terça-feira, outubro 06, 2009

sobre uma linha verde

a madrugada o bombardeava com convites que seriam bem aceitos por um estômago vazio e uma vontade incontrolável de andar. já era o quinto mês desde que havia se mudado da vila mariana para a consolação, bairro tão ativo dessa cidade tão viva, e as descidas para a paulista durante a madrugada eram frequentes, principalmente nesses últimos dias em que seu colega de quarto havia viajado à trabalho e suas sessões de violão durante a madrugada estavam canceladas até segunda ordem. guardou suas coisas no bolso, chave carteira e celular, vestiu a velha camisa xadrez por cima da camiseta branca e saiu rumo à avenida sem saber bem para onde estava indo, e após alguns minutos de caminhada pelas calçadas cinzas e os prédios envidraçados sentava-se em uma mureta perto da entrada do metrô enquanto tentava se decidir que rumo seguir. já era uma e quinze da manhã quando resolveu-se por comer um lanche no subway, caminhar mais um pouco e dar por encerrada a sua volta. logo teria que tentar dormir pois acordaria cedo no dia seguinte, mais um dia cheio de trabalho como todos os últimos nos três anos desde que entrara na gravadora. caminhou até o local e pediu 'o de sempre', e enquanto pagava, surpreendeu-se com uma garota fazendo o mesmo pedido do outro lado do balcão. 'também venho sempre aqui por essas horas', disse. ele por alguma razão não conseguia parar de encarar aqueles olhos, e quando finalmente conseguiu responder, gaguejou de uma maneira tão espontânea que ela não pode deixar de rir. sentaram-se juntos na praça de alimentação vazia do shopping e conversaram por alguns minutos nos quais ele se encontrava visivelmente tímido, e ela, visivelmente animada. e quando os copos de coca-cola secaram, caminharam devagar até a saída. naquela noite, após caminhar um pouco no sentido contrário e andar quase o dobro até sua casa, ele deitou-se em sua cama com aquele 'nos vemos por aí depois' ricocheteando em sua mente.

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três semanas depois, descia a avenida no meio de mais uma madrugada com seu colega de quarto rumo ao mercado para abastecerem a geladeira, e algo além do vento gelado o fazia sentir-se bem, como se previsse o acontecimento seguinte. após alguns minutos andando pelos corredores cheios de salgados e refrigerantes, virou uma esquina e esbarrou nela, fazendo-a derrubar os pacotes de salgadinhos e os chocolates que segurava no colo. desculpou-se, esperando vê-la brava, mas ela sorriu lindamente e mais uma vez ficou preso à seus olhos que agora mais pareciam duas jóias lapidadas ou algo que o valha e alguns minutos após apresentá-la à seu colega estavam os três na lanchonete do supermercado conversando animadamente sobre tudo, de música à filosofia, e ele se espantava com as coincidências malucas que os dois acharam em suas preferências. o jazz e o cappuccino, clapton e kerouac, soja e design, tatuagens e estrelas, e se surpreendiam com os gostos em comum que surgiam enquanto ele, sem perceber, memorizava milimetricamente seu sorriso. logo ela começou a devolver os olhares que ele lançava sem querer, o que o fazia corar. ainda um pouco envergonhado, respondia tudo ativamente, e a conversa continuava fluíndo descontraidamente. seu amigo, que bem o conhecia, percebia seu acanhamento e ria por dentro, achando engraçado toda aquela situação. algumas horas já haviam se passado e seu chá gelado já estava esquentando quando ela disse que precisava ir, pois acordaria cedo no dia seguinte. e quando se abraçaram na hora de se despedir, pode sentir o respirar da garota bem de perto, o que fez seu corpo ficar paralisado por alguns instantes, enquanto ele a observava se distanciar. ainda ficaram conversando no bar por alguns minutos, porém ele estava com sua mente cada vez mais longe, e cada vez mais intrigado pela presença repentina daquela garota em sua vida, e mais frequentemente, em seu pensamento. então subiram para o apartamento e pegaram seus violões. aquele momento sagrado na rotina dos dois era o que possibilitava tanto entrosamento em sua banda e em suas vidas. naquela noite, tocaram mais inspirados do que nunca, mais da parte dele, que sentia algo diferente crescendo dentro de si.

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alguns dias depois, encontrava-se novamente sozinho em casa. seu colega havia ligado em seu escritório avisando que por causa de um problema de família teria que ir à casa de seus avós em minas, e ficaria lá por uma semana. seu apartamento ficava gigante quando estava sozinho, e o silêncio que reinava quando chegou do trabalho parecia se propagar infinitamente em todas as direções. havia passado por mais um dia estressante, e tudo que queria agora era sentar-se no sofá e descansar seu corpo e sua alma. ligou o computador e o som, e colocou para tocar o chemistry for changing times do blacktop cadence, seu disco preferido, que começou a delinar as suaves melodias preenchendo as paredes e os cômodos enquanto ele abria uma lata de chá verde, e olhava em volta todas as suas coisas, os violões encostados num canto da sala, os vários vasos de plantas e sua velha orquídea na mesinha de canto, o sofá branco com a manta roxa, o telefone antigo preto e dourado, e a janela que dava para a sacada, que o convidava a olhar a cidade mais de perto e respirar aquele ar gélido diretamente enquanto a quarta música do disco já havia tomado conta do ambiente completamente. olhou de cima tanta gente andando pela avenida absortos em seus compromissos, o horário de pico fazia com que aquele pedaço da cidade mais parecesse um formigueiro cheio de luzes, barulhos, copos sendo cheios e cigarros sendo acesos, e um sem número de carros que cruzavam tantas entradas buzinando sem ter um motivo concreto, buzinavam por inércia, por costume, por acharem que isso abriria magicamente o caminho congestionado à sua frente. tanto movimento o impulsionou a encarar tudo mais de perto, então subitamente largou a lata em cima da mesa, trancou a porta de madeira e desceu apressado as escadas, quase atropelando um de seus vizinhos no caminho. andou a esmo observando a vida pulsando nas pessoas, as sombras de mil corpos refletidas no chão, as cores vivas dos grafittis e de tantas pessoas se divertindo contrastando com as caras mortas dos trabalhadores cansados, tanta luz piscando que o fazia se sentir perdido, e ao mesmo tempo sabendo que aquele era e sempre seria seu lugar. percebeu então estar na frente do velho shopping, com sua fachada hoje cheia de vidros e marfim, e a vontade de um café invadiu-lhe completamente. desceu mais um lance de escadas e andou até o fim do corredor, passando por lojas e banquinhas, até chegar na cafeteria, que estava surpreendentemente vazia. encontrou-a sentada no sofá encostado à parede, com uma expressão de que palavras estavam quase saltando de seu interior, lutando para ser ditas, e ao vê-lo, elas saíram rápidas e diretas como uma flecha. 'estou indo para a alemanha na semana que vem', certeira como se tivesse esperado a vida inteira para dizer aquela frase e depois que o mundo acabasse, pois nada mais importaria, então levantou-se deixando para trás um copo de café vazio, uma marca de lágrima no estofado, o aroma de um perfume de laranja e um vazio na memória dele, que seguiu passos afora como se seus últimos dias tivessem sido um sonho confuso. parou em frente à entrada do metrô, e desceu as escadas rumo à casa de seus pais, não sem antes lançar aos grandes prédios da avenida paulista um olhar de compreensão, sobre a vida, o destino e todas aquelas inquietudes que sempre repousaram em seu peito. naquela noite, os entendia um pouco melhor.


texto formulado entre maio e outubro de 2009.

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