saí daquele lugar abafado por mais uma vez, correndo de ônibus em direção ao metrô, munido apenas de um discman e um punhado de coragem. comprei o bilhete e desci as escadas barulhentas até a plataforma, mas os vagões não haviam chegado. então, me sentei nos bancos e liguei o discman, e a musica começou a se desenrolar em meus ouvidos. eu havia largado as mesmas batidas de sempre por um tempo, estava ouvindo uma batida meio jazz com pop, numa lingua que eu não entendia, mas acho que captava o que a mulher estava tentando dizer com aquelas palavras. ao ver o trem chegando, me veio subitamente a lembrança de quando eu passava ali quase todo dia, varando a metrópole da chuva de ponta a ponta e saindo em busca de um algo mais, e me veio uma saudade. sorri, bons tempos aqueles. agora eu raramente descia até a estação, pois a responsabilidade da universidade me tomava praticamente todo o tempo livre, e mesmo que não tomasse, é deprimente não ter alguém pra segurar minha mão enquanto o trem viaja. foi então que a velha sentada a minha frente me perguntou porque eu chorava assim. eu finji que não ouvi, finji que o som estava alto, e ela virou-se pro lado, com uma expressão de pena na cara. então mergulhei nas minhas melancolias de novo. o cd já estava na metade, e uma baladinha tocada a violão e piano acompanhava aquela linda voz, que me trazia de volta uma série de lembranças, que serviam de combustivel para aquelas lágrimas que brotavam repentinamente.
as pessoas que estavam no mesmo vagão me encaravam como a velha, com cara de pena, compaixão, e apesar da tristeza, eu sentia um pouco raiva, pois não queria que eles sentissem dó de mim. eu chorava até os olhos não aguentarem mais, mas mesmo vermelhos eles enxergavam as pessoas sussurrando e apontando pra mim. não queria isso, queria apenas chorar em paz, sentir o trem deslizar pela cidade, isso me acalmava. então, foi anunciada a estação de baldeação, e o vagão ficou vazio. a porta do outro lado se abriu, e várias pessoas começaram a entrar. mais e mais pessoas, e quando percebi, já havia duzias delas em pé na minha frente, todas encarando em silêncio, ora eu, ora a poça de água ali no chão. senti um vazio enorme, e uma vontade louca de sair dali, mas ainda não era minha parada. pedi pra que o trem fosse logo, estava começando a ficar claustrofóbico no meio daquelas pessoas que me fitavam com tanta concentração. daria tudo pra sair dalí. então, logo na próxima parada, eu saí e corri para fora da estação. a luz do sol me bombardeou, e meu olho ardeu mais do que já ardia. o cd acabou, o discman começou a tocar ele de novo, e a velha ficou para trás. me peguei andando sem rumo, e parei na frente daquela enorme ponte, caminhei devagar até o meio dela e me debrucei no parapeito, e fiquei mais de meia hora ali, admirando a agua jorrando da fonte, as pessoas passando, os passaros voando. ali, de costas para os transeuntes, eu me senti melhor, pois ninguém ia ficar me encarando e indagando porque aquele garoto estava tão triste. fiquei ali por mais de meia hora, apenas olhando sem pensar em nada, e saí dali quando a vontade de chorar passou. então, caminhei o outro lado da ponte, e voltei a andar sem rumo, até que me deparei com a fonte que eu admirava lá de cima. sentei ali e a agua que respingava me refrescou o rosto. de repente, uma revoada de pombos passou rapido acima de minha cabeça, e eu me levantei para ve-los passar por entre as arvores, quando pousei a visão numa garota do outro lado da fonte, sentada na beirada assim como eu. ela olhou pra mim, deu a volta e sentou-se ao meu lado. 'porque choras?' - ela perguntou - 'é solidão?', e eu assenti com a cabeça. então, ela deitou-se em meu colo e disse 'é, eu também.' e só então que eu percebi que ela estava com os olhos vermelhos assim como os meus. juntos ali, passamos a tarde, e vimos o sol se por por detrás dos arranha-céus daquela cidade. então, ela disse 'vamos sair daqui.', e me puxou pelo braço. corremos de mãos dadas até a estação de metrô, pulamos a catraca e nos sentamos, e foi só então que percebi que tanto eu quanto ela estavamos sorrindo. ela disse conhecer um barzinho aconchegante perto da ultima estação, então com apenas alguns trocados no bolso, o discman e um pouco de esperança, deitei a cabeça no ombro dela e concordei em ir.
chegamos lá, e um saxofonista tocava uma melodia alegre, acompanhado por quarteto de blues. sentamos e ficamos ali abraçados ouvindo a musica, que pouco a pouco foi se transformando numa musica linda e lenta, e os casais foram se levantando e se dirigindo à pista de dança. ela me olhou sorrindo e eu apenas disse 'porque não?'. então levantamos também e deslizamos para a pista. rodamos abraçados pelo salão, sempre sorrindo e tropeçando as vezes. aquela sequencia se extendeu madrugada afora, e depois de muito dançar e já quase sem poder andar, saimos do bar. sentamos num morrinho e assistimos o sol nascer e nos beijamos mais uma vez. foi então ela disse 'tenho que ir agora. me acompanha?' e descemos para a estação novamente. no caminho, entre abraços, risadas, carinhos e beijos, ela me disse que havia sido a melhor noite da vida dela. concordei, pois nunca havia me sentido tão feliz. chegamos à porta, ela disse 'essa é a ultima da noite. me concede essa honra?' e mesmo sem forças, ainda dançamos ao som de uma valsa imaginária, abraçados e cansados. beijo, e pulamos a catraca novamente. já instalados no vagão, eu deitei em seu colo, e ainda sentia seu doce perfume quando adormeci. sonhei com ela, num vestido longo e preto, sentada numa mesa com uma taça na mão. eu a tomava em meus braços, e andavamos em direção à lua.
quando acordei com uma voz anunciando a minha parada, ela já havia partido, mas havia deixado algo comigo. então, voltei para casa, exausto e feliz. destranquei a porta, entrei no meu quarto e guardei o discman já sem bateria, e o celular que ela havia deixado em meu bolso, que só veio a tocar na tarde seguinte. deixei o discman em casa antes de sair, dessa vez eu não ia leva-lo comigo, pois estaria de mãos dadas com alguém quando entrasse na estação.
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