segunda-feira, outubro 29, 2007

crônicas da cidade, volume V

da janela ele conseguia ver algumas árvores
verdes, roxas, amarelas, lindas
casas antigas com telhadinhos terracota
e tanta gente perdida lá embaixo
as vezes tinha vontade de pular de lá de cima
e beijar com força o chão da cidade sem medo

o sol batia forte na soleira
só queria poder retribuir essa luz
via reflexos ao longe, sorrisos
e ouvia carros e bem-te-vis

queria sentir a pele queimando
e gritar ao mundo os ditos de seu coração
via prédios distorcidos pelo copo d'água
e as roupas balançando no varal
queria poder voar

quinta-feira, outubro 18, 2007

a u t o r e t r a t o

meu nome é guilherme. completei dezenove anos em maio. sou formado em webdesign pela unip, e atualmente curso design gráfico, também na unip. trabalho numa associação chamada abmi. de segunda a sexta, almoço num boteco chamado pitalmeida, aquela coisa, chama o garçom pelo nome e pede 'o de sempre'. uma porção de arroz e feijão, só. eu estaria anêmico se não fosse a vitamina de frutas que acompanha a refeição. de noite, geralmente acabo comendo yakisoba nas banquinhas da paulista. faz um mal danado, mas é bom e barato. todo dia acordo, pego ônibus, e se estiver atrasado, pego também o metrô. me agrada observar as milhares de pessoas que transitam pela cidade todos os dias, cada um com sua pequena rotina, cada um em seu pequeno mundo. gosto também de olhar bem nos olhos das pessoas que eu nunca vi na vida, e absorver delas o máximo que conseguir, e analisar a reação delas depois. o metrô me inspira, e acabo sempre tendo boas idéias ou escrevendo bons textos enquanto nele viajo. aos finais de semana, geralmente acabo ensaiando. toco em duas bandas. tocar bateria é algo que me dá prazer e me faz esquecer do mundo. guitarra era, não é mais. se não ensaio, acabo dormindo o dia todo. minha vida é um tanto quanto monótona. aliás, acho que sempre foi, tirando um ou outro interlúdio. já tive várias bandas, algumas poucas namoradas, fiz vários cursos, e já briguei com muita gente. tenho amigos. não são muitos, mas cada um deles vale por trinta amigos comuns. tive um relacionamento de quatro anos com a minha melhor amiga. aprendi muito, cresci muito, errei muito, e amei muito. com doze anos, entrei em cirurgia para corrigir uma arritmia no coração, e eu me achava gente grande por usar tantos aparelhos e ir para a faca tratar de algo que só se trata com sessenta ou mais anos. fiz um piercing na boca que hoje em dia praticamente nem uso. fiz também uma tatuagem nas costas que não costumo mostrar para ninguém, e pretendo fazer outras, e também pretendo não ficar mostrando. já fui em inúmeros shows, assisti inúmeras bandas tocando ao vivo, cada uma com um sentimento diferente. já chorei incontáveis vezes, seja por raiva, tristeza, alegria, pena, seja deitado na cama, trancado no banheiro ou na frente dos outros. quando tinha quinze anos, num acesso de raiva, esmurrei a parede do meu quarto até a mão sangrar. com quinze anos também comecei o primeiro projeto de ter uma banda, que não foi pra frente. já entrei em depressão, e também já tive picos de felicidade que nem conseguia acreditar. concordo cada vez mais com o que falei para um grande amigo uma vez, a vida dos poetas, artistas, músicos, criativos, sonhadores, não segue uma linearidade. é cheia de altos e baixos, quedas e ascenções, uma atrás da outra. as vezes bebia até perder os sentidos, mas na virada de dois mil e cinco para dois mil e seis, resolvi largar completamente tudo isso, o que só me trouxe benefícios. já andei de skate, e já me quebrei muito fazendo isso. já lutei judô, fiz aulas de natação, futebol, basquete, ginástica olímpica, mas hoje em dia não passo de um sedentário. da janela do escritório, vejo boa parte do bairro de pinheiros, vejo a teodoro sampaio imensa. da janela do meu quarto, vejo meu bairro, descendo calmo e subindo em seguida. as nuvens costumam aparecer laranjas logo que amanhece, parece até um quadro. ando sempre com três coisas nos bolsos, carteira, celular e chave, não consigo sair sem eles. e também, me sinto nu se não estiver com o relógio no pulso esquerdo e a pulseira no direito. tenho barba relativamente grande, porque a preguiça sempre me impede de apará-la. o mesmo se aplica a meu cabelo. tenho olhos pequenos, puxados, o que já me rendeu perguntas do tipo 'você tem descendência oriental?', sendo que meu sangue é completamente europeu. a minha vida, como eu já disse, é um tanto quanto monótona, por mais que eu tente fazer de tudo para mudar isso, sempre acabo achando que falta algo. está no ar, mas eu não consigo sentir. passo horas e horas na frente do computador, e isso vai acabar me matando. de tédio ou de dor de cabeça, não sei, mas vai. minhas músicas preferidas não são as preferidas de ninguém. meus sonhos são maiores do que todos. meu sonho é alcançar o céu. minha cama é alta, perigoso. meu quarto é azul, maçante. um dia ainda pinto o quarto de vermelho. meus tênis são todos allstars, não consigo usar outro. meu prédio é o britanis, um branco revestido de pastilhas que costumavam cair na minha cabeça quando eu era mais novo. nasci em mococa, em maio de oitenta e oito, no hospital dona carolina. vim para são paulo com aproximadamente um ano de idade. sempre quis morar no interior, e estudar na unicamp, mas sei que hoje em dia não aguentaria nem um mês longe do ar poluído de são paulo. nem do barulho incessante dos carros e ônibus que permeiam as ruas movimentadas. eu queria várias coisas. queria um carro, uma namorada, entrar na usp, um emprego que eu realmente gostasse, queria que as bandas crescessem, queria também achar uma banda onde o som que eu fizesse com ela me faria (e faria os outros) se sentir do jeito que eu me sinto quando escuto hot water music e noção de nada. queria poder abraçar o mundo todo de uma vez só. queria ter chances de arrumar vários erros que cometi durante a minha vida, mas sei que não posso. então, sigo tentando não errar mais. claro, é impossível, mas eu estou tentando o meu melhor. e pra ser sincero, os resultados vem sendo melhores do que eu esperava.

