terça-feira, abril 28, 2015

um espaço

a noite já tinha caído lá fora, e eu me via sentado no sofá olhando pela janela, segurando uma lata de chá preto que pingava o suor de um dia todo de promessas e bagunças que insistia em não acabar.

era cada vez mais complicado preencher a casa inteira com música sem que ruídos estranhos se infiltrassem como se cantarolassem junto a notas conhecidas, e de tanto ouvir zumbidos ao longo da vida eu já tinha me acostumado a separar as notas dos uivos, e de tanto olhar pela janela, a chuva começou forte e certeira, me fazendo cerrar as cortinas e andar pelos corredores, que se esticavam como daquela vez em que o apito extrapolou seus limites e a casa se tornou um labirinto.

e agora eu corria até o quarto, com a esperança ingênua de fechar a porta e esquecer a chuva, mas quanto mais eu corria, mais longe eu estava, e mais cansado ficava, até o ponto em que novamente, como se fosse a reprise de um filme na madrugada, senti que o tempo congelava, e vi as gotas flutuando no ar do lado de fora de outra janela, enquanto as cortinas permaneciam esvoaçadas em uma dança estática, suspensas como se aguardassem a hora certa de se rasgar, e vi riscados no céu relâmpagos rubros que me fixavam os olhos.

e eu sentei no chão, apenas esperando algo que nunca chegava, esperando o zumbido cessar, esperando a chuva passar, esperando o dia acabar, apenas esperando.

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