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sexta-feira, junho 27, 2008
crônicas da cidade, volume VII
cruzou a consolação com pressa em meio aos carros enquanto o relógio em seu bolso fazia pressão em seu peito, não poderia perder nem mais um segundo porém sabia que não chegaria a tempo nem que todos os outros ônibus da paulista abrissem um corredor para que o seu passasse - deu sinal apressado e embarcou desajeitado quase derrubando um rapaz que se equilibrava com dificuldade com seu livro na mão e os fones de ouvido lhe tirando a atenção, então girou a catraca e sentou-se inquieto num dos últimos assentos, inquieto por não conseguir fazer os minutos não passarem ou ao menos passarem mais vagarosamente. lembrou-se de sua infância quando imaginava que à certa idade teria poderes especiais, pararia o tempo, voaria pelos céus e seria feliz, ah como essas cenas se materializavam em sua mente com tal facilidade que acabavam por parecer verdade, e ele esperava que um dia ganharia os céus, mas ao invés disso rastejava à quatro rodas pela avenida em sua imensa lentidão vendo ao longe o sol se pondo numa caótica cidadezinha com seus habitantes de ternoegravata cinza andando maquinalmente de uma ponta à outra da cidade sem se perguntar porque andavam ou nem ao menos olhar para aquele deslumbrante astro que esparramava sua luz e seu calor até o final da lapa, mas só até o final de semana quando trocavam suas roupas sociais por roupas de marca cigarros e putas na augusta - onde todo homem é homem com apenas vinte reais e as cervejas nunca esquentam e os hipsters dessa geração usam maquiagem excessiva para desfilar em toda sua blaséidade superficial (porque no fundo de suas angústias paradoxais tudo que queriam era um pouco de atenção e alguns olhares direcionados enquanto as caixas de som da inferno espancavam seus ouvidos). ele próprio também descia a rua indiferentemente as vezes mas agora isso nem passava pela sua cabeça, apenas pensava em alcançar seu destino a tempo mesmo sabendo ser impossível cruzar duas ruas completamente congestionadas em meia hora (a domingos de morais não era tão ruim mas ainda sim, congestionada) e ricocheteava em sua mente a imagem da garota sonhadora desistindo da espera, maldito dia em que o expediente resolveu se extender por tanto tempo que comprometeria completamente o cronograma de sua vida naquele instante único, apenas pensava nela e nada mais. culpava os faróis e também as pessoas que o encaravam por estar ofegante enquanto o ônibus deslizava para a vila mariana e agora apenas dez minutos de caminhada o separavam dos abraços que tanto desejava e ao ver a imponente estrutura do outro lado da avenida seu sorriso se abriu pra não fechar mais essa noite pois as cordas do violão de bob dylan ressoavam ao fundo enquanto os dedos entrelaçados brincavam de se acariciar.
quarta-feira, maio 14, 2008
crônicas da cidade, volume VI
gotas de suor escorriam pelo canto de seu rosto, mesmo com a cidade batendo recordes de frio. os pensamentos desordenados e a cabeça latejante tiravam completamente sua concentração para os problemas cotidianos e todo o resto de suas tarefas pareciam se perder num borrão branco. levantou-se com dificuldade, devido ao mal estar e aos óculos que pareciam pesar uma tonelada, e foi para o quintal tomar um pouco de ar. esbarrou em uma colega de trabalho, que derrubou uma pilha de papéis, fazendo com que o pequeno corredor ficasse intransitável. embaraçado, começou a recolher os papéis, maldizendo aquele dia que não precisava nem ter começado, e não reparou o olhar de assustada da mulher que o observava, como se sua angústia fosse uma aura visível, carregada e tenebrosa. ao sair pela porta, o telefone de sua mesa começou a tocar. um, dois, três toques, e ele continuava do lado de fora, somente observando. cessou. só de pensar em voltar para aquele ambiente com o ar viciado, olhares cortantes e cheiro de mofo, sentia-se enjoado. queria não depender do salário, ou ser rico, ou roubar um banco, tanto faz. queria apenas não voltar ali. porém, nada havia a ser feito. pelo menos era isso que sua auto estima queria que ele acreditasse.
