segunda-feira, fevereiro 04, 2008

de noites, pt I

eu via espíritos passando pela rua. não sei se foi bem coisa da minha cabeça ou se eles apareceram de verdade, naquele estado em que eu não sei bem se a lucidez é devaneio ou coisa e tal e as pessoas passavam tão rápido por mim que eu não tive tempo nem de reconhecer o rosto ou coisa parecida, apenas me limitava a ver contornos transparentes de pessoas transparentes que mais pareciam véus balançando no vento para me fazer ficar confuso. até os objetos as vezes viravam contornos indefinidos ao fundo das salas claras com luzes acesas perto de postes. podia jurar que havia movimento dentro daquela cena, mas de repente as luzes se apagaram e eu fiquei apenas a olhar a grama nos meus pés e as folhas balançando ao berço da descida que se seguia. o muro nem era tão alto, mas era o suficiente pra tornar aquele vão algo só para se observar e nos privando de nos atirar à sua grandeza e experimentar de sua queda seguida de vazio. mas tudo bem, foi o suficiente perder sei lá, vinte minutos observando o fundo mudando constantemente à medida que a lua baixava o curso, e as pessoas não se importavam, acho que nem chegavam a perceber, que do roxo foi pro azul e do azul foi pro lilás, que é quase a mesma coisa que o roxo mas com algo de vinho no meio. elas ainda desfilavam e eu não conseguia entender porque não via os olhos, mas sim apenas o branco esvoaçado criando espectros de luz. o escuro sempre convincente em momentos como esse, em que observar o inalcançavel era a glória máxima que eu podia sentir. vivia o ar que circulava, que viciava e me fazia tirar os pés do chão, e a música imaginária já se abria para todos, e os lençóis agora flutuavam ritmados criando uma valsa de luzes e cores que eu nunca havia visto. a lua havia sumido, mas eu nem tinha me tocado, mesmo.

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