sábado, maio 09, 2009

ode a jack

imensamente grato por um dia de chuva ele saiu de sua casa com nada além de uma guitarra surrada nas costas e alguns poucos reais no bolso que havia economizado durante os últimos dias que passou sem trabalhar ou coisa que o valha pois cada vez mais sentia a urgência de abandonar toda aquela pressão que pouco a pouco parecia esmagar suas têmporas entre agendas e prazos e compromissos enquanto tudo que ele queria era a simples e pura liberdade de fazer o que quisesse quando quisesse sem ter que ouvir que horas teria que acordar ou ir dormir. onde ficariam todas as notas que precisava para se sentir completo se tudo que conseguia pensar era tudo que ele não queria pensar, somada a insônia que a meses parecia o perseguir incessantemente, então andou pelo quintal enquanto as gotas iam beijando sua face e a sensação do gelado no rosto o fazia andar cada vez mais rápido na direção oposta de quase tudo que havia construído e agora abandonava de bom grado para tentar alcançar a plena vida que sempre havia sonhado, sem preocupações excessivas nem ordens diretas. se lembrou de cassady, o velho cassady dos livros que devorara nos últimos anos nos poucos momentos de paz que tinha e que se equiparavam apenas aos momentos em que deixava seu instrumento falar por ele como uma extensão de seu corpo gritando desesperadamente cada dissonância que o atormentava, cassady aquele que deixava tudo para trás cada vez que ouvia a estrada o chamar com seus lamentos guajiros e todas aquelas coisas loucas que imaginava encontrar além do horizonte daquele país que desbravara tantas vezes sobre tantas rodas, aspirando a poeira dos desertos e o lodo dos pântanos que enchiam seus pulmões com a mais verdadeira sensação de não ter amarras. caminhou pelas ruas por vários minutos e tomou um ônibus que o levaria até os limites da cidade de onde tentaria fugir para cada vez mais longe e para cada vez mais perto do sonho de alcançar o céu e poder olhar pra trás sem medo algum de se arrepender de nada que tenha deixado de fazer em tantos anos que passaram e tantos mais que passarão por sua vida em alta velocidade. adentrou um bar na beira do começo da estrada e tentou empurrar um café com queijo quente para baixo mas a ansiedade simplesmente havia expulsado toda e qualquer fome de seu corpo mas ainda sim havia conseguido algumas mordidas e goles e se sentia pronto para partir à qualquer momento, mas não sem antes passear pela pequena loja de conveniência do restaurante onde folheou praticamente todos os livros da estante de alberto caieiro a zibia gasparetto, folheou apenas pelo prazer de colher as palavras e cada uma delas podia ser absorvida em sua totalidade pois não havia mais nada que pudesse lhe tirar a atenção para o que realmente importava: a música e as palavras e as imagens e toda e qualquer manifestação de emoções e criatividades externadas com sinceridade e nenhum pingo de pretensão aparente, apenas a verdadeira intenção de se fazer sentir e entender completamente. saiu por alguns instantes e contemplou maravilhado a paisagem à sua volta com todos os seus morros de terra clara e os carros passando hipnoticamente e todas as pequenas casinhas surgindo uma após uma com suas melancólicas janelas circulares dispostas lado a lado formando um emaranhado de tijolos laranjas e buracos negros que eram eventualmente cortados por figuras esquálidas e vultos indefiníveis em toda sua passividade de não se preocupar se o tempo urge do lado de fora gritando para que nenhum de nós desista de correr atrás da vida antes que essa mesma nos deixe para trás deitados no chão nos perguntando 'onde foi que paramos de apreciar as nuvens e encaixamos a pressa e as cobranças em nossas vidas?' como se não soubessemos que a resposta é tudo que nos destrói e tudo que alguns poucos de nós tenta evitar fugindo dos padrões e tentando apenas ser feliz com o que nos basta. foi quando subitamente uma voz desconhecida resolveu oferecer um banco de passageiro livre até perto da divisa de campinas em troca de alguns trocados para o combustível assim como se fazia na velha nação americana nos anos dourados em que os poucos corajosos ou malucos o suficiente para correr atrás de seus sonhos o faziam sem pensar duas vezes nas consequências morais físicas e emocionais que poderiam ocorrer. podia sentir toda aquela velocidade adentrando suas veias e irradiando cada montanha existente nessa terra vasta e cada bairro e todas as suas luses intermitentes fazendo pulsar a vida em cada canto existente, e ao entrar no veículo rumo ao desconhecido ele pensou em neal cassady, o herói mítico de seus dias de conformado. ele pensou em neal cassady.

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