.
ela caminhava a passos largos pela rua, como se vivesse em um conto de fadas ou coisa que o valha, observado as flores, sorrido para as pessoas que cruzavam com seu habitual rancor, sem se importar se receberia ao menos uma demonstração de carinho em troca. parou em uma padaria e pediu um refrigerante. sua garganta seca queria gritar a felicidade do mundo em três acordes. tudo acontecia de uma forma tão completa que ela acreditava que seu destino estava sob influência de alguma força maior. foi então que parou àquele 533 da avenida angélica, onde um homem alto respirava com dificuldade, afrouxando a gravata. parou alguns instantes enquanto o rapaz, curvado, se recompunha, ou ao menos tentava.
.
então, ele levantou o rosto e seus olhares se cruzaram.
.
o silêncio perdurou por quase cinco minutos, e nesses cinco minutos, os dois indivíduos se conheceram por completo, trocaram experiências, vivências e essências. e o baque foi tão forte que foram repelidos para longe sem mesmo chegar perto.
.
ela continou caminhando, mas não via mais apenas cores nas flores, via flores num lugar onde tudo era da cor mais viva que conseguia imaginar. ficou marcada por aquela presença e aqueles olhos por detrás das lentes, que mudaram sua vida.
.
ele a viu seguir rumo à esquina, virou-se e voltou ao escritório. surpreendentemente, o ar viciado dera lugar à um perfume doce de rosas, e o suor frio cheio de repulso dera lugar a um sorriso.
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ela caminhava a passos largos pela rua, como se vivesse em um conto de fadas ou coisa que o valha, observado as flores, sorrido para as pessoas que cruzavam com seu habitual rancor, sem se importar se receberia ao menos uma demonstração de carinho em troca. parou em uma padaria e pediu um refrigerante. sua garganta seca queria gritar a felicidade do mundo em três acordes. tudo acontecia de uma forma tão completa que ela acreditava que seu destino estava sob influência de alguma força maior. foi então que parou àquele 533 da avenida angélica, onde um homem alto respirava com dificuldade, afrouxando a gravata. parou alguns instantes enquanto o rapaz, curvado, se recompunha, ou ao menos tentava.
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então, ele levantou o rosto e seus olhares se cruzaram.
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o silêncio perdurou por quase cinco minutos, e nesses cinco minutos, os dois indivíduos se conheceram por completo, trocaram experiências, vivências e essências. e o baque foi tão forte que foram repelidos para longe sem mesmo chegar perto.
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ela continou caminhando, mas não via mais apenas cores nas flores, via flores num lugar onde tudo era da cor mais viva que conseguia imaginar. ficou marcada por aquela presença e aqueles olhos por detrás das lentes, que mudaram sua vida.
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ele a viu seguir rumo à esquina, virou-se e voltou ao escritório. surpreendentemente, o ar viciado dera lugar à um perfume doce de rosas, e o suor frio cheio de repulso dera lugar a um sorriso.
segunda-feira, outubro 29, 2007
crônicas da cidade, volume V
da janela ele conseguia ver algumas árvores
verdes, roxas, amarelas, lindas
casas antigas com telhadinhos terracota
e tanta gente perdida lá embaixo
as vezes tinha vontade de pular de lá de cima
e beijar com força o chão da cidade sem medo
o sol batia forte na soleira
só queria poder retribuir essa luz
via reflexos ao longe, sorrisos
e ouvia carros e bem-te-vis
queria sentir a pele queimando
e gritar ao mundo os ditos de seu coração
via prédios distorcidos pelo copo d'água
e as roupas balançando no varal
queria poder voar
verdes, roxas, amarelas, lindas
casas antigas com telhadinhos terracota
e tanta gente perdida lá embaixo
as vezes tinha vontade de pular de lá de cima
e beijar com força o chão da cidade sem medo
o sol batia forte na soleira
só queria poder retribuir essa luz
via reflexos ao longe, sorrisos
e ouvia carros e bem-te-vis
queria sentir a pele queimando
e gritar ao mundo os ditos de seu coração
via prédios distorcidos pelo copo d'água
e as roupas balançando no varal
queria poder voar
terça-feira, outubro 02, 2007
crônicas da cidade, volume IV
