sexta-feira, abril 18, 2008

crônicas da estrada, prólogo

então ela acordou como se nada mais no mundo fizesse sentido; pegou um punhado de roupas, umas poucas notas de dez e saiu em direção à porta para nunca mais voltar. deixava para trás seus pensamentos, seus objetivos, sua casa e seu amante. se sentia num filme, onde o clímax do enredo era uma guinada súbita na direção seguida. parou no batente por alguns instantes e olhou à sua volta: revistas, camisetas, embalagens, quadros e um aquário. não veria novamente aquela desordem tão familiar. o celular vibrou em cima da mesa, se movimentando lentamente rumo à borda. correu para atendê-lo, 'o barulho do telefone se espatifando no chão certamente o acordaria'. ligação à cobrar. cancelou antes que a mensagem automática terminasse e desligou o aparelho. deu comida aos peixes e fechou a porta atrás de si, deixando um mundo de tormentos e rotinas para trás. sentia-se mulher, depois de tantos anos interpretando uma frágil garota sob a asa de um homem. ela era forte, mais forte do que aquele que acreditava protegê-la. 'cansei de me passar por frágil. cansei de apenas sonhar com mais do mundo. eu quero. e terei', disse em voz baixa. ao atravessar a avenida, passou direto pelo ponto de ônibus onde dava partida em sua rotina periódica. hoje andaria até a estação, uma hora de caminhada não chegava nem a fazer cócegas em suas pernas. não precisava de conduções, nem caronas, nem afagos. hoje ela conquistaria o mundo sem pensar duas vezes nas consequências. lembrou-se de um livro que lera na semana anterior, pensou em cruzar o país, despontar num lugar desconhecido e sentir-se livre de qualquer amarra que pudesse lhe tirar o senso de liberdade. 'eu sou mais forte que você', repetia. porém, dessa vez, sem marejar seus pequenos olhos.

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