querida beatrice
quanto tempo já passou desde nosso último olhar... lembro-me de teus olhos, eles continuam impressos em minha memória, tão vivos e ao mesmo tempo tão ferrenhos. nossos dedos, entrelaçados, tua pele quente na minha, deus, quanto tempo... em dias frios como esse, essa tua falta que sinto me corrói de uma maneira tão forte que às vezes dá vontade de cruzar esse maldito oceano à nado. mas o vento me devolve a realidade de que o que fica para trás, é para ser deixado para trás, essas feridas que já quase cicatrizaram.
não lembro bem sob quais premissas eu resolvi partir. não lembro nem por que parti. talvez fosse demais a idéia de um 'para sempre'. talvez fosse medo, não sei, talvez. só sei que parti. e quão mal me fez essa viagem, só eu sei, ninguém mais. agora me encontro aqui, do outro lado do oceano, escrevendo folhas a esmo sonhando com algo diferente dessa paisagem desolada que assola meus sonhos, outrora tão agradáveis.
tem dias, lugares que cruzo, que me recordam tão vivamente tua presença, tua voz, teus passos, teu respirar tão próximo e teus lábios ardendo nos meus, que por vezes preciso gritar a mim mesmo que tudo isso são só memórias, de uma época perfeita, mas findada, por minha vontade, ou se preferir, por minha insegurança. e no fim das contas, tanto faz. olho em volta e vejo essas construções diferentes, outras pessoas e outros ares, e me dou conta de que tudo que posso fazer agora é continuar caminhando. não sei bem para onde, nem sei mais por que, mas é tudo que me resta afinal.
mas não houve ainda uma madrugada em claro que eu não sentisse teu perfume em meu travesseiro.
esteja bem, onde estiver, querida beatrice.
com amor,
luke.
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