança, bombardeada sucessivamente com euforia a cada compasso desferido pela percussão, tão devoradora, e ao mesmo tempo, tão indiferente... apenas pulsava, flertava.



já na terceira dose de conhaque, uma das últimas almas ali presente levantou o olhar embaçado e admirou aquela que sozinha dançava à melodia incessante. deixou então o vidro na companhia do gelo e se atirou em direção ao centro do salão, de encontro com o destino.



eis que se abraçaram. daquele momento em diante, nada mais existia. nada mais nem precisava existir. o quinteto já não mais tocava, mas a música se repetia em seus corações. juntos, eles eram um só, rodando ao som do sax. o salão agora era infinito, sem paredes nem lustres, apenas um espaço púrpura onde duas essências se misturavam.





o bebop durou uma eternidade dentro daqueles cinco minutos.





e tão subitamente quanto veio, o sentimento se esvaiu. as paredes voltaram violentamente a limitar o horizonte, enquanto ele pagava sua quarta dose antes de partir.







deixava para trás uma garota em seu silêncio.

quinta-feira, julho 05, 2007

plataforma

oito e meia da manhã de novo, o sol raiava mas não esquentava, enquanto sombras dançavam atrás de mim. passos e mais passos impacientes até que o zumbido aparecia ; de início, quase como um sussurro, e conforme ia crescendo, fazia os relógios e corações tremerem, ensurdecedor.

de repente, se abrem as portas, e as pessoas, como se fossem sugadas, desaparecem.

.

as portas se fecharam, e ficamos ali só eu e o café derramado. estranho eu ter pensado que parecia uma poça cheia de lágrimas. mas era só café. era só mais um devaneio...

o próximo vagão aparece, vazio. quase como um convite...


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o sol ainda brilhava quando as paredes encobriram completamente as janelas. e somente o café restou para contar que por ali, houve um dia um sonhador.