eu vi o céu escuro lá fora, tão perfeito, que acabei indo vê-lo mais de perto. as ruas do subúrbio, na madrugada, são frias e quietas, de um certo ponto de vista, aconchegantes. não há carros, não há pessoas, apenas o vento e os postes com lâmpadas semi-acesas. algumas queimadas, algumas quebradas. eu não conseguia pensar em outra coisa que conseguisse me acalmar aquela noite se não andar por aí sem rumo. sempre foi assim, o asfalto curando minha insônia. a pé, sobre rodas ou sob asas, era sempre a visão das faixas amarelas intercaladas que me traziam sossego. não fazia idéia se seria diferente nessa noite, ou se a velha receita se faria valer. ao que me parece, o mundo é um lugar muito melhor de se viver quando cai a noite na cidade barulhenta, que nem barulhenta é mais por essas horas. vejo um banco, nele um jornal, servindo de capa. parei por alguns minutos, de braços abertos e de pernas esticadas apreciava a brisa gelada e a luz da lua. fraca, mas era o suficiente para que eu conseguisse ver para onde ia. lembrei-me então de um velho livro que li quando criança, onde um garoto com uma imaginação inquieta como a minha saia para andar nas ruas, e acabava encontrando um casarão que marcaria sua vida para sempre. uma mansão assustadora, aparentemente abandonada. o garoto se sentia aterrorizado, mas ao mesmo tempo impelido a conhecê-la por dentro. então, levantei-me e continuei a caminhar pelas ladeiras desse bairro que mais parece uma serra, quem sabe não achava algo assim, que me deixasse com calafrios, mas ao mesmo tempo, sentir um impulso incontrolável de me entregar totalmente. hoje parecia a noite perfeita para descobrir se essas coisas existem ou se realmente, a ficção estava começando a se misturar com a minha vida a ponto de me fazer sair de casa em plena madrugada procurando um lugar que não existe fora da minha imaginação. alguns poucos automóveis passavam batidos, com seus ocupantes me encarando, aposto que tentavam imaginar o que levava um garoto a vagar pelas ruas àquela hora da noite. mas para mim, não era tarde, meu sono ainda não tinha aparecido, e eu sentia que a noite estava deveras longe de terminar. continuei cruzando ruas e dobrando esquinas, até que acabei chegando num pequeno parque que nunca havia notado. era uma clareira, com uma pequena cerca verde de metal, alguns bancos de madeira dispostos em círculo e uma fonte desligada no meio. cheguei perto cautelosamente, não queria estragar aquele momento. com cuidado para não pisar nas poucas flores que se arriscavam em viver por alí, cheguei até um dos bancos e me encostei. fitei a fonte por alguns instantes e percebi uma inscrição em sua base, uma pequena frase que me rendeu alguns minutos de reflexão. 'se não pelo amor, porque viver?'. se não pelo prazer de se sentir vivo, porque sentir qualquer coisa? no fundo da fonte, várias moedas depositadas com desejos e sonhos. perguntei para a fonte qual fora o último pedido que havia sido feito naquele dia, esperando atentamente a resposta. fechei os olhos, e me vi alí, em pé na frente da fonte, desejando ardentemente aquela presença. vasculhei meu bolso por moedas em vão. um deja-vu enganoso, de certo. com a cabeça baixa, cantava mentalmente uma canção que me lembrava tardes serenas. quando ergui a cabeça, alguns vagalumes pairavam sobre a fonte, dando um aspecto deveras sacro para toda aquela cena. eis que surge um gato, vagaroso, e para em minha frente. me olha profundamente, como se quisesse dizer algo, então parte. acompanhei atônito a imagem do gato se misturando à folhagem, e quando percebi, já não haviam vagalumes flutuando à minha volta. só o que vi foi algo refletindo a luz do poste no chão. bem onde o gato havia parado, havia uma moeda de prata, uma lira italiana. peguei então a moeda, e de olhos bem cerrados, desejei com todas as minhas forças sentir perto de mim mais uma vez aqueles olhos brilhantes. então parti. o sol já começava a despontar por detrás dos prédios, e em alguns minutos estava de volta à minha rua, caminhando cansado até em casa. ao abrir a porta, estranhei a ausência dos costumeiros latidos me saudando. as três pequenas continuavam dormindo, mesmo com o barulho da fechadura e de meus sapatos velhos batendo no piso. ao subir na minha cama, senti que uma luz começava a surgir pela janela, algo mais forte que o sol que começava timidamente a aparecer. meus olhos foram se fechando aos poucos, enquanto o quarto se banhava em um branco intenso, e me lembro bem de ter visto aqueles olhos sorrindo para mim, momentos antes de adormecer.
