sentia o asfalto sob meus pés descalços. não me lembrava que caminho havia feito, mas de repente estava novamente naquele cruzamento encarando de baixo tantos prédios, que faziam a cidade mais parecer uma floresta de janelas e cimento. não se ouvia nenhum ruído, e as batidas do meu coração acelerado pareciam ecoar por aquelas ruas vazias. não sabia se minha vontade havia me levado até ali ou se foi apenas coincidência, novamente estava sentado no meio-fio, naquela mesma esquina. as luzes todas apagadas e os bares todos fechados denunciavam mais uma madrugada, friorenta noite paulistana que me encantava tanto. olhava atentamente tudo que me cercava, as vitrines solitárias, portões enferrujados, árvores balançando, postes, sacadas, um ponto de ônibus retorcido à minha frente, folhas caídas no chão. o cheiro de chuva me fazia sentir perto de casa, aquelas grades cortando a luz azul em meu corpo, tudo parecia tão certo. era tão fácil se lançar por cima das casas e alcançar aquelas cortinas balançando no vento, e hoje me encontrava descalço sentado aqui tão longe, mas ao mesmo tempo soavam tão familiares aquelas notas que me sussurravam teu nome, passos vagarosos, curiosos. me sentia tão imerso em meus pensamentos que pouco a pouco a escuridão ia dando lugar a um espectro pálido de cores tão belas quanto aqueles olhos e os muros iam perdendo seu contorno. aquela brisa me trazia melodias que a muito tempo não ouvia, invadindo completamente meu espírito e todos os outros à minha volta e meu coração diminuia seu rítmo lentamente, acompanhando a cadência da canção que agora me carregava em seus braços e eu flutuava por cima da calçada levado por uma dança soturna, de repente todos à minha volta dançavam juntos àquela distorção da realidade, já não me importava mais se acharia o caminho de casa, nem o frio, nem os minutos que agora se extendiam a dimensões infinitas e cada vez mais alta a música soava por todo lugar e os tons cálidos davam lugar a cores vivas e pulsantes e as formas de tudo e todos já não existiam, eram apenas uma valsa que corria conforme ditava a batida, se misturando com os corações aquecidos naquela madrugada sem fim.
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