sonhar alto tem seus perigos. como cair do alto, com força, meter a cara no chão. depois, ficar lá, saboreando os cacos do azulejo cobertos de sangue, o gosto amargo de concreto e hemácias. olhar pra frente, o vermelho tomava a cena.
lírios manchados pedindo socorro.
flores, em todos os cantos, espirrando pólen, numa última tentativa de sobrevivência, desesperada. correndo contra o sol, os raios cegando a vista já cega, fazia daquele momento uma cena de piedade, uma criança correndo sem ver o seu destino, se apoiando nos caules espinhosos daquele jardim de rosas mortas. o perfume inebriante de éter emanado fazia daquele lugar um verdadeiro cemitério de amores, pra onde todas as frustações e o remanescente dos corações estilhaçados encontram seu último suspiro e o descanso eterno.
as pétalas espalhadas pelo chão choravam mais e mais, e o murmúrio de lamento delas se propagava entre os troncos retorcidos do que outrora foi um bosque, e ecoava, fazendo parecer vir de todos os lados. até que a criança achou descanso deitando numa lápide, e teve apenas poucos segundos pra se perguntar como havia caído em tal lugar, pois uivos denunciaram a presença de cães ceifadores, que caçam e trazem a morte para qualquer ser vivo que pisasse naquelas terras caídas.
seu único impulso foi correr para longe, entre as árvores, esperançoso. apenas querendo sobreviver. fitou as estrelas um momento antes de tropeçar nas raízes que se ergueram para pará-lo, e caiu de olhos fechados, para nunca mais abrí-los.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.