pegou o carro sem olhar pra trás. rasgante, cortou curvas como se fossem retas. largou a porta da garagem aberta sem pestanejar. como se apostasse uma corrida contra ele mesmo, ou melhor, contra o tempo. as pessoas passavam como flashes pelo seu retrovisor. embaçadas e insignificantes, uma a uma ficando para trás. árvores, postes, prédios, de repente tudo não passava de um borrão no espelho. a vontade era de sumir também, e o pé pressionava o já esmagado acelerador. cada vez mais.
parou em frente a um mirante. o violoncelo se espalhava pelo ambiente, e a vontade era de se tornar um com o céu. lá de longe, o horizonte pulsava verde-azul-roxo-vermelho.
sentou-se na ponta do penhasco com as pernas ao vento. balançavam, livres. as ondas se arrebentavam rente à parede de pedras. achou ter visto uma mulher lá embaixo, mas quando olhou de novo, não havia nada. apenas o sibilar da noite ouriçada que vinha com seus ventos gelados, quase que carentes. ouviu uma voz chamando, vindo de trás. eis que, aquela que antes pensou ter visto no fundo do desfiladeiro, aparece sorridente. envolta num vestido branco, como um anjo.
uma lufada de felicidade projetou-se do abismo, atingindo-o no rosto.
e os segundos pararam de correr, deixando um som agudo e um cheiro agradável no ar.
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