queria também me olhar no espelho e não ver olhos cansados. quando der, eu juro que vou descansar até as olheiras sumirem completamente. aí então, quem sabe, não paro de escrever apenas rascunhos, e escrevo um livro.

segunda-feira, outubro 15, 2007

sobre lâmpadas apagadas e um punhal enferrujado

silêncio.

e de repente, ele se levantou impaciente. como podia, tanta indiferença vindo de um coração tão colorido? mas era, aparentemente, o fim.

'não dá mais', gritou, 'não aguento você me olhando com essa cara! como pode, fazer isso comigo?', ela apenas olhava. fria como um iceberg. mostrando apenas uma ponta insignificante daquele sentimento monumental, velado sob uma camada de gelo.

'não dá mais, querido. você tem que entender', dizia, calculista. aquelas palavras entrariam em seu peito como um punhal, pensava ela. o sangue imaginário, descia marrom, numa mistura de sangue, petróleo e ferrugem, manchando a calçada e afogando os lamentos. os latidos da vizinhança haviam cessado, e os ponteiros de seu relógio faziam um barulho ensurdecedor, e à medida que a conversa se extendia, a madrugada se anunciava, pintando o céu de uma cor púrpura densa e escura.

eis que cai novamente sobre eles o silêncio.

sentada no chão, ela o observava, a passos largos, indo de um lado para o outro inquieto e pensativo. respirava calmamente, como se toda aquela exaltação por parte dele não acontecesse dentro dela também. não deixava transparecer nem um fio de preocupação.

as horas iam passando, e então ele começou a chorar. de dor, de raiva, de tristeza. ela se limitava a olhar para as montanhas. seu peito ia se corroendo ao ouvir cada soluço dele, mas não deixaria que ele soubesse que as lágrimas dele a alfinetavam profundamente.

em determinada hora, seus olhos se encontraram. os dele, já vermelhos de tanto chorar, com os dela, impassíveis e frios. as luzes da cidade começavam a ser desligadas, e a manhã lentamente ia chegando. passaram vários minutos calados. 'sabe do que mais?' disse ele, num tom doce, que não parecia guardar todas aquelas lágrimas que foram derramadas. 'depois de tanto tempo, ainda consigo me perder nesses seus olhos'. aquelas palavras foram suficientes para quebrar o escudo que ela havia criado à sua volta. começou a chorar. 'você é bobo demais, sabia? você é bobo demais', repetia maquinalmente. então, tomada por um impulso devastador, lançou-se em seus braços e o beijou ferozmente, como se fosse aquela a última madrugada em que poderia sentir o sabor de ser amada. sentiu-se segura, forte. então recobrou o controle. desvencilhou-se rapidamente e correu em direção à porta. de dentro, ainda podia ouvi-lo gritar a plenos pulmões 'eu te amo! ah, eu te amo!'. subiu correndo as escadas e se atirou na banheira, sorrindo. conseguira finalmente arrancar aquelas palavras dele, que por várias e várias noites sonhou ouvir jogadas aos quatro ventos.


