então me peguei a conversar de novo com ela, dessa vez num daqueles restaurantes de beira de estrada. ela me olhava de novo daquele jeito que seus sentimentos transbordavam pelos olhos, e era estranho, pois algumas horas atrás, ela me olhava como se nada tivesse se passado em nossas vidas. era estranho demais estar na frente dela após anos ao seu lado. gritamos, discutimos, rimos, e ainda sim me incomodava essa absurda negação. como isso? como não conseguiamos ficar juntos se nos amavamos? doía demais em meu peito tudo isso. eu já não aguentava mais então corri pela porta do restaurante, quase levando junto uma cadeira que estava em meu caminho. corri como nunca havia corrido antes, e acabei por me encontrar de joelhos frente a uma cachoeira, com um vazio enorme no peito.
foi então que me caiu a primeira lágrima, e como a cachoeira que me lançava um olhar de compaixão, as gotas começaram a cair de meus olhos e lavar minha alma. chorei por tanto tempo que não percebi que havia amanhecido. me lembrei de quando assistiamos o sol nascer juntos, e parecia que nada conseguiria tirar-nos um do outro. mas nós mesmos acabamos fazendo isso. ainda atordoado, caminhei de volta para o restaurante na esperança de encontrá-la lá ainda, e rezando para que houvesse alguma chance de uma conversa acertar tudo, e pra variar, foi esperança jogada fora.
quando cheguei, ela já havia partido. em meu carro, havia apenas um bilhete, dizendo que tudo ia acabar bem, que tudo se acertaria no final. mas a que preço? ao preço de não sermos mais os mesmos de antes no fim da história? liguei o carro e corri até o lugar onde costumavamos nos encontrar nas madrugadas frias para falar da vida, tanto as nossas quanto as de todo o resto do mundo, pensando que talvez ainda pudesse estar lá, se despedindo desse lugar que já havia nos escutado por tantas e tantas noites. mas ao chegar lá, só havia o vazio. ela realmente havia partido.
sentei ali e todos os nossos momentos juntos passaram pela minha cabeça como um filme. então era assim que cada um seguiria seu caminho, direções opostas e futuros incertos. fitei as estrelas por um momento, e mais uma lágrima brotou de meus olhos. deslizou por minha face, me fazendo relembrar de cada segundo em que esteve presente em minha vida. ao tocar o chão, aquela lágrima evaporou e uma estrela começou a brilhar mais forte. meu último pensamento foi feito em forma de pedido.
quando acordei em seus braços o céu estava iluminado pela lua com uma claridade serena. "eu tive um sonho ruim, sonhei que te perdia". então ela acariciou meu rosto. sorrindo, ela disse "tudo acabou bem, eu não te disse?". e lentamente o sol foi surgindo no horizonte, cortando as montanhas. o cheiro doce que vinha da plantação de amoras contagiava a brisa matinal, e o sol iluminou o sorriso daquela garota que nunca mais sairia da minha vida.
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