quinta-feira, setembro 27, 2007
crônicas da cidade, apêndice I
'próxima estação: paraíso. acesso à linha um, azul' e o vagão ficou extremamente vazio, uns poucos gatos pingados e eu alí, olhando firme pela janela. as paredes pareciam mais rápidas do que de costume, cortavam rente ao trem, assobiando agudos que faziam minha cabeça latejar. 'estação ana rosa', e o vazio só aumentava. eu quis dançar ali mesmo enquanto era atirado rapidamente rumo ao suburbio. minha alma já valsava no meio do corredor, luzes e mais luzes cruzando meu semblante.
escadas rolantes movendo pessoas preguiçosas e eu mal esboçava uma reação. permanecia com as pernas sobre o assento. eis que a tela apaga. 'próxima estação, imigrantes', meu fim da linha, queria viajar mais, sabe? mas eu me levanto como que por comodidade.
dois ônibus passam, espero por um terceiro que me leve de volta por entre as vielas escuras. um estalo me chama a atenção, os prédios parecem curvar-se. seus topos parecem estar mais pertos do chão essa noite enquanto eu sento aqui e transcrevo furiosamente devaneios que pareciam brotar do chão (ou fui eu que escavei o concreto em busca de palavras?), movido pelos carros e pelos hoje tão baixos prédios. semáforo intermitente, bombardeia minha íris cansada de tanta luz artificial, lua, oh lua, onde estará? entro na barca que guia para dentro do coração da cidade. frenético assim vou percorrendo rios de asfalto, aí olho pro tapete azul, será que você está olhando para ele agora também? de novo me pergunto aonde andam nossas mentes senão juntas pelos céus.
escadas rolantes movendo pessoas preguiçosas e eu mal esboçava uma reação. permanecia com as pernas sobre o assento. eis que a tela apaga. 'próxima estação, imigrantes', meu fim da linha, queria viajar mais, sabe? mas eu me levanto como que por comodidade.
dois ônibus passam, espero por um terceiro que me leve de volta por entre as vielas escuras. um estalo me chama a atenção, os prédios parecem curvar-se. seus topos parecem estar mais pertos do chão essa noite enquanto eu sento aqui e transcrevo furiosamente devaneios que pareciam brotar do chão (ou fui eu que escavei o concreto em busca de palavras?), movido pelos carros e pelos hoje tão baixos prédios. semáforo intermitente, bombardeia minha íris cansada de tanta luz artificial, lua, oh lua, onde estará? entro na barca que guia para dentro do coração da cidade. frenético assim vou percorrendo rios de asfalto, aí olho pro tapete azul, será que você está olhando para ele agora também? de novo me pergunto aonde andam nossas mentes senão juntas pelos céus.
crônicas da cidade, volume III
prólogo:
'três da manhã. estou perdido em um boteco qualquer da avenida paulista. plena madrugada de sexta-feira e eu aqui, com meio copo de rum, e a visão torta. diabos, eu só queria estar em casa. eu só queria ainda ter uma casa...'
parte I:
por entre mendigos e vira-latas, o homem se arrastava pelas ruas sujas, descuidado. o tempo frio era cúmplice das nuvens, que se fechavam logo acima de sua cabeça. aquele sujeito com seu terno gasto, sapatos sem lustre e barba mal aparada, não tinha mais nome. não tinha mais emprego. não tinha mais nada. apenas vagava pela cidade sem ver muito sentido nas coisas. atravessou a peixoto e continuou rastejando rumo à luz.
parte II:
a garota, procurava desesperadamente pela vergueiro, em vão. já era a oitava noite que saia para procurá-lo. pensamentos tenebrosos começavam a invadir sua mente, afinal, por mais melancólica que a cidade pudesse ser, ainda era violenta. e o medo começava a invadir aquele templo sólido, desgastando sua fundação. era o sinal do tempo, ou era o tempo em si que havia causado tudo isso?
parte III:
sentou-se num banco na brigadeiro. suas forças estavam quase no fim. ficava se perguntando por quanto tempo mais aguentaria caminhar, até a hora que desabaria no chão sem alma, sem vida. 'porque tudo isso teve que ser assim?', lamuriava. o cansaço chegava a níveis exponenciais, inimagináveis. o vento gélido da metrópole completava aquela pintura. com os cabelos esvoaçados, reuniu aquelas últimas gotas de coragem e levantou-se.
