eu me lembro bem de praticamente tudo que vivi e cada pedaço de mim que deixei pelos cantos, com uma mistura de confiança, consideração e carinho. eu sempre tentei fazer tudo da maneira mais sincera e intensa que me era permitida, e sempre colhi bons frutos desse jeito de lidar com tudo, sem medo de me quebrar, sem medo de me entregar, vivendo mil dias por ano. sempre foi minha essência, e moldou demais tudo que posso reconhecer que sou hoje em dia, mesmo com tantas páginas em branco por ter escrito um livro rápido demais.
mas hoje eu parei pra me perguntar, 'e se eu tivesse feito diferente?', e junto com essa pergunta, mais outras mil vieram. 'e se eu tivesse dormido direito esses anos todos?', 'e se eu tivesse sido mais reservado?', 'e se eu tivesse me preocupado mais?', 'e se eu tivesse me levado mais a sério?', 'e se eu tivesse deixado meus sonhos de lado pra viver algo mais estável?', entre tantas outras, e no fundo a pergunta principal que norteia todas elas era 'e se eu tivesse feito diferente, será que eu estaria onde estou hoje?'. e por alguns segundos, me senti em uma moldura vazia, procurando por tinta onde eu sei que não há nada.
sei que é uma perda de tempo me preocupar com o que poderia ter sido e não foi, ou não deveria ter sido e foi assim mesmo, mas hoje em especial essa pergunta reverbera forte no meu peito confuso, com uma leve sensação de que haviam caminhos mais seguros pra trilhar, tardes menos frias pra assistir, e mesmo ciente de que não há pra mim um jeito diferente de ser que não seja a 300km por hora, poderia ter sido um passeio devagar, prestando mais atenção em todas as árvores que passaram como um borrão pela minha janela.
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