já passava de duas da manhã quando vi a primeira placa que indicava meu destino - são paulo, 450km - já nem sabia mais onde estava ou onde pararia, só me importava continuar rumo à capital paulista o quanto antes e o motorista, um homem de meia-idade careca com um bigode saliente me encarava desconfiado, afinal não é todo dia que se vê um garoto de camisa de flanela com sotaque gaúcho carregado pedindo carona numa beira de estrada paranaense, mas mesmo assim, motivado pela bondade ou pelo dinheiro embolsado ou coisa que o valha, aceitou me dar carona até sua cidade natal, que já nem me lembrava o nome devido à ansiedade extrema que ululava em minha barriga e já nem sabia mais como me livrar dela, portanto passou a ser minha companheira de viagem, ela e a velha mochila preta que não saia de meu campo de visão nem por um minuto, contendo tudo que eu precisaria ao chegar por lá, um caderno em branco, uma caixa de chocolates brancos, um punhado de notas de 10 reais e a surrada edição de 87 de on the road de kerouac, nisso se resumia metade da minha vida - a outra metade radicada em são paulo, e em parte, na minha mente, visto que não me saia do pensamento desde a primeira palavra trocada, a fixação pela geração beat, o vício na coca-cola e os olhos azuis, pequena encantadora que agora me esperava no terminal tietê com o coração aflito como eu próprio me encontrava. a paisagem agora era de um tom verde-musgo forte, com árvores parecidas com pinheiros mais finos se extendendo até onde a vista alcançava, o asfalto gelado e o breu celeste salpicado de pontos brilhantes que faziam com que minha mente se acelerasse e tudo mais, e de repente um guri de chinelos na beira da estrada que vinha caminhando melancolicamente me encarou profundamente ao passar por nós e eu entendia o que aquele olhar queria dizer, 'é cara, é isso, estamos por aí aos montes, fodidos e preguiçosos, nos arrastando como fantasmas por esse país, seja na sola de borracha ou em pneus alheios apenas procurando um lugar que faça sentido no fim das contas e esse fim virá, para acertar cada ansia que não nos deixa descansar por nem um minuto sequer', e o motorista borrachudo se limitou a perguntar ironicamente 'mais um do seu bando perdido por ai?' e eu dando ombros me fixava novamente na paisagem, que abria alguns descampados visíveis entre as árvores e eu distinguia pequenos pontos de luz vindo de janelas aquecidas e familias tomando seus chocolates quentes antes de se enfiarem em suas cobertas - e me lembrava rapidamente da casa que deixei para trás, minha velha cama de compensado e colchão de água e minha mãe preocupada me dizendo que eu estava atrasado para as aulas e agora tudo isso havia se tornado apenas uma memória esmaecida perto de tudo que estava vindo. então repentinamente peguei no sono, e tive a impressão de ouvir a voz de brian fallon cantando suavemente 'nobody does it like you anymore' - e era isso que me impelia, saber que em algum lugar longe de tudo que eu considerei como meu mundo havia alguém único como eu, e eu estava realmente ansioso para entregar meu coração definitivamente, e o modo como toda essa loucura repentina fazia sentido era algo que somente eu e ela entendiamos, numa conversa direta entre mente e sentimento - e então acordei com o homem me cutucando, iriamos parar alguns minutos para descansar num posto que funcionava como parada para caminhoneiros frenéticos dormirem algumas horas antes de partirem mais agitados do que haviam chegado, mas ainda sim descansados, e o lugar mais parecia um cemitério de caminhões, que me lembravam grandes tartarugas de 100 anos descansando serenamente - então estacionamos perto de um poste de luz e eu fui até a loja de conveniência ver se achava algo para forrar meu estômago, não por ter fome, mas para ver se as borboletas se acalmavam ali dentro. ao voltar, percebi que o gordo tinha partido, 'gordo filho da puta' pensei, 'não há mais boas almas por aí'. sentei então no banco de madeira em frente à loja julgando que ali não seria incomodado até amanhecer, quando voltaria a procurar carona por aí - abracei minha mochila e dormi o melhor sono que havia dormido nos últimos dias, pois o sereno e a perspectiva de apenas mais um dia de caronas até chegar à são paulo fizeram minha inquietação diminuir, até cheguei a sonhar com a avenida paulista e todas as suas luzes e brilhando mais que todas elas, aquele sorriso de mãos dadas comigo sem preocupações inseguranças ou qualquer outra dessas coisas tão 'humanas' que acabam estragando a pureza de sentimentos como aquele, a sensação de estar verdadeiramente completo depois de 22 anos vividos lado a lado com um vazio inexplicável - pelo menos era isso que o sonho me dizia que eu encontraria: a paz de espírito que sempre sonhei.
[guilherme amato, com roteiro de daniella moraes ]
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