sexta-feira, maio 08, 2015

gasolina

entenda o tamanho da minha frustração
em ter que te explicar de novo
que isso pra mim é bem maior

do que apenas sangue e suor
seco, impregnado nas paredes
de cada bueiro que eu já passei

eu ergo as armas como se não fosse ter
uma outra chance pra aumentar
o volume até estourar,
a voz até não funcionar,
só pra poder olhar pra trás
quando acabar

e ver que alguém sentiu que
há uma opção melhor
do que viver no padrão

e eu não me importo com cansaço
e noites mal dormidas
tanto compromissos que perdi,
tantas contas atrasadas,
tudo isso pouco importa
quando há um palco pra gritar

ainda há tanto pra correr,
tanto pra se ver,
não tente dizer que vai chegar
o dia em que vou me cansar

eu fecho os olhos e encaro o mal estar
outro gole d'água e fechar
a janela pra encarar
mais quinze horas pra chegar,
só pra poder olhar pra frente
e começar

descarregar o peso e preparar,
só mais dez,
outro chão
já vai sumir

"usar o medo
de combustível,
de motor pra chegar
onde eu preciso"

quinta-feira, maio 07, 2015

chão

os anos já passaram... não pude ver.
o que mais falta descobrir sobre você?
e hoje há tanto a acertar, que perdi de vista
o que nos protegia de nos mesmos.

então que seja assim, sem medo de se machucar.
esse mundo é cruel demais sem a gente ao menos se esforçar.
então sejamos nós, juntos tentando
enfrentar, alcançar, tudo o que nos faz viver.

pouco me importa um chão se eu não tiver você
pra me mostrar o lado bom de tanto cansaço.

e eu entendo quando diz 'já cansei',
mas eu me importo.
você sente isso também?
depois de tanto tempo, o desgaste é sem porquê.
superar já é comum.


então que seja assim.
então, sejamos nós.



[escrita em parceria com shamil carlos no fim de 2014]

quarta-feira, maio 06, 2015

haikais, #6

e tão forte quanto a dor
é o alívio enfim
quando o mal se esvai.

segunda-feira, maio 04, 2015

twenty-seven

it felt just like a gunshot to the chest, like so many other times. but this once, it spilled my hope so far beyond repair that everything went numb for days. what do you say in times like these? are there any words left anyway? all i can do is gasp for breath and hope it's all good somehow. we swore so many times that this would be the last time, so how do you spell last in this book of yours? i just don't know if i'll endure another one. maybe i'll drop dead to the floor, maybe i'll just go. either way, last means last after all.

quarta-feira, abril 29, 2015

thoughts of a loser, act VII - empty frames, blank pages, cold evenings

eu me lembro bem de praticamente tudo que vivi e cada pedaço de mim que deixei pelos cantos, com uma mistura de confiança, consideração e carinho. eu sempre tentei fazer tudo da maneira mais sincera e intensa que me era permitida, e sempre colhi bons frutos desse jeito de lidar com tudo, sem medo de me quebrar, sem medo de me entregar, vivendo mil dias por ano. sempre foi minha essência, e moldou demais tudo que posso reconhecer que sou hoje em dia, mesmo com tantas páginas em branco por ter escrito um livro rápido demais.

mas hoje eu parei pra me perguntar, 'e se eu tivesse feito diferente?', e junto com essa pergunta, mais outras mil vieram. 'e se eu tivesse dormido direito esses anos todos?', 'e se eu tivesse sido mais reservado?', 'e se eu tivesse me preocupado mais?', 'e se eu tivesse me levado mais a sério?', 'e se eu tivesse deixado meus sonhos de lado pra viver algo mais estável?', entre tantas outras, e no fundo a pergunta principal que norteia todas elas era 'e se eu tivesse feito diferente, será que eu estaria onde estou hoje?'. e por alguns segundos, me senti em uma moldura vazia, procurando por tinta onde eu sei que não há nada.

sei que é uma perda de tempo me preocupar com o que poderia ter sido e não foi, ou não deveria ter sido e foi assim mesmo, mas hoje em especial essa pergunta reverbera forte no meu peito confuso, com uma leve sensação de que haviam caminhos mais seguros pra trilhar, tardes menos frias pra assistir, e mesmo ciente de que não há pra mim um jeito diferente de ser que não seja a 300km por hora, poderia ter sido um passeio devagar, prestando mais atenção em todas as árvores que passaram como um borrão pela minha janela.

terça-feira, abril 28, 2015

um espaço

a noite já tinha caído lá fora, e eu me via sentado no sofá olhando pela janela, segurando uma lata de chá preto que pingava o suor de um dia todo de promessas e bagunças que insistia em não acabar.

