terça-feira, maio 24, 2005

cheiro de chuva, pt II

agora a chuva martela a janela do meu quarto, sem piedade, achando que vai me deixar mal. sim, mal, pois ela me lembra que há várias coisas que eu queria poder sentir enquanto as gotas tocam meu rosto, mas não vou. minhas expectativas mais desejadas são as mais distantes. meus sonhos menos realizáveis são os que eu mais almeijo. todo um mundo diferente, toda uma vida diferente da minha rotina afônica, onde cada berro parece mais um gemido abafado. cada segundo que parece uma década, o relógio que bate em marcha ré, tudo contribuindo para esse ambiente semi-escuro em que me encontro. as músicas batem em meu ouvido e me causam a sensação de estar cada vez mais longe, e a chuva me leva cada vez mais para um mundo de imaginação, onde todas as minhas vontades se completam.

a vontade de crescer.
a vontade de sentir.
a vontade de viver mais intensamente.
a vontade de poder correr sem me importar com nada.
a vontade de ser livre.
a vontade de poder gritar o mais alto que conseguir.
e também...

o meu relógio bate mais devagar, minha vida se estende por mais tempo, cada segundo corresponde a uma eternidade, meu tempo é maior, meu tempo é mais vazio, meus sentidos se aguçam.

sinto o frio batendo no rosto;
vejo a luz fraca entrando em meu quarto;
ouço o vento batendo na janela;
sinto o gosto da tua boca;
e sinto, acima de tudo, o cheiro da chuva penetrando minha alma de novo.

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