sexta-feira, novembro 11, 2022

caixas

faz um certo tempo que eu cansei de tentar retomar o controle e a organização das diversas caixas que compõe minha vida. as coisas estão seguindo imprevisíveis com tanta mudança, interna e externamente, o que agrava a ansiedade que eu tento enterrar debaixo de acordes e nicotina. eu estou bem cansado de tentar dar conta de tudo, e de me sentir culpado por não conseguir isso.

me sinto pesado por ter tido absolutamente tudo definido e ter perdido esse equilíbrio que me acompanhou por anos. tudo parece indefinido e embaçado. e eu não sei se tenho mais forças pra apertar os olhos buscando enxergar um caminho.

se eu pudesse, abraçava a inércia. mas é preciso seguir pra continuar vivendo.

domingo, novembro 06, 2022

entre nós

"não cabemos um no outro, e não nos cabe lamentar". colligere - entre nós

hoje eu revivi alguns acontecimentos dos tempos recentes, e me dei conta de que já faz seis meses do nosso último contato. e quando paro pra pensar, é quase como se você fosse apenas uma memória distante, um vazio com o qual eu nunca vou poder realmente lidar. a gente nunca mais se falou, nem se viu, nem tive notícias suas. é como se você tivesse sido apagada da minha vida e sobrou apenas uma lembrança turva de algo que eu sei que vivi, mas não consigo sentir mais como algo palpável.

eu não consigo mais lembrar direito do seu rosto, do seu sorriso, do seu cheiro e da sua voz. a única coisa que ainda segue viva em mim é seu olhar, que ainda sigo procurando em cada esquina cheia de gente dessa cidade cinza, como se te ver atravessando a rua de longe fosse me trazer algum tipo de fechamento que me foi negado com a maneira que tudo se deu entre eu e você. 

entre nós, ficou apenas um espaço, que até hoje não aprendi a preencher.


quarta-feira, novembro 02, 2022

decantando

sabe... eu vejo uma beleza muito melancólica em fumar um cigarro debaixo de chuva olhando pro céu. e como sempre, busco respostas nesses momentos como se estivesse em um diálogo com as luzes, as nuvens e a fumaça. quando foi que eu reencontrei essa vontade de me sentir realmente vivo? e porque ela me escapou entre os dedos por tantas vezes?

me recordei de noites em claro olhando esse mesmo céu de outra janela, me perguntando também porque a sorte tinha me sorrido em definitivo. mas não era pra ser a última vez. mas eu me lembro... lembro como se tivesse sido ontem, da sensação de ter tudo no seu devido lugar, de compartilhar o inteiro de mim sem medos e amarras, e de me jogar ao mar sem me preocupar com ondas e ressacas. eu me lembro...

os contornos dessa embarcação começam a se fazer enxergar. há correntes e mais correntes que levam a tantos destinos possíveis, que sou capaz de perder a conta. mas não há caminho finito onde eu não me sinta enraizado. agora resta descobrir o quão fundo é possível plantar meus pés pra que minha essência possa reflorescer em um novo chão. 

i'm dead tired of these lonely
cold nights in the pouring rain
i clear ground and i pay it off
and nobody can say there is another way
the weeds still got such a long way to grow...

quinta-feira, outubro 27, 2022

ladeira

essas últimas semanas vinham sendo bem intensas, com doses cavalares de trabalho, álcool, viagens, ansiedade, pessoas e cigarros. depois dessa (des)carga emocional toda, tirei uns dias pra por a cabeça e o coração no lugar. e achei que tinha encontrado algumas respostas olhando pro céu da minha cidade natal, enquanto sentia o vento quente de uma tarde de sábado chicotear o quintal. eu, que sempre busquei a intensidade, nos últimos tempos prezei demais pela estabilidade, e os baques da vida fizeram com que as coisas fossem mais racionais, tornando a intensidade algo a ser temido. e olhando o sol se por, tão longe de casa, comecei a traçar planos, cenários, e encontrei um pouco de ordem em tudo que estava acontecendo. entendi também que haviam caminhos mais difíceis, outros inviáveis, e uma ânsia por viver que talvez não fosse a intensidade que eu gostaria de ter. resolvi me resguardar, certo de que isso me traria mais conforto. respirei fundo, encarei a velha ladeira que eu descia correndo na minha infância, e segui caminhando.

e agora, quando tudo parecia começar a tomar um contorno mais claro, quando o turbilhão em minha cabeça estava começando a cessar, as coisas tomaram outro rumo, e tudo pareceu girar pra longe do meu controle, enquanto eu tento juntar as peças de uma noite em que eu torci pra tudo dar errado, mas tudo acabou dando muito certo. e hoje, o olhar se esforça pra ter algum foco, enquanto a mente luta pra concatenar significados, olhares e sensações. mas acima de tudo, fica o gosto da surpresa.

porque às vezes, a gente encontra a intensidade procurada onde menos espera.

terça-feira, outubro 25, 2022

aftermath

noite passada eu terminei de assistir novamente uma série que sempre me foi querida demais, sempre mexeu comigo e sempre me lembrou a gente. eu lembro de assistir quando era mais novo, e pensar que um dia eu encontraria a 'the one'. me via como o personagem, numa busca eterna pela felicidade com as pessoas erradas, até que um dia eu iria encerrar essa jornada e ficar em paz pra sempre. e eu acho que encontrei isso, mas o destino quis que o final fosse diferente.

