sexta-feira, abril 11, 2008

ante o tempo, pt II

eram duas horas da tarde de uma sexta-feira qualquer. o relógio mudava os números vagarosamente, com o calor passando uma impressão de lentidão, como se o tempo suasse ao se arrastar pelo dia. em cima da mesa, um copo de café que já esfriara, alguns papéis rabiscados, uns poucos discos e um telefone mudo. do lado de fora da casa, a luz do sol irradiava forte o quintal, e as folhas das árvores olhavam janela adentro sem se mover nem piscar. alguns poucos ruídos nos fundos, e a música baixa saindo das caixas. 'and this makes me whole', dizia a voz por cima dos instrumentos. parou por uns instantes para pensar no que significava se sentir completo, algo que até pouco tempo atrás não julgava ser possível. 'reflexões sempre foram meu maior passatempo'. lembrou das vezes em que ele e um amigo subiram a rua do colégio e sentaram na calçada, na frente de um poste em especial. a brisa que soprava naquele ponto exato, somada à cerveja barata e a cumplicidade dos dois acabou por tornar aqueles dias momentos eternizados em sua memória. não se sentia completo, mas era quase. na época, achava que o que faltava não existia, então era o mais perto que poderia chegar. conversavam por horas, riam, e se compreendiam. ambos buscavam algo maior que sua compreensão, não objetivos a serem alcançados e metas a serem batidas, mas sim algo introspectivo que tinha por finalidade colorir suas almas. eram tempos diferentes com prioridades diferentes. recordou-se também de tantas andanças sem rumo que fizeram juntos pelos bairros da cidade, desbravando esquinas e ruelas pouco frequentadas. seu espírito de liberdade alcançava seu auge, e a cada parada que faziam, se sentiam conquistando o mundo.



três e meia da tarde. 'os tempos são outros', pensava, 'agora há tanto a fazer e tão pouco tempo. os momentos estão cada vez mais preciosos'. gostava sim da idéia de dispor de tempo livre de sobra, e poucas responsabilidades. mas já não conseguia assimilar a idéia de não se entregar completamente aos compromissos atuais, mesmo que de tempos em tempos sentia uma incontrolável vontade de voltar àquela esquina e passar horas sob o sol, com a mente livre de preocupações cotidianas, livre para poder navegar por aí, como era de costume naqueles tempos. enfim, tornara-se adulto, ao menos por fora. suas crenças e vontades de quando era ainda um adolescente ou coisa que o valha mantinham-se intocáveis. seus sonhos eram os mesmos. porém, agora que o tempo é mais escasso, nas pequenas coisas do dia a dia, encontrou sua plenitude. nos pequenos atos, sentia-se como se estivesse completo. suas longas horas tornaram-se poucos minutos. mas, devido às circunstâncias, meios e companhias, esses poucos minutos vem valendo mais do que dias inteiros.


'this makes me whole'. compreendia perfeitamente o que a música queria dizer.


alguns instantes na estação, de mãos dadas.
dois minutos de palavras, trocadas por telefone.
poucos acordes dispersos, no começo da madrugada.
uma hora de sono, de braços envolvidos.
fragmentos de um olhar.


isso significava mais do que mil horas fitando o céu.

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