.


sentado no meio fio, ele observava as últimas lâmpadas da cidade iam se apagando enquanto o sol aparecia lentamente, lavando aquelas manchas estampadas no chão, estancando o sangue acobreado que vazava devagar. levantou-se e olhou para trás, e começou a caminhar na direção oposta daquela casa branca. a calçada, agora limpa, era seu único guia naquela manhã que se seguia. a noite havia finalmente chegado ao fim.

segunda-feira, outubro 08, 2007

stars, pt IV

estava sentado no ponto de ônibus, inquieto. eram quase oito horas da noite, e a avenida estava curiosamente vazia. já esperava à quase meia hora, e nada. as estrelas estavam radiantes, coisa incomum para uma noite na cidade-indústria. os postes desperdiçavam energia numa noite tão clara.

eis que chega a condução, vazia. o cobrador e o motorista, quietos, pálidos. um tanto quanto assustador, e teria me assustado, se eu não estivesse tão preocupado com a música. sentei na última fileira, abaixei a cabeça e adormeci, sem perceber que o ônibus havia apagado seu letreiro, e tomava um rumo totalmente diferente de seu itinerário.

acordei lá pelas nove e meia, e olhei pela janela. era uma estrada deserta, com pastos em volta, me lembrando a velha bandeirantes, que já fazia parte da minha vida. o céu, agora sem estrelas, mas claro como um dia comum. o corredor do ônibus agora era quase infinito, milhares de fileiras de assentos, e eu não via mais o cobrador, muito menos o motorista. olhei novamente para o céu, e vi uma estrela cadente, linda, brilhante como só ela. fiz um pedido.

'desejo voltar a sonhar'

a estrela mudou sua pulsação, partindo para um roxo-amarelo-maracujá, e passou a acompanhar o ônibus por um tempo. fiquei ali, me sentindo abraçado por aquela luz quente, enquanto rumava por aquela estrada desconhecida. adormeci novamente.

de repente, senti alguém batendo em meu ombro. 'ei garoto, última parada', dizia o cobrador, um outro, com tez courada e olhos expressivos, muito diferente daquele pálido semblante que aparecera horas atrás. desci, e olhei para o alto, procurando a estrela em vão. porém eu sabia que ela estaria sempre no céu olhando por mim dali pra frente. e com o seu brilho em minha mente, sorri e caminhei em direção ao portão.