e ontem, me peguei pensando em uma frase que ouvi de uma das personagens, de que ela tirou o bilhete premiado logo de cara e que parou de comprar bilhetes porque sabe que não vai dar essa sorte de novo. eu vivi esse último ano e meio preso nessa ideia de que era o fim do amor pra mim. eu ainda acho que nunca vou dar a sorte que dei, de te cruzar no trabalho, ficarmos tão próximos e depois viver 3 anos tão intensos como foram. e sobre essa parte, eu realmente já estou em paz com isso. eu consegui ressignificar o suficiente pra que minha vida possa seguir tranquilamente daquele ponto em diante, ciente de que outros momentos e outras pessoas vão eventualmente fazer parte da minha vida.

porém, não dá pra desligar o carinho e com ele, a preocupação que tenho contigo. sigo desejando sua felicidade acima de tudo, porque pra mim, esse continua sendo o significa do meu amor.

portanto quero que saiba que você tem alguém que pro resto da vida vai querer teu bem, onde quer que você esteja.

domingo, outubro 16, 2022

sereno

sentado na beira da piscina de um hotel em brasília, fumando um cigarro, quase meia noite, eu me peguei pensando nesses últimos dois anos. quantas vidas deu pra viver nesse tempo? quantas reviravoltas surpreendentes, pro bem ou pro mal, couberam nesse curto espaço de tempo? tanta coisa que o guilherme da virada de doismilevinte pra doismilevinteum nunca poderia prever.

o coração finalmente encontrou algo que pode ser chamado de paz, apesar de seguir com espaço, e mesmo que aquele mar de sentimentos ainda persista, hoje é pura calmaria. tantas crises se passaram que hoje eu chamo minha ansiedade pelo nome, e aprendi a controlá-la, mesmo isso quase tendo me custado a sanidade. a saudade passou, a feira passou, e aquele fim onde tudo acaba bem ganhou novos contornos. ele ainda não chegou, mas creio que mesmo que tarde, ele não vai falhar.

e eu finalmente aprendi a apreciar os caminhos que levam até ele. hoje, durmo sereno.

quarta-feira, setembro 28, 2022

vista

essa varanda já não aguenta mais
minhas noites em claro
revivendo nós dois
entre cada cigarro

o olhar perdido
nos prédios ao redor
me traz o amargo
do que já não faz sentido

sempre achei
estranho demais
as pessoas que se
cansam de tentar
mas você me provou
que até eu posso mudar

sei que foi assim
como deveria ser
com toda a intensidade
que cabia

mas você preferiu ouvir
o ruído da incerteza
e nessa bagunça
não tem mais lugar pra mim

sempre achei
distantes demais
as histórias que
parecem se apagar
mas você me provou
que estar longe é só
um ponto de vista

vou ligar o carro
e dirigir por aí
sem te procurar no meio
da multidão

mais um cigarro
mais uma música
essa canção já
não me lembra tanto você

como um dia já lembrou

segunda-feira, setembro 19, 2022

rio branco

águas passadas que voltam a correr.

retratos antigos se transformando em movimento.

as notas abafadas soavam como um convite, enquanto o mundo se silenciava ao meu redor.

momentos sobrepondo o rubro entardecer, onde já não há tanta neblina pra ofuscar a visão.

um doce perfume pairava no ar, e tão logo surgiu, se desfez em silêncio.

sobraram apenas os cabelos ao vento e um conforto familiar.


sexta-feira, setembro 16, 2022

haikais, #9

quanto tempo
é tempo demais
até não ter mais tempo

segunda-feira, setembro 12, 2022

metade de mim

ontem foi mais um daqueles dias. um domingo muito feliz, um festival, tanta gente conhecida, e faltava seu rosto ali. fiquei apreensivo pensando que você poderia aparecer, e eu não saberia como agir, e no fim, fiquei me sentindo vazio por mais uma vez, sentir que há uma força maior nos afastando.

e durante todo o dia, me peguei pensando que era mais um daqueles momentos que foram ótimos, mas não foram perfeitos porque não vivi eles com você. essa sensação recorrente de que falta algo, que tem me acompanhado por meses a fio, que quase não me incomoda mais, apesar de sempre percebê-la. sei que sou um inteiro, mas sinto que era pra gente ser dois, e esses inteiros perderam sua outra metade.

semana passada eu toquei pela primeira vez (e possivelmente a última) a versão acústica da música que fiz pra você. um pouco antes tinha começado a chover, e bem nessa hora, parou de vez, e enquanto eu tocava eu fiquei imaginando você aparecendo do nada, como um final feliz de uma comédia romântica, cantando os últimos versos enquanto a gente cruzava o olhar depois de tanto tempo. mas não aconteceu, parece que não vai acontecer, e eu tenho lutado cada vez mais forte pra aceitar isso. fico me perguntando se essa sensação vai se manter quando a gente começar a tocar essa música com banda, depois de lançar o disco.

eu nunca mais consegui ouvir a música sozinho em casa. não consigo imaginar como vou me sentir ao ouvir um coro de cinquenta, cem pessoas, cantando com toda força sobre oceanos de paz. vai ser difícil.

enquanto isso, sigo navegando pela tempestade.


se esse for o final, um finito do que pode ser

gastando o meu tempo encerrando o caos

por alguém que partiu, simplesmente escolheu seguir

encerrando o seu tempo retornando pro caos

um minuto e muda, depois não importa

o que passou já foi, não tem mais volta

e o que sobrou pra mim... essa saudade


metade de mim - a saudade