quarta-feira, julho 20, 2022

doismilevintedois

tudo é movimento. o caminhar pra longe do que não nos cabe mais é uma jornada árdua, mas que aos poucos ganha contorno de passeio. 'não deveria doer', eu disse a mim mesmo tantas vezes, 'não deveria doer'. e não dói. porque essa dor, que não é física, existe somente no nosso inconsciente, não é real a menos que a gente queira. e eu sei o quanto eu quis essa dor, numa tentativa fútil de me agarrar ao que não me pertencia mais, por medo, por receio, por apego... a dor era tudo que me restava pra chamar de meu, de nosso. não havia mais cartas, fotos, memórias vivas, músicas pra dedicar, mãos pra segurar, somente a dor da ausência, que por mais que doesse, ainda era algo seu em mim. mas a dor da ausência não é real, mesmo que a gente diga que sim, mesmo que a gente deseje. porque uma vez que você foi embora, não cabia mais em mim, nem você, nem seu cheiro, nem sua voz, nem sua tristeza, nem sua falta. nada disso existia mais, por mais que eu quisesse e me agarrasse a esse fio como se estivesse pendurado em um precipício. mas nem o precipício era real, nem a queda me mataria. não me matou, afinal. cá estou, andando sozinho por novos ladrilhos, estes ainda inteiros. e ando, ando, porque tudo é movimento.

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