terça-feira, outubro 02, 2007

crônicas da cidade, volume IV

eu vi o céu escuro lá fora, tão perfeito, que acabei indo vê-lo mais de perto. as ruas do subúrbio, na madrugada, são frias e quietas, de um certo ponto de vista, aconchegantes. não há carros, não há pessoas, apenas o vento e os postes com lâmpadas semi-acesas. algumas queimadas, algumas quebradas. eu não conseguia pensar em outra coisa que conseguisse me acalmar aquela noite se não andar por aí sem rumo. sempre foi assim, o asfalto curando minha insônia. a pé, sobre rodas ou sob asas, era sempre a visão das faixas amarelas intercaladas que me traziam sossego. não fazia idéia se seria diferente nessa noite, ou se a velha receita se faria valer. ao que me parece, o mundo é um lugar muito melhor de se viver quando cai a noite na cidade barulhenta, que nem barulhenta é mais por essas horas. vejo um banco, nele um jornal, servindo de capa. parei por alguns minutos, de braços abertos e de pernas esticadas apreciava a brisa gelada e a luz da lua. fraca, mas era o suficiente para que eu conseguisse ver para onde ia. lembrei-me então de um velho livro que li quando criança, onde um garoto com uma imaginação inquieta como a minha saia para andar nas ruas, e acabava encontrando um casarão que marcaria sua vida para sempre. uma mansão assustadora, aparentemente abandonada. o garoto se sentia aterrorizado, mas ao mesmo tempo impelido a conhecê-la por dentro. então, levantei-me e continuei a caminhar pelas ladeiras desse bairro que mais parece uma serra, quem sabe não achava algo assim, que me deixasse com calafrios, mas ao mesmo tempo, sentir um impulso incontrolável de me entregar totalmente. hoje parecia a noite perfeita para descobrir se essas coisas existem ou se realmente, a ficção estava começando a se misturar com a minha vida a ponto de me fazer sair de casa em plena madrugada procurando um lugar que não existe fora da minha imaginação. alguns poucos automóveis passavam batidos, com seus ocupantes me encarando, aposto que tentavam imaginar o que levava um garoto a vagar pelas ruas àquela hora da noite. mas para mim, não era tarde, meu sono ainda não tinha aparecido, e eu sentia que a noite estava deveras longe de terminar. continuei cruzando ruas e dobrando esquinas, até que acabei chegando num pequeno parque que nunca havia notado. era uma clareira, com uma pequena cerca verde de metal, alguns bancos de madeira dispostos em círculo e uma fonte desligada no meio. cheguei perto cautelosamente, não queria estragar aquele momento. com cuidado para não pisar nas poucas flores que se arriscavam em viver por alí, cheguei até um dos bancos e me encostei. fitei a fonte por alguns instantes e percebi uma inscrição em sua base, uma pequena frase que me rendeu alguns minutos de reflexão. 'se não pelo amor, porque viver?'. se não pelo prazer de se sentir vivo, porque sentir qualquer coisa? no fundo da fonte, várias moedas depositadas com desejos e sonhos. perguntei para a fonte qual fora o último pedido que havia sido feito naquele dia, esperando atentamente a resposta. fechei os olhos, e me vi alí, em pé na frente da fonte, desejando ardentemente aquela presença. vasculhei meu bolso por moedas em vão. um deja-vu enganoso, de certo. com a cabeça baixa, cantava mentalmente uma canção que me lembrava tardes serenas. quando ergui a cabeça, alguns vagalumes pairavam sobre a fonte, dando um aspecto deveras sacro para toda aquela cena. eis que surge um gato, vagaroso, e para em minha frente. me olha profundamente, como se quisesse dizer algo, então parte. acompanhei atônito a imagem do gato se misturando à folhagem, e quando percebi, já não haviam vagalumes flutuando à minha volta. só o que vi foi algo refletindo a luz do poste no chão. bem onde o gato havia parado, havia uma moeda de prata, uma lira italiana. peguei então a moeda, e de olhos bem cerrados, desejei com todas as minhas forças sentir perto de mim mais uma vez aqueles olhos brilhantes. então parti. o sol já começava a despontar por detrás dos prédios, e em alguns minutos estava de volta à minha rua, caminhando cansado até em casa. ao abrir a porta, estranhei a ausência dos costumeiros latidos me saudando. as três pequenas continuavam dormindo, mesmo com o barulho da fechadura e de meus sapatos velhos batendo no piso. ao subir na minha cama, senti que uma luz começava a surgir pela janela, algo mais forte que o sol que começava timidamente a aparecer. meus olhos foram se fechando aos poucos, enquanto o quarto se banhava em um branco intenso, e me lembro bem de ter visto aqueles olhos sorrindo para mim, momentos antes de adormecer.

asas de pano

ele corria por planícies gramadas iguais àquelas que sempre via em filmes na televisão. de braços abertos, cortando o vento lado a lado com moinhos gigantes, sentia na pele a liberdade de não ter mais com o que se preocupar. apenas corria...

eis que veio a chuva beijar-lhe as têmporas, mas nem as gotas geladas o faziam parar de correr. rumo ao infinito, pensava, rumo ao infinito. serei maior que o tempo...

deixava para trás uma trilha flamejante, de uma cor púrpura intensa, viva. começou a levantar vôo, com asas abertas e cabeça erguida, ganhou os céus num piscar de olhos.

flertou com as estrelas, sentiu a galáxia o abraçando, por todos os lados. dançou com planetas, montou em cometas. sentiu na pele o respirar da lua.

cada vez mais alto, já via de longe a poeira cósmica, que diminuia, e suas asas começaram a crescer, mais e mais. seria maior que o tempo...

os sons já não se propagavam, e o ar não se deslocava. mas no silêncio do universo, aquele anjo seguia sua viagem. já era maior que o tempo...