terça-feira, outubro 02, 2007
crônicas da cidade, volume IV
eu vi o céu escuro lá fora, tão perfeito, que acabei indo vê-lo mais de perto. as ruas do subúrbio, na madrugada, são frias e quietas, de um certo ponto de vista, aconchegantes. não há carros, não há pessoas, apenas o vento e os postes com lâmpadas semi-acesas. algumas queimadas, algumas quebradas. eu não conseguia pensar em outra coisa que conseguisse me acalmar aquela noite se não andar por aí sem rumo. sempre foi assim, o asfalto curando minha insônia. a pé, sobre rodas ou sob asas, era sempre a visão das faixas amarelas intercaladas que me traziam sossego. não fazia idéia se seria diferente nessa noite, ou se a velha receita se faria valer. ao que me parece, o mundo é um lugar muito melhor de se viver quando cai a noite na cidade barulhenta, que nem barulhenta é mais por essas horas. vejo um banco, nele um jornal, servindo de capa. parei por alguns minutos, de braços abertos e de pernas esticadas apreciava a brisa gelada e a luz da lua. fraca, mas era o suficiente para que eu conseguisse ver para onde ia. lembrei-me então de um velho livro que li quando criança, onde um garoto com uma imaginação inquieta como a minha saia para andar nas ruas, e acabava encontrando um casarão que marcaria sua vida para sempre. uma mansão assustadora, aparentemente abandonada. o garoto se sentia aterrorizado, mas ao mesmo tempo impelido a conhecê-la por dentro. então, levantei-me e continuei a caminhar pelas ladeiras desse bairro que mais parece uma serra, quem sabe não achava algo assim, que me deixasse com calafrios, mas ao mesmo tempo, sentir um impulso incontrolável de me entregar totalmente. hoje parecia a noite perfeita para descobrir se essas coisas existem ou se realmente, a ficção estava começando a se misturar com a minha vida a ponto de me fazer sair de casa em plena madrugada procurando um lugar que não existe fora da minha imaginação. alguns poucos automóveis passavam batidos, com seus ocupantes me encarando, aposto que tentavam imaginar o que levava um garoto a vagar pelas ruas àquela hora da noite. mas para mim, não era tarde, meu sono ainda não tinha aparecido, e eu sentia que a noite estava deveras longe de terminar. continuei cruzando ruas e dobrando esquinas, até que acabei chegando num pequeno parque que nunca havia notado. era uma clareira, com uma pequena cerca verde de metal, alguns bancos de madeira dispostos em círculo e uma fonte desligada no meio. cheguei perto cautelosamente, não queria estragar aquele momento. com cuidado para não pisar nas poucas flores que se arriscavam em viver por alí, cheguei até um dos bancos e me encostei. fitei a fonte por alguns instantes e percebi uma inscrição em sua base, uma pequena frase que me rendeu alguns minutos de reflexão. 'se não pelo amor, porque viver?'. se não pelo prazer de se sentir vivo, porque sentir qualquer coisa? no fundo da fonte, várias moedas depositadas com desejos e sonhos. perguntei para a fonte qual fora o último pedido que havia sido feito naquele dia, esperando atentamente a resposta. fechei os olhos, e me vi alí, em pé na frente da fonte, desejando ardentemente aquela presença. vasculhei meu bolso por moedas em vão. um deja-vu enganoso, de certo. com a cabeça baixa, cantava mentalmente uma canção que me lembrava tardes serenas. quando ergui a cabeça, alguns vagalumes pairavam sobre a fonte, dando um aspecto deveras sacro para toda aquela cena. eis que surge um gato, vagaroso, e para em minha frente. me olha profundamente, como se quisesse dizer algo, então parte. acompanhei atônito a imagem do gato se misturando à folhagem, e quando percebi, já não haviam vagalumes flutuando à minha volta. só o que vi foi algo refletindo a luz do poste no chão. bem onde o gato havia parado, havia uma moeda de prata, uma lira italiana. peguei então a moeda, e de olhos bem cerrados, desejei com todas as minhas forças sentir perto de mim mais uma vez aqueles olhos brilhantes. então parti. o sol já começava a despontar por detrás dos prédios, e em alguns minutos estava de volta à minha rua, caminhando cansado até em casa. ao abrir a porta, estranhei a ausência dos costumeiros latidos me saudando. as três pequenas continuavam dormindo, mesmo com o barulho da fechadura e de meus sapatos velhos batendo no piso. ao subir na minha cama, senti que uma luz começava a surgir pela janela, algo mais forte que o sol que começava timidamente a aparecer. meus olhos foram se fechando aos poucos, enquanto o quarto se banhava em um branco intenso, e me lembro bem de ter visto aqueles olhos sorrindo para mim, momentos antes de adormecer.
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