era cada vez mais complicado preencher a casa inteira com música sem que ruídos estranhos se infiltrassem como se cantarolassem junto a notas conhecidas, e de tanto ouvir zumbidos ao longo da vida eu já tinha me acostumado a separar as notas dos uivos, e de tanto olhar pela janela, a chuva começou forte e certeira, me fazendo cerrar as cortinas e andar pelos corredores, que se esticavam como daquela vez em que o apito extrapolou seus limites e a casa se tornou um labirinto.

e agora eu corria até o quarto, com a esperança ingênua de fechar a porta e esquecer a chuva, mas quanto mais eu corria, mais longe eu estava, e mais cansado ficava, até o ponto em que novamente, como se fosse a reprise de um filme na madrugada, senti que o tempo congelava, e vi as gotas flutuando no ar do lado de fora de outra janela, enquanto as cortinas permaneciam esvoaçadas em uma dança estática, suspensas como se aguardassem a hora certa de se rasgar, e vi riscados no céu relâmpagos rubros que me fixavam os olhos.

e eu sentei no chão, apenas esperando algo que nunca chegava, esperando o zumbido cessar, esperando a chuva passar, esperando o dia acabar, apenas esperando.

segunda-feira, abril 27, 2015

tossing seeds

sentia-se uma criança presa em um jardim privativo, rodeado de árvores altas e vistosas por todos os lados. passara a vida jogando sementes pro alto, na esperança de que os galhos rompessem os limites invisíveis e alcançassem uma saída daquele paraíso imaculado. orquídeas, rosas, lírios, todas as cores abraçavam seus pés em uma calmaria sem fim, onde muitas copas riscavam a vista rumo ao céu nublado, enquanto ele andava, e andava, e andava. por vezes chovia, e ainda que algumas vezes a vontade de dançar na chuva se manifestasse como na infância, um grande carvalho era seu abrigo costumeiro, e ele já havia perdido as contas de quantas vezes adormecera sob sua proteção.

naquele dia fechado não foi diferente, e a tempestade constante que se abatera molhara seu corpo por inteiro enquanto lançava as últimas sementes antes de procurar refúgio. mas dessa vez, acordou com a chuva leve batendo no rosto. o carvalho se fora, dizimado por uma trovoada impiedosa que levara consigo a maioria das árvores do jardim, que ao invés de um teto de folhas agora descansava sobre uma garoa de cinzas.

e para ele, que não encontrou mais sementes nem motivos, só restou andar.

sexta-feira, abril 24, 2015

outra valsa, pt. iii

a fumaça cegava e sufocava
e eu, encolhido ao pé da escada
tossia e suava assistindo as brasas

não me lembrava do incêndio
nem do dia que as chamas começaram
revisava meus infernos, recordava insucessos
mas de nada adiantava, sentado aqui tão longe

ao passo que tudo se aproximava,
me agarrava em cortinas perdidas
e me atirava um pouco mais ao alto

e nesse meio tempo, largado ao pé da escada
mal conseguia entender o porquê da vontade
que me fez correr tanto, tanta ansiedade
pra acabar com a garganta cheia de cinzas

não me reconhecia ao cruzar janelas
que mostravam um brilho estranho nos olhos...

... que não era nada além do fogo refletido.

quarta-feira, abril 22, 2015

outra valsa, pt. ii

a vista do andar mais alto
que já arrisquei colocar meus pés
ofuscava muito do horizonte

sem saber quanto mais restava
pra subir, pra viver, pra sangrar
não conseguia pensar, apenas
subia e subia, cada vez mais

os passos eram penosos
cada um trazia um espinho
que parecia fincado no peito

a torre tremia, poeira dançava
solta em um baile desenfreado
refletindo minha própria bagunça

muitas vezes achei que cairia
e tantas outras cansei de tanto esforço

mas não desisto de me arrebentar tentando.

quinta-feira, abril 16, 2015

sentindo, sentido

foi sobre acordar antes do despertador tocar. e ficar olhando os minutos passando, ouvindo os carros lá embaixo já ganhando pressa com o virar do ponteiro. este teto fica em silêncio frente a tantas indagações, diferente do último, que mais parecia o espírito zombeteiro pendurado no ombro, sempre contundente.

perguntei, perguntei, mas não houve resposta. só um zumbido quase mudo, que se não fosse interrompido pelo despertador tocando, teria me deixado surdo.

mais um dia, e mais um banho gelado pra acalmar os anseios.


segunda-feira, abril 13, 2015

outra valsa, pt. i

há tanto tempo as notas soam
desajeitadas mas tão sinceras
que grito, acompanhando o som

urgente, de longe, apenas
mais um dentre tantas vozes
inquieto, porém, por acreditar
em sonhos antigos de alcançar o céu

sempre flutuei o mais alto que pude
dando de cara com tetos de nuvens
que com afinco consegui transpor

e por tantas vezes me vi cercado
de sorrisos e mãos estendidas
de abraços mais do que sinceros
que aos poucos cansaram de voar

ainda há quilômetros de nuvem acima
mesmo tremendo, há tanta vontade, e...

daqui de cima tudo parece tão pequeno...