parte IV:
algumas cadeiras permaneciam viradas, por cima das mesas, mas nem todas. aconchegou-se e pediu ao garçom por um cálice de vinho. quem sabe isso esquentaria seu peito e conseguiria manter-se por mais algumas horas na rua. quem sabe, não encontrava por lá o que estava procurando. o vinho desceu fervendo, queimando suas entranhas, mas não foi o suficiente para levar pro fundo as lágrimas, que não tardaram a brotar.
interlúdio:
'eu só queria que tudo ficasse bem. ah, eu só queria poder vê-lo de novo, e falar tudo que está engasgado, preso na minha garganta. só pra poder ver em seus olhos a culpa, e livrar dela os meus. maldito...'
parte v:
estava mirando o cálice vazio, quando ela se sentou em sua frente, de cabeça baixa. ficaram em silêncio por muito tempo, até que ele se atreveu a quebrá-lo.
-dias cinzas como esse me fazem lembrar de você... - disse o bêbado, quase que esboçando um sorriso. não obteve resposta. -você não precisava ter vindo atrás de mim, mel...
-você não tem o direito de me chamar assim, seu canalha. - esbravejou a garota, terrivelmente transtornada. -como tem coragem, de sumir por duas semanas assim, seu irresponsável? você queria o que, me matar de desgosto? seu cretino... - e começou a chorar. num impulso, o bêbado inclinou-se para limpar suas lágrimas, sendo repelido violentamente. após alguns minutos onde só se ouvia o soluçar da garota, ele se pronunciou.
-mel, eu sei que você não vai me perdoar nunca, só quero que você me ouça por cinco minutos.
-seus cinco minutos se acabaram fazem anos, querido. - e levantou, deixando o bêbado sozinho, olhando pro vazio. foi a última vez que aqueles olhos se cruzaram.
epílogo:
parou a alguns metros do bar, e olhou para trás. ele continuava imóvel, com a cabeça baixa e com as mãos segurando o cálice. sentiu pena, mas não pensou duas vezes antes de levantar o rosto e contemplar o sol que acabara de nascer, denunciando a soltura espiritual que viria a seguir. finalmente, sorriu.
'três da manhã. estou perdido em um boteco qualquer da avenida paulista. plena madrugada de sexta-feira e eu aqui, com meio copo de rum, e a visão torta. diabos, eu só queria estar em casa. eu só queria ainda ter uma casa...'
parte I:
por entre mendigos e vira-latas, o homem se arrastava pelas ruas sujas, descuidado. o tempo frio era cúmplice das nuvens, que se fechavam logo acima de sua cabeça. aquele sujeito com seu terno gasto, sapatos sem lustre e barba mal aparada, não tinha mais nome. não tinha mais emprego. não tinha mais nada. apenas vagava pela cidade sem ver muito sentido nas coisas. atravessou a peixoto e continuou rastejando rumo à luz.
parte II:
a garota, procurava desesperadamente pela vergueiro, em vão. já era a oitava noite que saia para procurá-lo. pensamentos tenebrosos começavam a invadir sua mente, afinal, por mais melancólica que a cidade pudesse ser, ainda era violenta. e o medo começava a invadir aquele templo sólido, desgastando sua fundação. era o sinal do tempo, ou era o tempo em si que havia causado tudo isso?
parte III:
sentou-se num banco na brigadeiro. suas forças estavam quase no fim. ficava se perguntando por quanto tempo mais aguentaria caminhar, até a hora que desabaria no chão sem alma, sem vida. 'porque tudo isso teve que ser assim?', lamuriava. o cansaço chegava a níveis exponenciais, inimagináveis. o vento gélido da metrópole completava aquela pintura. com os cabelos esvoaçados, reuniu aquelas últimas gotas de coragem e levantou-se.
parte IV:
algumas cadeiras permaneciam viradas, por cima das mesas, mas nem todas. aconchegou-se e pediu ao garçom por um cálice de vinho. quem sabe isso esquentaria seu peito e conseguiria manter-se por mais algumas horas na rua. quem sabe, não encontrava por lá o que estava procurando. o vinho desceu fervendo, queimando suas entranhas, mas não foi o suficiente para levar pro fundo as lágrimas, que não tardaram a brotar.
interlúdio:
'eu só queria que tudo ficasse bem. ah, eu só queria poder vê-lo de novo, e falar tudo que está engasgado, preso na minha garganta. só pra poder ver em seus olhos a culpa, e livrar dela os meus. maldito...'
parte v:
estava mirando o cálice vazio, quando ela se sentou em sua frente, de cabeça baixa. ficaram em silêncio por muito tempo, até que ele se atreveu a quebrá-lo.
