sexta-feira, junho 27, 2008
crônicas da cidade, volume VII
cruzou a consolação com pressa em meio aos carros enquanto o relógio em seu bolso fazia pressão em seu peito, não poderia perder nem mais um segundo porém sabia que não chegaria a tempo nem que todos os outros ônibus da paulista abrissem um corredor para que o seu passasse - deu sinal apressado e embarcou desajeitado quase derrubando um rapaz que se equilibrava com dificuldade com seu livro na mão e os fones de ouvido lhe tirando a atenção, então girou a catraca e sentou-se inquieto num dos últimos assentos, inquieto por não conseguir fazer os minutos não passarem ou ao menos passarem mais vagarosamente. lembrou-se de sua infância quando imaginava que à certa idade teria poderes especiais, pararia o tempo, voaria pelos céus e seria feliz, ah como essas cenas se materializavam em sua mente com tal facilidade que acabavam por parecer verdade, e ele esperava que um dia ganharia os céus, mas ao invés disso rastejava à quatro rodas pela avenida em sua imensa lentidão vendo ao longe o sol se pondo numa caótica cidadezinha com seus habitantes de ternoegravata cinza andando maquinalmente de uma ponta à outra da cidade sem se perguntar porque andavam ou nem ao menos olhar para aquele deslumbrante astro que esparramava sua luz e seu calor até o final da lapa, mas só até o final de semana quando trocavam suas roupas sociais por roupas de marca cigarros e putas na augusta - onde todo homem é homem com apenas vinte reais e as cervejas nunca esquentam e os hipsters dessa geração usam maquiagem excessiva para desfilar em toda sua blaséidade superficial (porque no fundo de suas angústias paradoxais tudo que queriam era um pouco de atenção e alguns olhares direcionados enquanto as caixas de som da inferno espancavam seus ouvidos). ele próprio também descia a rua indiferentemente as vezes mas agora isso nem passava pela sua cabeça, apenas pensava em alcançar seu destino a tempo mesmo sabendo ser impossível cruzar duas ruas completamente congestionadas em meia hora (a domingos de morais não era tão ruim mas ainda sim, congestionada) e ricocheteava em sua mente a imagem da garota sonhadora desistindo da espera, maldito dia em que o expediente resolveu se extender por tanto tempo que comprometeria completamente o cronograma de sua vida naquele instante único, apenas pensava nela e nada mais. culpava os faróis e também as pessoas que o encaravam por estar ofegante enquanto o ônibus deslizava para a vila mariana e agora apenas dez minutos de caminhada o separavam dos abraços que tanto desejava e ao ver a imponente estrutura do outro lado da avenida seu sorriso se abriu pra não fechar mais essa noite pois as cordas do violão de bob dylan ressoavam ao fundo enquanto os dedos entrelaçados brincavam de se acariciar.
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