sábado, setembro 29, 2007

flores e meteoros, pt III

desviou das flechas agudas e ensanguentadas num piscar de olhos, quase cortava o ar. chegou cada vez mais perto da parede do castelo, com sua espada em mãos, o cavaleiro sorria em meio à desgraça. suas batalhas, antes motivo de tanta angústia, lhe traziam um estranho prazer. era como se afrontar a morte fosse um jogo, no qual ele sempre vencia. sua armadura, rachada, lascada, exibia em sua superfície extremamente polida o reflexo de um embate certeiro, colorido por manchas de sangue impressas.

incontáveis soldados já haviam sucumbido, suas ruínas desferidas pelas mãos do nobre cavaleiro, que antes apreciava flores, hoje as pisava em funerais inimigos. seu grito ecoava pela planície enquanto mais e mais carne era dilacerada sem dó. as orquídeas já estavam sem cor.

no altar, o rei já sabia, e aguardava seu destino ser cumprido.

escancarou a enorme porta de entrada, e ao pisar no mármore frio, quinze dos melhores soldados daquele reino estavam à sua espera. em vão, pois era a morte que batia na porta e entrava sem pedir licença. ao final de alguns minutos, quinze corpos descansavam em meio ao sangue. o preto-e-branco se perdia entre os tons avermelhados.

subiu as escadas, lançando ao inferno qualquer um que se atrevesse a cruzar seu caminho. 'ninguém vai me deter, ninguém. nem mesmo deus.'

adentrou os aposentos do rei, rei esse que aguardava calmamente sentado em uma cadeira, com uma adaga na mão. o cavaleiro levantou sua espada, e a deitou rente ao pescoço do monarca. 'você sabe que chegou seu fim, não?' perguntou, com um sorriso sarcástico no rosto. 'só me diga, meu filho, porque toda essa carnificina. porque você acaba com reino após reino, rei após rei, sem piedade? porque tanto ódio?'.

por um momento, lágrimas (ou quase isso) brotaram por detrás daqueles olhos negros. lembrou-se da destruição, lembrou-se do rosto delicado, cortado por um filete de sangue. lembrou de ter levado suas mãos ao céu. eis que se estancaram as lágrimas...

...e mais um corpo foi levado ao chão.

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