-dias cinzas como esse me fazem lembrar de você... - disse o bêbado, quase que esboçando um sorriso. não obteve resposta. -você não precisava ter vindo atrás de mim, mel...
-você não tem o direito de me chamar assim, seu canalha. - esbravejou a garota, terrivelmente transtornada. -como tem coragem, de sumir por duas semanas assim, seu irresponsável? você queria o que, me matar de desgosto? seu cretino... - e começou a chorar. num impulso, o bêbado inclinou-se para limpar suas lágrimas, sendo repelido violentamente. após alguns minutos onde só se ouvia o soluçar da garota, ele se pronunciou.
-mel, eu sei que você não vai me perdoar nunca, só quero que você me ouça por cinco minutos.
-seus cinco minutos se acabaram fazem anos, querido. - e levantou, deixando o bêbado sozinho, olhando pro vazio. foi a última vez que aqueles olhos se cruzaram.
epílogo:
parou a alguns metros do bar, e olhou para trás. ele continuava imóvel, com a cabeça baixa e com as mãos segurando o cálice. sentiu pena, mas não pensou duas vezes antes de levantar o rosto e contemplar o sol que acabara de nascer, denunciando a soltura espiritual que viria a seguir. finalmente, sorriu.
segunda-feira, setembro 24, 2007
crônicas da cidade, volume II
pegou o carro sem olhar pra trás. rasgante, cortou curvas como se fossem retas. largou a porta da garagem aberta sem pestanejar. como se apostasse uma corrida contra ele mesmo, ou melhor, contra o tempo. as pessoas passavam como flashes pelo seu retrovisor. embaçadas e insignificantes, uma a uma ficando para trás. árvores, postes, prédios, de repente tudo não passava de um borrão no espelho. a vontade era de sumir também, e o pé pressionava o já esmagado acelerador. cada vez mais.
parou em frente a um mirante. o violoncelo se espalhava pelo ambiente, e a vontade era de se tornar um com o céu. lá de longe, o horizonte pulsava verde-azul-roxo-vermelho.
sentou-se na ponta do penhasco com as pernas ao vento. balançavam, livres. as ondas se arrebentavam rente à parede de pedras. achou ter visto uma mulher lá embaixo, mas quando olhou de novo, não havia nada. apenas o sibilar da noite ouriçada que vinha com seus ventos gelados, quase que carentes. ouviu uma voz chamando, vindo de trás. eis que, aquela que antes pensou ter visto no fundo do desfiladeiro, aparece sorridente. envolta num vestido branco, como um anjo.
uma lufada de felicidade projetou-se do abismo, atingindo-o no rosto.
e os segundos pararam de correr, deixando um som agudo e um cheiro agradável no ar.
parou em frente a um mirante. o violoncelo se espalhava pelo ambiente, e a vontade era de se tornar um com o céu. lá de longe, o horizonte pulsava verde-azul-roxo-vermelho.
sentou-se na ponta do penhasco com as pernas ao vento. balançavam, livres. as ondas se arrebentavam rente à parede de pedras. achou ter visto uma mulher lá embaixo, mas quando olhou de novo, não havia nada. apenas o sibilar da noite ouriçada que vinha com seus ventos gelados, quase que carentes. ouviu uma voz chamando, vindo de trás. eis que, aquela que antes pensou ter visto no fundo do desfiladeiro, aparece sorridente. envolta num vestido branco, como um anjo.
uma lufada de felicidade projetou-se do abismo, atingindo-o no rosto.
e os segundos pararam de correr, deixando um som agudo e um cheiro agradável no ar.
crônicas da cidade, volume I
meio dia e meio novamente. os olhos cansados fitavam o relógio no canto da tela, e os carros passavam barulhentos na transitada rua lá embaixo.
-vou almoçar - disse, e saiu em seguida. ouviu a porta sendo trancada e cambaleou rumo ao elevador. os prédios que se viam pela janela, tão convidativos... 'venha tomar um chá no meu terraço qualquer dia, rapaz', imaginava. a cidade, imensa, cheia de arranha-céus e poeira no ar, parecia mesmo chamá-lo para fugir, e adentrar uma selva de concreto sem se preocupar com muita coisa. era seu costumeiro delírio frente à rotina. eram apenas os dias passando.
entrou no elevador, apertou o térreo, e pelo espelho viu pessoas despreocupadas, descontraídas, como se a rotina lhes fizesse bem. pudera, eram pessoas normais, vivendo suas vidas. ele ficava se perguntando, 'será que sou tão estranho assim, por achar minha rotina uma prisão?', sem perceber que o elevador já estava no térreo faziam dois minutos.
