quarta-feira, maio 14, 2008

crônicas da cidade, volume VI

gotas de suor escorriam pelo canto de seu rosto, mesmo com a cidade batendo recordes de frio. os pensamentos desordenados e a cabeça latejante tiravam completamente sua concentração para os problemas cotidianos e todo o resto de suas tarefas pareciam se perder num borrão branco. levantou-se com dificuldade, devido ao mal estar e aos óculos que pareciam pesar uma tonelada, e foi para o quintal tomar um pouco de ar. esbarrou em uma colega de trabalho, que derrubou uma pilha de papéis, fazendo com que o pequeno corredor ficasse intransitável. embaraçado, começou a recolher os papéis, maldizendo aquele dia que não precisava nem ter começado, e não reparou o olhar de assustada da mulher que o observava, como se sua angústia fosse uma aura visível, carregada e tenebrosa. ao sair pela porta, o telefone de sua mesa começou a tocar. um, dois, três toques, e ele continuava do lado de fora, somente observando. cessou. só de pensar em voltar para aquele ambiente com o ar viciado, olhares cortantes e cheiro de mofo, sentia-se enjoado. queria não depender do salário, ou ser rico, ou roubar um banco, tanto faz. queria apenas não voltar ali. porém, nada havia a ser feito. pelo menos era isso que sua auto estima queria que ele acreditasse.

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ela caminhava a passos largos pela rua, como se vivesse em um conto de fadas ou coisa que o valha, observado as flores, sorrido para as pessoas que cruzavam com seu habitual rancor, sem se importar se receberia ao menos uma demonstração de carinho em troca. parou em uma padaria e pediu um refrigerante. sua garganta seca queria gritar a felicidade do mundo em três acordes. tudo acontecia de uma forma tão completa que ela acreditava que seu destino estava sob influência de alguma força maior. foi então que parou àquele 533 da avenida angélica, onde um homem alto respirava com dificuldade, afrouxando a gravata. parou alguns instantes enquanto o rapaz, curvado, se recompunha, ou ao menos tentava.

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então, ele levantou o rosto e seus olhares se cruzaram.

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o silêncio perdurou por quase cinco minutos, e nesses cinco minutos, os dois indivíduos se conheceram por completo, trocaram experiências, vivências e essências. e o baque foi tão forte que foram repelidos para longe sem mesmo chegar perto.

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ela continou caminhando, mas não via mais apenas cores nas flores, via flores num lugar onde tudo era da cor mais viva que conseguia imaginar. ficou marcada por aquela presença e aqueles olhos por detrás das lentes, que mudaram sua vida.

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ele a viu seguir rumo à esquina, virou-se e voltou ao escritório. surpreendentemente, o ar viciado dera lugar à um perfume doce de rosas, e o suor frio cheio de repulso dera lugar a um sorriso.

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