terça-feira, maio 24, 2011

pattern against user

ouvia os fracos tiques de seu relógio de pulso ressoarem pelo silêncio do quarto como grandes sinos de uma igreja. já estava acordado a mais ou menos meia hora, mas ainda não tinha juntado coragem de se levantar. pouco a pouco os eventos da noite anterior lhe voltavam à mente, como peças de um quebra-cabeça sem fim. ele decidiu se vestir e ir beber algo. arrumou o cobertor por cima dos ombros dela com cuidado e caminhou até a cozinha, atrás de um gole de refrigerante, e no caminho quase pisou na cachorra que mais parecia uma almofada negra e peluda, dormindo esparramada no chão. refrescou sua garganta e ao voltar, ouviu uma voz suave vindo debaixo do cobertor, perguntando que horas eram. 'quatro e meia, dorme que ainda tá cedo pra levantar', e com um beijo na testa, colocou ela pra dormir novamente, e deitou-se ao seu lado, contemplando os contornos do teto no escuro.

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os ouvidos zuniam alto, mas tinha valido a pena. ouvir aqueles acordes e gritar junto cada refrão, era o que o mantinha vivo. no caminho, discussões, mas dessa vez ele não tinha culpa. de cara fechada, os dois subiram a avenida de ônibus sem trocar nenhuma palavra, e ao chegar no metrô, a pergunta. 'você não gosta mais de mim, não é?'. 'para com isso', respondia, 'é claro que gosto, foi só uma briga. eu peço desculpas, tá bom? eu não devia ter gritado também', disse. e os ânimos começaram a acalmar, e ao chegar em sua estação, as mãos dadas já denunciavam que seria uma noite em que o carinho que sentiam um pelo outro faria com que eles esquecessem os arranhões ganhados mais cedo. os olhos inquietos dele percorriam o rosto dela ainda em espanto, a cada vez que ele se lembrava do caminho que percorreram até aquele momento. 'às vezes eu acho que vou acordar e você vai desaparecer, sabia?', dizia. já de madrugada, uma sensação de 'já vivi esse momento antes' assolava o ambiente. olhou pro lado, e viu a garota repousando com uma expressão angelical em seu rosto. 'você foi o melhor presente que eu já ganhei', sussurrou em seu ouvido. levantou-se e foi até a geladeira buscar um pouco de refrigerante, mas preferiu beber água, pra variar.

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a dor de cabeça já estava eliminando qualquer tentativa de acertar as coisas. observava as lágrimas brotando de seu rosto e tentava entender o motivo de tanto desconforto. por fim, o cansaço se abateu e os dois cederam, se abraçaram, e resolveram ir pra casa. 'não sei quando aconteceu, mas eu endureci por dentro', pensava. não conseguia se lembrar de quando foi que as coisas mudaram tão drasticamente, só sabia que agora era assim, duro. 'se fosse em outros carnavais, eu teria gritado menos e ouvido mais'. apenas se sentia aliviado por ser mais uma discussão findada. chegaram ao apartamento e foram dormir sem demora. um beijo estranho de boa noite fechou aquele dia, e ela adormeceu com aquele dia latejando no peito. ele se levantou em silêncio, foi até a cozinha e por um momento, jurava ter visto o vulto daquela cachorra que não estava mais entre eles, mas foi apenas impressão. 'sombras', disse pra si mesmo. abriu a geladeira e tomou o resto do chá verde que restava na garrafa. voltou pra cama no mesmo silêncio em que levantara. virou-se pro lado e falou um 'boa noite' que doeu pra sair, cuja resposta ficou suspensa no ar.

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desligou o motor e recostou seu corpo no banco. ficou assim, parado, por alguns minutos. apenas o barulho do portão automático se fazia presente. juntou suas coisas e fechou a porta, correndo pra pegar o elevador que estava parado no andar. entrou em casa e deitou-se na cama, sem nem tirar o tênis. o teto, fracamente iluminado pela televisão, fazia um teatro de cores e sombras que o fizeram se desligar da vida por alguns instantes. 'o passado parece tão mais distante agora', repetia. virou-se pro lado e ocupou a cama toda, na diagonal, e fitou a parede ao seu lado. e no fundo, se sentia agradecido por ter percorrido tantos campos, e se não se arrependia de ter feito tudo como fez, ao menos permitia que uma saudade leve o preenchesse. desligou o telefone e foi até a cozinha, encheu um copo de suco e parou diante da janela. acabara de percorrer metade da cidade, sozinho, cantando alto junto àquelas músicas que o faziam sentir mais vivo. contemplou as ruas vazias como quem vê seu futuro diante de si. então, terminou o suco e voltou pra cama, com um sorriso no rosto e uma forte intuição de que algo grande viria. viveria algo que nunca experimentara, pra talvez se tornar alguém que ele nunca foi.

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