-garoto, tá parado aí porque? - questionava o segurança. de cabeça baixa, rodou a catraca e saiu em direção a rua. 'pra que?', se perguntava, 'pra que raios eu tou fazendo isso?'. essa pergunta ecoava imaginariamente por entre as galerias finas. o ar condensado saia de sua boca apressadamente. os minutos escorriam pelos ponteiros. já era quase uma hora da tarde.
-vê o de sempre, por favor.
-é pra já, jovem. - e com a resposta, vinha o prato da mesma comida consumida dia após dia após dia após dia. a comida descia como pedra, dilacerando a garganta seca. uma e quinze, subia a rua vagarosamente. uma e vinte, e fitava o elevador, sem vontade nenhuma de subir. 'queria finais de semana eternos', reclamava mentalmente. passou as horas seguintes maquinalmente, e durante esse tempo se sentia sem vida. eram apenas os dias passando.
seis e quinze, subia novamente a rua, olhando pro céu. a lua havia resolvido dar as caras em meio à tanta fumaça. começava a se sentir mais leve. girou outra catraca, e embarcou no penúltimo vagão. dormiu serenamente, largado. acordou num ressalto, duas estações depois da sua parada. saltou para dentro de um ônibus qualquer. 'como queria o final de semana mais perto... ah, como queria!', pensou antes de adormecer novamente. saltou, e ao girar a chave, um súbito conforto. deitou-se na cama, puxou o telefone e discou calmamente. olhou para o relógio de cabeceira, que marcava nove e meia.
começou a rir. e do outro lado da linha, uma pergunta.
-nada. são apenas os dias passando.
-vou almoçar - disse, e saiu em seguida. ouviu a porta sendo trancada e cambaleou rumo ao elevador. os prédios que se viam pela janela, tão convidativos... 'venha tomar um chá no meu terraço qualquer dia, rapaz', imaginava. a cidade, imensa, cheia de arranha-céus e poeira no ar, parecia mesmo chamá-lo para fugir, e adentrar uma selva de concreto sem se preocupar com muita coisa. era seu costumeiro delírio frente à rotina. eram apenas os dias passando.
entrou no elevador, apertou o térreo, e pelo espelho viu pessoas despreocupadas, descontraídas, como se a rotina lhes fizesse bem. pudera, eram pessoas normais, vivendo suas vidas. ele ficava se perguntando, 'será que sou tão estranho assim, por achar minha rotina uma prisão?', sem perceber que o elevador já estava no térreo faziam dois minutos.
-garoto, tá parado aí porque? - questionava o segurança. de cabeça baixa, rodou a catraca e saiu em direção a rua. 'pra que?', se perguntava, 'pra que raios eu tou fazendo isso?'. essa pergunta ecoava imaginariamente por entre as galerias finas. o ar condensado saia de sua boca apressadamente. os minutos escorriam pelos ponteiros. já era quase uma hora da tarde.
-vê o de sempre, por favor.
-é pra já, jovem. - e com a resposta, vinha o prato da mesma comida consumida dia após dia após dia após dia. a comida descia como pedra, dilacerando a garganta seca. uma e quinze, subia a rua vagarosamente. uma e vinte, e fitava o elevador, sem vontade nenhuma de subir. 'queria finais de semana eternos', reclamava mentalmente. passou as horas seguintes maquinalmente, e durante esse tempo se sentia sem vida. eram apenas os dias passando.
seis e quinze, subia novamente a rua, olhando pro céu. a lua havia resolvido dar as caras em meio à tanta fumaça. começava a se sentir mais leve. girou outra catraca, e embarcou no penúltimo vagão. dormiu serenamente, largado. acordou num ressalto, duas estações depois da sua parada. saltou para dentro de um ônibus qualquer. 'como queria o final de semana mais perto... ah, como queria!', pensou antes de adormecer novamente. saltou, e ao girar a chave, um súbito conforto. deitou-se na cama, puxou o telefone e discou calmamente. olhou para o relógio de cabeceira, que marcava nove e meia.
começou a rir. e do outro lado da linha, uma pergunta.
-nada. são apenas os dias passando.